As marinhas do Reino Unido e dos Estados Unidos, a Royal Navy e a US Navy, respectivamente, estão se preparando para o exercício multinacional Atlantic Thunder 26, uma operação de tiro real de grande envergadura no Atlântico Norte. Este treinamento naval culminará no afundamento planejado da antiga fragata norte-americana USS Klakring, da classe Oliver Hazard Perry. O principal objetivo é proporcionar um cenário realista para testar a eficácia de armas avançadas, a robustez das redes de designação de alvos e a integração de sistemas não tripulados em complexas operações combinadas.
O Atlantic Thunder 26 está agendado para ocorrer entre os dias 17 e 21 de setembro nas águas adjacentes ao campo de testes das Hébridas, uma área de treinamento estratégico localizada a noroeste da Escócia. O exercício envolverá a participação de forças navais e aéreas de ambas as nações, sublinhando a importância da interoperabilidade e da capacidade conjunta em um teatro de operações de alta complexidade. A escolha de uma fragata desativada como alvo permite que as forças participantes simulem com fidelidade um cenário de combate naval, avaliando não apenas o impacto das armas, mas toda a sequência de eventos que precede a neutralização de uma ameaça.
A importância estratégica do SINKEX e a experiência anterior
O alvo principal será a ex-USS Klakring (FFG-42), uma fragata de mísseis guiados que integrou a classe Oliver Hazard Perry e serviu à Marinha dos Estados Unidos por três décadas, de 1983 a 2013. A embarcação será submetida a uma série coordenada de ataques durante um SINKEX — um Sinking Exercise, ou Exercício de Afundamento Controlado. Essa metodologia permite às forças aliadas testar uma vasta gama de armamentos e sistemas de detecção contra um alvo naval de dimensões reais, ao mesmo tempo em que avaliam a integridade de toda a 'cadeia de destruição' (kill chain) necessária para detectar, localizar, acompanhar e, por fim, destruir uma unidade de superfície inimiga em um ambiente de combate simulado.
Embora o Atlantic Thunder 26 estivesse originalmente previsto para maio, o cronograma foi ajustado e o exercício foi adiado por aproximadamente quatro meses. Documentos aeronáuticos oficiais do Reino Unido confirmam que as fases de tiro real ocorrerão na nova data estabelecida, enquanto outras etapas do exercício, que englobam atividades de treinamento e preparação, estão programadas para serem realizadas dentro do complexo das Hébridas entre 10 e 24 de setembro. Durante as operações de tiro, uma área de perigo temporária será ativada, garantindo a segurança e impedindo o acesso de aeronaves civis ao espaço aéreo delimitado.
Conforme informações do portal especializado britânico Navy Lookout, o Atlantic Thunder 26 foi meticulosamente planejado para testar as 'kill chains' de armas de superfície, a resiliência das redes de ataque e a eficácia das operações multidomínio. Este conceito operacional visa integrar sensores, sistemas de comando e controle, e diversas plataformas — sejam elas navais, aéreas ou submarinas — para gerar uma solução de tiro precisa contra o alvo. Ao invés de um simples disparo de míssil contra um casco desativado, exercícios como este se propõem a replicar as etapas cruciais de um engajamento naval moderno, que incluem a localização e identificação do alvo, a distribuição de seus dados através de redes seguras de comando, a designação da solução de tiro a uma ou mais plataformas, e a aplicação coordenada de diferentes tipos de armamentos.
Os sistemas de armamento específicos que serão empregados contra a ex-Klakring não foram detalhados oficialmente. Contudo, a experiência de exercícios anteriores oferece uma clara indicação da complexidade esperada. No Atlantic Thunder 2022, forças britânicas e norte-americanas afundaram a ex-USS Boone (FFG-28), também uma fragata da classe Oliver Hazard Perry. Naquela ocasião, participaram ativamente a fragata britânica HMS Westminster, aeronaves Typhoon da Royal Air Force, helicópteros Wildcat, um destróier norte-americano e aeronaves dos Estados Unidos. O arsenal empregado incluiu mísseis antinavio Harpoon, mísseis Martlet, mísseis SM-6 e bombas guiadas, demonstrando a variedade de capacidades ofensivas integradas.
A US Navy destacou, após o exercício de 2022, que alguns dos ataques foram realizados a mais de 100 milhas náuticas além do horizonte visual. Essa capacidade foi alcançada por meio da utilização de informações fornecidas por uma rede de sensores distribuídos em plataformas aéreas, navais e sistemas não tripulados, evidenciando a crescente dependência de tecnologias avançadas para a detecção e engajamento de alvos em grandes distâncias.
O legado da USS Klakring e a exploração subaquática pós-afundamento
Construída pela renomada Bath Iron Works, a quilha da USS Klakring foi batida em fevereiro de 1982, o navio foi lançado ao mar em setembro do mesmo ano e, posteriormente, incorporado à US Navy em 20 de agosto de 1983. A fragata possuía um deslocamento de aproximadamente 4.100 toneladas, um comprimento de 138 metros e era capaz de atingir velocidades superiores a 29 nós quando operacional. Sua configuração permitia transportar dois helicópteros SH-60 e, originalmente, dispunha de um lançador Mk 13, apto para mísseis Standard e Harpoon. Seu armamento também incluía um canhão Mk 75 de 76 mm, torpedos Mk 46 e um sistema de defesa aproximada Phalanx, conferindo-lhe um perfil robusto para suas missões.
Durante suas três décadas de serviço ativo, a Klakring participou de inúmeros desdobramentos e operações cruciais para a política externa e de defesa dos Estados Unidos. Entre eles, destacou-se sua atuação na Operation Earnest Will, no Golfo Pérsico, durante a Guerra Irã-Iraque. Naquele conflito, navios norte-americanos foram empregados na escolta de petroleiros kuwaitianos, protegendo a navegação comercial na região de ataques e garantindo a segurança das rotas marítimas vitais para o abastecimento global de energia. Esta missão sublinhou a capacidade da fragata de operar em cenários de alta tensão e proteger interesses estratégicos.
A fragata foi desativada em 22 de março de 2013 e, desde então, permaneceu armazenada no Naval Inactive Ship Maintenance Facility, na Filadélfia. Em 12 de agosto deste ano, o casco da ex-USS Klakring deixou a região pelo rio Delaware, iniciando a jornada que a levará através do Atlântico para participar de sua derradeira missão como alvo do Atlantic Thunder 26.
O Atlantic Thunder 26 não se encerrará com o desaparecimento da fragata sob as águas. Uma das fases mais inovadoras e estrategicamente importantes do exercício ocorrerá após o afundamento. A área escolhida para o SINKEX está localizada além da plataforma continental, e a expectativa é que a ex-Klakring repouse a uma profundidade superior a 1.900 metros. A Royal Navy planeja então empregar veículos submarinos não tripulados (UUVs) para localizar e inspecionar minuciosamente os destroços. Esta fase permitirá avaliar o impacto exato dos armamentos, a integridade do casco após os ataques e coletar dados valiosos sobre a eficácia das armas e a resistência estrutural do navio.
Os UUVs encarregados desta missão deverão produzir imagens de alta resolução do casco e do leito marinho circundante. A análise dessas imagens fornecerá informações detalhadas sobre a avaliação de danos de combate, o que é fundamental para o aprimoramento contínuo de futuras estratégias de engajamento e para o desenvolvimento de novas tecnologias de defesa. A capacidade de inspecionar o alvo em profundidades tão significativas, utilizando sistemas autônomos, reforça o papel crescente da tecnologia não tripulada na inteligência naval e na avaliação pós-combate.
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