O recente anúncio, proferido durante uma cerimônia solene na Base Aeronaval Punta Indio, na província de Buenos Aires, marca o encerramento de uma era para a Aviação Naval argentina. Esta decisão, inserida no contexto do abrangente Plano Dédalo, oficializa a retirada definitiva de serviço dos caças-bombardeiros Dassault Super Étendard, aeronaves que por mais de quatro décadas representaram o pináculo da capacidade de ataque antinavio da Marinha argentina. O legado dos Super Étendard inclui feitos notáveis no conflito das Malvinas em 1982, como o afundamento do HMS Sheffield e do Atlantic Conveyor. A ausência de um substituto direto para essa plataforma estratégica eleva preocupações sobre as futuras capacidades operacionais da força, especialmente no domínio do ataque marítimo de asa fixa.
A confirmação da desativação foi feita pelo comandante da Aviação Naval, contra-almirante Román Enrique Olivero, durante o evento. O comunicado oficial detalha que a retirada definitiva do serviço ativo dos Super Étendard ocorrerá ainda no presente ano de 2026, culminando mais de quarenta anos de uma trajetória histórica considerada gloriosa, com destacada atuação nas Ilhas Malvinas. Embora a data exata para a cerimônia de baixa não tenha sido divulgada, a decisão abrange tanto os exemplares originais que foram incorporados à frota argentina na década de 1980 quanto os cinco Super Étendard Modernisé (SEM) que foram adquiridos posteriormente da França, e que, notavelmente, jamais chegaram a operar sob a bandeira argentina em missões de voo.
O fim de uma capacidade, não apenas de um avião
A baixa definitiva dos Super Étendard pela Armada Argentina formaliza a perda de uma capacidade operacional específica que, na prática, já se encontrava inoperante há mais de uma década: o ataque antinavio realizado por aeronaves de asa fixa embarcadas. Os Super Étendard originais, pilares dessa capacidade, cessaram suas operações de voo por volta de 2014. Diversos fatores contribuíram para essa paralisia, incluindo anos de subinvestimento crônico, a indisponibilidade de peças de reposição essenciais e a condição da Argentina como operador isolado, tornando-se o último usuário militar do tipo em escala global após a desprogramação dos últimos exemplares pela Marine Nationale francesa.
Uma tentativa de revitalização dessa capacidade ocorreu em 2018, quando Buenos Aires firmou um acordo com Paris para a aquisição de cinco Super Étendard Modernisé (SEM) de segunda mão, com previsões de entrega a partir do ano seguinte. Contudo, essa operação estratégica foi severamente comprometida pelo embargo britânico de material de defesa, imposto desde o conflito de 1982. Componentes críticos, notadamente os assentos ejetáveis Martin-Baker Mk 4A, de fabricação britânica, nunca puderam ser fornecidos devido a essa restrição. Além disso, a descontinuação da produção de outros itens essenciais na própria França agravou a situação, resultando em todas as aeronaves permanecendo em solo, incapazes de cumprir suas funções operacionais.
Atualmente, não há um substituto direto previsto para preencher a lacuna deixada pelos Super Étendard na Aviação Naval. Embora a Força Aérea Argentina tenha adquirido caças F-16AM/BM da Dinamarca, esses aviões equipam um ramo diferente das Forças Armadas e, em sua configuração atual, não dispõem de uma capacidade de ataque antinavio comparável à combinação estratégica do Super Étendard com o míssil Exocet. Essa decisão de desprogramação ocorre poucos meses após a retirada de serviço dos A-4AR Fightinghawk da Força Aérea, aprofundando ainda mais a redução do componente de combate de asa fixa das Forças Armadas argentinas e gerando questionamentos sobre a projeção de força do país na região.
Malvinas: os dois ataques que entraram para a história
A reputação e o prestígio dos Super Étendard na Argentina foram forjados de maneira indelével em apenas dois dias decisivos durante o mês de maio de 1982, no contexto do conflito do Atlântico Sul. Do lote total de quatorze aeronaves que haviam sido encomendadas à França, somente cinco exemplares foram efetivamente entregues antes que o embargo europeu entrasse em vigor, no início das hostilidades. Essas aeronaves vieram acompanhadas de um número limitado de cinco mísseis antinavio AM39 Exocet, e a responsabilidade de operá-las coube à 2ª Esquadrilha Aeronaval de Caça e Ataque, unidade que se tornaria protagonista desses eventos históricos.
Em 4 de maio de 1982, uma dupla de Super Étendard decolou da Base Aeronaval de Río Grande, na Terra do Fogo. Em uma missão audaciosa, as aeronaves realizaram uma aproximação em voo rasante sobre o oceano, contando com o essencial apoio de um avião Neptune de patrulha marítima para a designação de alvos. Durante essa investida, lançaram dois mísseis Exocet contra o destróier britânico HMS Sheffield. O navio foi atingido com sucesso, o que resultou em um incêndio incontrolável. Dias depois, durante a tentativa de reboque, o HMS Sheffield afundou, marcando a primeira perda de um navio de guerra britânico em combate desde a Segunda Guerra Mundial, um golpe simbólico e material significativo para a Royal Navy.
Pouco mais de três semanas depois, em 25 de maio, outra dupla de Super Étendard realizou um segundo ataque contra a força-tarefa britânica. Desta vez, o alvo foi o navio porta-contêineres requisitado Atlantic Conveyor, que desempenhava um papel logístico crucial ao transportar helicópteros pesados Chinook e Wessex, essenciais para o apoio às operações de desembarque em San Carlos. O impacto dos mísseis resultou na perda do Atlantic Conveyor e, consequentemente, de sua valiosa carga, forçando as tropas britânicas a cruzar a Ilha Soledad a pé, em um esforço logístico extenuante que entrou para a história militar como a marcha até Puerto Argentino. É importante ressaltar que, durante todo o conflito das Malvinas, nenhum Super Étendard argentino foi abatido em combate.
Plano Dédalo: reestruturação da Aviação Naval
A desprogramação dos Super Étendard é um dos pilares do Plano Dédalo, um programa estratégico de reestruturação abrangente da Aviação Naval argentina, concebido para ser implementado ao longo dos próximos cinco anos. Este plano ambicioso não se limita à simples substituição de aeronaves, mas visa uma transformação multifacetada que engloba a reorganização territorial das bases operacionais, a atualização doutrinária para refletir novos desafios e tecnologias, a renovação de infraestrutura crítica e a incorporação estratégica de novos meios e sistemas de armas. A iniciativa reflete um esforço para modernizar e adaptar a Aviação Naval às exigências contemporâneas, apesar dos desafios orçamentários e tecnológicos.
Além dos caças-bombardeiros Super Étendard, o Plano Dédalo prevê outras desprogramações significativas. Os helicópteros leves AS-555 Fennec, por exemplo, têm sua baixa prevista para 2027, principalmente devido à sua baixa disponibilidade operacional. Essas aeronaves desempenhavam um papel tático importante na designação de alvos além do horizonte, embarcadas nos destróieres da classe MEKO 360. A sua substituição será realizada pelos modernos helicópteros Leonardo AW109M, que prometem maior capacidade e confiabilidade para essas missões essenciais.
Outra alteração no componente aéreo da Aviação Naval refere-se aos aviões Beechcraft B-200. Essas aeronaves serão substituídas por dois Beechcraft B-360ER MPA, dedicados a missões de patrulha marítima, com recebimento programado para 2027. Adicionalmente, estão em curso gestões ativas para a aquisição de mais duas células desse modelo, que seriam designadas para apoio logístico, ampliando a capacidade de transporte e suporte da frota. Essas substituições visam não apenas modernizar, mas também especializar as capacidades aéreas da Armada Argentina, otimizando recursos e aumentando a eficácia em diversas operações.
A retirada dos Super Étendard e as demais reestruturações sob o Plano Dédalo marcam um ponto de inflexão na história da Aviação Naval argentina. A OP Magazine continuará a monitorar de perto esses desenvolvimentos cruciais na defesa e segurança regional, oferecendo análises aprofundadas sobre o impacto estratégico dessas mudanças. Para não perder nenhuma atualização e aprofundar-se nos temas mais relevantes de defesa, geopolítica e conflitos, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e mantenha-se informado com conteúdo de qualidade superior.










