Uma expressão concebida durante uma simulação estratégica nos corredores do Instituto de Guerra Marítima (IGM), em Livorno, no início da década de 1980, transformou-se em pilar da política externa e de defesa da Itália. Atualmente, esse conceito, conhecido como 'Mediterrâneo alargado', orienta as operações da Marinha Militare desde o Mar Vermelho até o Pacífico, marcando uma evolução significativa na percepção estratégica do país. Pela primeira vez, um livro de historiadores e cientistas políticos italianos, intitulado "Il Mediterraneo allargato e l'Italia. Dalla Guerra fredda al mondo post-bipolare", reconstrói e analisa detalhadamente essa trajetória fundamental para a compreensão da geopolítica italiana contemporânea.
A gênese do conceito remonta ao ano letivo de 1981-1982, quando oficiais da Marinha Italiana, imersos em um jogo de guerra no IGM, necessitaram de uma nova designação para um teatro de operações emergente. Além dos quatro teatros tradicionalmente estudados pela instituição – o Pacífico, o Atlântico Norte, o Atlântico Sul e o Índico –, foi necessário integrar uma quinta área. Esta nova "zona geopolítica" abrangia de forma interconectada o Mediterrâneo, o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico, sendo batizada pelos oficiais como 'Mediterraneo allargato'. Quatro décadas após sua criação, a relevância dessa expressão é inegável, figurando em documentos oficiais, discursos ministeriais, publicações especializadas e no jornalismo italiano, com sua presença on-line atestada por aproximadamente 131 mil resultados em buscas no Google. O volume que investiga essa trajetória, publicado pela editora Viella em dezembro de 2024, é uma coletânea de nove ensaios organizada por Fabio De Ninno, professor de História Contemporânea da Universidade de Siena, e Federica Cavo, pesquisadora da mesma universidade. A obra integra a coleção do Centro Interuniversitário de Estudos e Pesquisas Histórico-Militares e está disponível para consulta gratuita no repositório da Universidade de Siena.
A gênese do conceito: antecedentes históricos e a relevância estratégica de Suez
Ainda que a cunhagem da expressão 'Mediterrâneo alargado' seja relativamente recente, a concepção de uma área de influência italiana que se estende além das fronteiras imediatas do Mediterrâneo possui raízes históricas mais profundas. Francesco Zampieri, professor de Estudos Estratégicos do Istituto di Studi Militari Marittimi de Veneza, em seu ensaio dedicado à Marinha Militare, evoca análises que prefiguraram essa visão. Já em 1899, o capitão do Exército Alfredo Cangemi descrevia o Mediterrâneo, em conjunto com o vital Canal de Suez, como uma "grande artéria" que conectava o Ocidente ao Extremo Oriente, sublinhando sua importância para as rotas comerciais e estratégicas globais. Décadas mais tarde, o almirante Giuseppe Fioravanzo, considerado por Zampieri como o mais proeminente estudioso italiano de geoestratégia, expandiu essa visão. Fioravanzo argumentava que o Mediterrâneo estratégico incluía não apenas o Mar Vermelho, mas também o Mar Negro, e se estendia a leste até o Golfo Pérsico, delineando uma vasta área de interesse geoestratégico para a Itália.
Para Zampieri, a compreensão do 'Mediterrâneo alargado' é intrinsecamente ligada à centralidade do Canal de Suez. O sistema complexo formado pelo canal, pelo Mar Vermelho e pelo Estreito de Bab el-Mandeb representa, na teoria estratégica, uma "posição decisiva". Essa designação ressalta que o valor inerente a essa passagem marítima transcende as forças específicas que possam ocupá-la em determinado momento. A liberdade de navegação através desse corredor é, portanto, de importância existencial para a Itália; sem ela, conforme resumido pelo autor, o país se veria "prisioneiro" das águas costeiras, e o Mediterrâneo regrediria ao seu status puramente geográfico, desprovido de sua dimensão estratégica ampliada. A recente ameaça representada pelos Houthis no Mar Vermelho, com seus ataques a navios comerciais, serve como um lembrete vívido e contemporâneo da veracidade e da urgência desse argumento estratégico.
A evolução da postura defensiva italiana durante a Guerra Fria
No período pós-Segunda Guerra Mundial, especialmente após 1945 e durante os primeiros estágios da Guerra Fria, a doutrina de defesa italiana concentrou-se majoritariamente em sua fronteira nordeste. Essa região, conhecida como a "soleira de Gorizia", era percebida como o ponto mais provável para uma invasão terrestre por parte do Pacto de Varsóvia, dominando as preocupações de segurança nacional. No contexto marítimo, o Mediterrâneo era considerado um domínio primário da Sexta Frota americana, relegando à Marinha Italiana um papel mais circunscrito: o de proteger as linhas de comunicação marítima na porção central do Mediterrâneo, em apoio às operações aliadas.
Apesar dessa orientação defensiva e regional, houve esforços para expandir as capacidades e o alcance estratégico da Marinha Italiana. Conforme apontam De Ninno e Cavo, as tentativas de fortalecer a frota de superfície foram, contudo, limitadas pelos rigorosos mecanismos de controle e planejamento exercidos pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) sobre as estratégias nacionais de seus membros. Adicionalmente, a aspiração italiana de desenvolver uma força estratégico-nuclear esbarrou em duas barreiras principais: as limitações tecnológicas intrínsecas da Itália na época e a categórica recusa dos Estados Unidos em fornecer mísseis balísticos embarcados. Zampieri destaca que, embora o cruzador Giuseppe Garibaldi, uma embarcação da Segunda Guerra Mundial, tenha sido convertido entre 1957 e 1961 para se tornar a primeira unidade de superfície do mundo projetada para o lançamento de mísseis balísticos com ogivas nucleares, seu valor foi predominantemente político e simbólico. O projeto de um submarino nuclear, batizado de Marconi, anunciado pelo ministro Giulio Andreotti em 1959, jamais se concretizou, sublinhando os desafios enfrentados pela ambição estratégica italiana.
A dinâmica geopolítica do Mediterrâneo começou a mudar na década de 1960, período em que a Royal Navy britânica iniciou sua retirada da região e a França, sob a liderança do General Charles de Gaulle, decidiu sair da estrutura militar integrada da OTAN. Esses movimentos criaram um vácuo de poder e uma necessidade de reajuste estratégico. Nesse cenário, a Marinha Militare italiana assumiu um papel mais proeminente, tornando-se o principal complemento da Sexta Frota americana no Mediterrâneo. Concomitantemente, a União Soviética intensificava sua presença na bacia: em julho de 1967, pouco depois da criação da 5ª Eskadra, Moscou já mantinha uma impressionante frota de 46 navios no Mediterrâneo, que incluía cruzadores lança-mísseis e uma dezena de submarinos, demonstrando uma projeção de poder naval que desafiava o status quo.
A virada estratégica de 1973: o Livro Branco e a projeção de interesses
O ano de 1973 marcou um ponto de inflexão decisivo para a doutrina de defesa italiana, precipitado por dois eventos de grande impacto global: a Guerra do Yom Kippur e a consequente crise do petróleo. Ambos os acontecimentos expuseram a vulnerabilidade da Itália e a crucial dependência do país em relação às rotas marítimas para o abastecimento energético e comercial. Em resposta a essa nova realidade geopolítica, o Estado-Maior da Marinha Italiana, então sob a chefia do almirante Gino De Giorgi, publicou um documento seminal: o "Prospettive e orientamenti di massima della Marina Militare per il periodo 1974-1984", amplamente conhecido como o Livro Branco da Marinha.
Este Livro Branco propôs uma ruptura significativa com a postura defensiva predominante até então, preconizando a transição para uma estratégia de projeção de poder e proteção de interesses nacionais. O argumento central era que a Itália, intrinsicamente dependente do Mediterrâneo para sua segurança energética e econômica, necessitava atuar proativamente em um ambiente regional cada vez mais instável. Os dados econômicos da época corroboravam essa tese: no início dos anos 1970, o país importava anualmente cerca de 250 milhões de toneladas de mercadorias por via marítima, das quais 120 milhões de toneladas eram compostas por combustíveis essenciais. A necessidade de salvaguardar essas rotas vitais e projetar influência em um 'Mediterrâneo alargado' tornou-se uma prioridade estratégica inadiável, moldando o futuro da Marinha Italiana e sua atuação em escala global.
A evolução do conceito de 'Mediterrâneo alargado', desde sua origem em um jogo de guerra até sua consolidação como doutrina de estado, ilustra a capacidade da Itália de adaptar sua estratégia de defesa às dinâmicas geopolíticas. Essa trajetória, que projeta a Marinha Italiana do Mar Vermelho ao Pacífico, é um testemunho da importância da visão estratégica na salvaguarda dos interesses nacionais. Para se manter atualizado sobre análises aprofundadas como esta e compreender os complexos cenários de defesa, geopolítica e segurança, siga as redes sociais da OP Magazine e acompanhe nosso conteúdo exclusivo.










