O Exército dos EUA anunciou um investimento substancial de bilhões de dólares, em colaboração com a Unidade de Inovação em Defesa (DIU) do Pentágono, para introduzir a energia nuclear em suas instalações militares. Este esforço estratégico culminou na seleção de cinco empresas especializadas para desenvolver e implementar microrreatores nucleares em bases estrategicamente importantes em todo o território norte-americano. As empresas escolhidas e suas respectivas alocações incluem Antares Nuclear, que desenvolverá microrreatores em Fort Bragg, na Carolina do Norte; BWXT Advanced Technologies, designada para Fort Campbell, no Kentucky; General Atomics Electromagnetic Systems, que atuará em Fort Hood, no Texas; Radiant Industries, encarregada de Fort Benning, na Geórgia; e Westinghouse Government Services, com projetos para Fort Drum, em Nova Iorque. A iniciativa prevê a instalação de mais de vinte microrreatores em diversas instalações do Departamento de Defesa, sinalizando um compromisso robusto com a autossuficiência energética e a modernização da infraestrutura militar.
O programa janus e a busca por resiliência energética
Os acordos firmados, que podem atingir um valor combinado de até US$ 2,2 bilhões, representam um avanço crucial no programa Janus do Exército. Lançado em 2025, este programa é uma iniciativa ambiciosa que visa capacitar as instalações militares a gerar energia de forma independente, reduzindo drasticamente a dependência das redes elétricas civis, que são potencialmente vulneráveis. A criação do programa Janus foi impulsionada por uma ordem executiva que solicitou à instituição militar a aceleração da integração da energia nuclear, estabelecendo como meta a operação de um reator em uma base militar até 30 de setembro de 2028. Dan Driscoll, secretário do Exército, enfatizou a importância desta etapa em um comunicado: “A adjudicação destes contratos acelera nossa capacidade de fornecer energia de carga base segura e confiável diretamente às nossas instalações. Estamos construindo a resiliência energética necessária para projetar poder de combate globalmente, sem depender de redes externas potencialmente vulneráveis”. Esta abordagem garante que, mesmo diante de interrupções na rede civil, as operações militares críticas possam continuar sem falhas.
Os microrreatores serão de propriedade e operados por empreiteiros, com o Exército adotando um modelo de pagamento baseado no cumprimento de marcos técnicos específicos. Isso significa que os fornecedores serão remunerados apenas ao atingir objetivos técnicos predefinidos, incentivando a eficiência e a entrega de resultados. É importante ressaltar que, conforme esclarecido por oficiais em um briefing para a mídia, cada instalação manterá sua conexão com a rede elétrica comercial. Os reatores não têm a intenção de suprir completamente a demanda energética da base, mas sim de complementar e fortalecer a resiliência energética. O programa Janus segue a linha de outra iniciativa do Pentágono, o “Project Pele”, anunciado em 2022, que visava desenvolver um reator nuclear portátil de 40 toneladas, capaz de gerar de um a cinco megawatts de potência, demonstrando a diversidade de abordagens na busca por soluções energéticas avançadas para a defesa.
Segurança, vulnerabilidades e implicações geopolíticas
Um aspecto fundamental dos reatores futuros é a segurança e a não proliferação. De acordo com Jeff Waksman, principal vice-secretário adjunto do Exército para Instalações, Energia e Meio Ambiente, nenhum dos microrreatores utilizará urânio altamente enriquecido, ou urânio de grau armamentista. Esta distinção é crucial para garantir a segurança operacional e para mitigar preocupações relacionadas à proliferação nuclear, assegurando que o foco permaneça na geração de energia para fins pacíficos e estratégicos. Waksman explicou que o impulso em direção à energia nuclear deriva de uma crescente conscientização nacional sobre os riscos de segurança e a excessiva dependência de combustíveis fósseis. Ele destacou a vulnerabilidade da infraestrutura elétrica doméstica em cenários de conflito: “Ao contrário de conflitos anteriores, agora sabemos que nossa rede elétrica doméstica está potencialmente em risco em um conflito. Também sabemos que não seremos necessariamente capazes de mover combustíveis fósseis facilmente para onde precisarmos”. Atualmente, toda a infraestrutura crítica do Exército conta com alguma forma de combustível líquido fóssil como backup, principalmente diesel, o que representa um ponto de fragilidade logística.
A ameaça da dependência energética se estende além do território continental dos EUA. Waksman observou que os interesses norte-americanos frequentemente dependem de navios internacionais para o transporte de combustível. Em muitas ilhas do Pacífico, por exemplo, há uma forte dependência de combustível importado por embarcações de bandeiras estrangeiras, o que gera grande desconforto em um cenário de futuro conflito, dada a potencial interrupção das cadeias de suprimentos. Outra preocupação ambiental e de segurança é o gerenciamento de resíduos nucleares; Waksman assegurou que o lixo nuclear não será armazenado a longo prazo nas bases, implicando em soluções de descarte ou reprocessamento externo. Este esforço ocorre em um contexto geopolítico complexo, com conflitos como a guerra entre os EUA e o Irã, onde a disputa pelo Estreito de Ormuz – por onde passa cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo – demonstra a volatilidade do mercado de energia e os desafios para a segurança global. Tais conflitos têm contribuído para o aumento dos custos energéticos em todo o mundo, reforçando a urgência da autossuficiência energética militar.
A complexidade da escolha das instalações e a estratégia ampla de resiliência energética
A seleção das instalações para receber os microrreatores foi baseada em uma análise multifacetada e rigorosa, conforme detalhado por Brandon Cockrell, vice-secretário adjunto do Exército para Energia e Sustentabilidade. Os critérios incluíram o conjunto de missões da base (sua importância operacional e tipos de unidades), a viabilidade da rede elétrica existente, preocupações ambientais e requisitos de segurança. Cockrell também ressaltou o papel crucial dessas bases no desdobramento de tropas: “É realmente difícil olhar para as cinco [bases selecionadas] e não chegar à conclusão imediata de que isso é um link direto para a projeção de poder”. Ele enfatizou que a capacidade de projetar poder é fundamental para que o Exército possa cumprir sua missão, especialmente se houver vulnerabilidades na rede elétrica convencional. Em novembro de 2025, o Exército havia anunciado a consideração de outras instalações para o programa, incluindo Fort Wainwright, Holston Army Ammunition Plant, Joint Base Lewis-McChord e Redstone Arsenal, demonstrando a escala da iniciativa.
A resiliência energética tornou-se um pilar cada vez mais importante no desenvolvimento tecnológico em todo o Exército. Esta prioridade se manifesta não apenas nos microrreatores, mas também em outras áreas, como a competição entre três empreiteiros para construir um veículo tático leve capaz de gerar grandes quantidades de energia. Esses veículos são projetados para alimentar sistemas avançados como os de contra-drone, guerra eletrônica (EW) e armas de energia direcionada (DEW), que exigem um suprimento de energia considerável para operar eficazmente no campo de batalha. Embora o Exército não tenha divulgado os valores contratuais individuais para cada empresa de microrreatores nucleares, a Radiant, associada a uma base na Geórgia, revelou ter garantido um acordo total de US$ 750 milhões para quinze microrreatores nucleares Kaleidos. Esses reatores, com capacidade de 1 megawatt, estão atualmente em fase de testes na instalação DOME do Laboratório Nacional de Idaho. Em um comunicado da empresa, foi destacado que os microrreatores Kaleidos seriam transportáveis e “prontos para plugar”, evidenciando a inovação e a flexibilidade dessas novas soluções energéticas para as forças armadas.
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