Entrevista: o chefe do Exército Francês, general Schill, aborda tecnologia, surpresa e combate ‘arcaico’

|

Entrevista: o chefe do Exército Francês, general Schill, aborda tecnologia, surpresa e combate ‘arcaico’

|

O general Pierre Schill, chefe do Estado-Maior do Exército Francês desde julho de 2021, tem liderado as forças terrestres do país em um esforço contínuo para elevar o nível de prontidão e preparação para cenários de guerra de alta intensidade. Essa iniciativa incorpora de forma proativa as lições aprendidas nos recentes conflitos na Ucrânia, ao mesmo tempo em que prepara as tropas para um futuro marcado por operações em rede e pela crescente utilização de drones. Em uma entrevista concedida antes da feira de defesa Eurosatory, realizada em Paris entre 15 e 19 de junho, o general discorreu sobre como o Exército está empenhado em integrar a inovação e adaptar-se a um campo de batalha em rápida e constante evolução. A entrevista foi editada para concisão e clareza, focando nas estratégias adotadas para manter a superioridade operacional.

Inovação e adaptação no Exército Francês

Em resposta à questão sobre a aceleração da inovação e os desafios de superar a fase de experimentação em tempos de paz, o general Schill enfatizou que o mundo vive uma fase de transformação tecnológica sem precedentes, comparável a eventos históricos como a Revolução Industrial ou a mecanização da guerra no século XX. Ele salientou que essa transformação está longe de ser concluída, estando, provavelmente, apenas em seu início. Nesse ambiente dinâmico, a inovação não pode ser vista como um estado final a ser alcançado; não existe um ‘exército inovado’. Em vez disso, a inovação tornou-se um processo contínuo de adaptação. A superioridade operacional, segundo o general, depende tanto da capacidade de aprender e evoluir rapidamente quanto da qualidade intrínseca do equipamento. Para acelerar a transição da inovação para a experimentação e, finalmente, para a implementação operacional, o Exército Francês adota duas abordagens complementares.

A primeira é a inovação ‘de baixo para cima’ (bottom-up), que se baseia no espírito pioneiro, na iniciativa e na capacidade das unidades em adaptar suas práticas e equipamentos diretamente em resposta às realidades operacionais. Conflitos recentes têm demonstrado que essa agilidade tática é um fator decisivo no campo de batalha. A segunda é a inovação ‘de cima para baixo’ (top-down), que é estruturada em torno do Comando de Combate Futuro, da análise do feedback operacional e da busca por uma coerência global nas capacidades militares. Essa abordagem permite direcionar os esforços, estabelecer prioridades estratégicas e integrar desenvolvimentos úteis em uma visão mais ampla da guerra futura. Os centros exploratórios de brigada atuam como elos cruciais entre essas duas dinâmicas, permitindo a rápida conversão de experimentações em capacidades operacionais concretas. Os mecanismos de financiamento por subsidiariedade agora alocados a esses centros têm se mostrado ferramentas altamente eficazes para acelerar a aquisição e a adaptação no campo de batalha. O general Schill concluiu que há uma necessidade provável de modelos de aquisição mais ágeis e reativos para manter a vantagem operacional.

As lições da Ucrânia e a singularidade do modelo francês

Ao ser questionado sobre o risco de o Exército Francês “aprender demais” com o conflito na Ucrânia, o general Schill alertou que, embora a guerra na Ucrânia seja uma fonte inestimável de lições, o maior risco seria considerá-la como o único modelo para a guerra futura. O conflito ucraniano demonstra, primeiramente, uma aceleração espetacular de certas formas de guerra, como o uso extensivo de drones, a guerra eletrônica, a transparência do campo de batalha, a exploração massiva de dados, a inteligência artificial e a automação parcial de funções táticas. Contudo, paralelamente, essa guerra também revela que formas de combate mais antigas, e até mesmo arcaicas, não desapareceram. Três, combates urbanos porta a porta, a guerra de atrito e o combate aproximado permanecem realidades muito concretas no campo de batalha contemporâneo. A principal lição, portanto, é a superposição de diferentes formas de guerra, e não a substituição de métodos antigos por novos. A tecnologia, embora altere os métodos de combate, não substitui elementos fundamentais como a manobra tática, a eficácia do comando, o moral das tropas ou a capacidade de persistir em operações prolongadas.

O general destacou a importância de evitar analogias excessivas, enfatizando que a França não é a Ucrânia. A França é uma potência nuclear, membro da OTAN e baseia-se em um modelo militar de espectro completo. O país não enfrenta a perspectiva de uma invasão terrestre inimiga em massa em seu território sob as mesmas condições estratégicas da Ucrânia. O modelo francês deve preservar sua própria coerência, o que significa que o Exército Francês deve permanecer capaz de operar nos três espaços estratégicos que atualmente estruturam seus compromissos: a proteção do território nacional, operações em territórios ultramarinos e zonas de crise, e a guerra de coalizão de alta intensidade, como, por exemplo, na Europa. Isso exige a manutenção de uma força versátil, adaptável e equilibrada, em vez de uma força especializada em uma única forma de conflito.

A evolução do treinamento e as validações do Orion 26

Com o objetivo de alcançar uma “armée de combat” (exército pronto para o combate), o treinamento do Exército Francês evoluiu significativamente em direção a um maior realismo, dispersão e atrito. As unidades agora são treinadas em ambientes contestados, sob a ameaça constante de drones, interferência eletrônica, ataques profundos e saturação de informações. Essa abordagem visa preparar os militares para as complexidades e incertezas do campo de batalha moderno. Além disso, houve um reforço no treinamento de comando em ambientes degradados, na proteção de quartéis-generais, na mobilidade, na sobrevivência logística e na coordenação de armas combinadas. Esses aspectos são cruciais para a resiliência e eficácia das operações em larga escala e em cenários de alta intensidade.

O exercício Orion 26, uma das maiores manobras militares realizadas pela França em décadas, confirmou a relevância do plano de transformação do Exército Francês. O general Schill afirmou que o plano estabelecido era o correto, validando a necessidade de formações grandes e coerentes, capazes de sustentar o comando por longos períodos, operar em coalizão e manter ritmos operacionais muito elevados. O exercício também reafirmou que a eficiência operacional e a preparação contínua são indispensáveis para enfrentar os desafios de segurança atuais e futuros.

Para se aprofundar nas análises sobre defesa, geopolítica e segurança, e acompanhar as últimas notícias e entrevistas exclusivas com líderes militares e especialistas, siga a OP Magazine em todas as nossas redes sociais. Mantenha-se informado sobre os temas que moldam o cenário estratégico global.

Share this content on your social networks:

Translate your content for a better experience:

O general Pierre Schill, chefe do Estado-Maior do Exército Francês desde julho de 2021, tem liderado as forças terrestres do país em um esforço contínuo para elevar o nível de prontidão e preparação para cenários de guerra de alta intensidade. Essa iniciativa incorpora de forma proativa as lições aprendidas nos recentes conflitos na Ucrânia, ao mesmo tempo em que prepara as tropas para um futuro marcado por operações em rede e pela crescente utilização de drones. Em uma entrevista concedida antes da feira de defesa Eurosatory, realizada em Paris entre 15 e 19 de junho, o general discorreu sobre como o Exército está empenhado em integrar a inovação e adaptar-se a um campo de batalha em rápida e constante evolução. A entrevista foi editada para concisão e clareza, focando nas estratégias adotadas para manter a superioridade operacional.

Inovação e adaptação no Exército Francês

Em resposta à questão sobre a aceleração da inovação e os desafios de superar a fase de experimentação em tempos de paz, o general Schill enfatizou que o mundo vive uma fase de transformação tecnológica sem precedentes, comparável a eventos históricos como a Revolução Industrial ou a mecanização da guerra no século XX. Ele salientou que essa transformação está longe de ser concluída, estando, provavelmente, apenas em seu início. Nesse ambiente dinâmico, a inovação não pode ser vista como um estado final a ser alcançado; não existe um ‘exército inovado’. Em vez disso, a inovação tornou-se um processo contínuo de adaptação. A superioridade operacional, segundo o general, depende tanto da capacidade de aprender e evoluir rapidamente quanto da qualidade intrínseca do equipamento. Para acelerar a transição da inovação para a experimentação e, finalmente, para a implementação operacional, o Exército Francês adota duas abordagens complementares.

A primeira é a inovação ‘de baixo para cima’ (bottom-up), que se baseia no espírito pioneiro, na iniciativa e na capacidade das unidades em adaptar suas práticas e equipamentos diretamente em resposta às realidades operacionais. Conflitos recentes têm demonstrado que essa agilidade tática é um fator decisivo no campo de batalha. A segunda é a inovação ‘de cima para baixo’ (top-down), que é estruturada em torno do Comando de Combate Futuro, da análise do feedback operacional e da busca por uma coerência global nas capacidades militares. Essa abordagem permite direcionar os esforços, estabelecer prioridades estratégicas e integrar desenvolvimentos úteis em uma visão mais ampla da guerra futura. Os centros exploratórios de brigada atuam como elos cruciais entre essas duas dinâmicas, permitindo a rápida conversão de experimentações em capacidades operacionais concretas. Os mecanismos de financiamento por subsidiariedade agora alocados a esses centros têm se mostrado ferramentas altamente eficazes para acelerar a aquisição e a adaptação no campo de batalha. O general Schill concluiu que há uma necessidade provável de modelos de aquisição mais ágeis e reativos para manter a vantagem operacional.

As lições da Ucrânia e a singularidade do modelo francês

Ao ser questionado sobre o risco de o Exército Francês “aprender demais” com o conflito na Ucrânia, o general Schill alertou que, embora a guerra na Ucrânia seja uma fonte inestimável de lições, o maior risco seria considerá-la como o único modelo para a guerra futura. O conflito ucraniano demonstra, primeiramente, uma aceleração espetacular de certas formas de guerra, como o uso extensivo de drones, a guerra eletrônica, a transparência do campo de batalha, a exploração massiva de dados, a inteligência artificial e a automação parcial de funções táticas. Contudo, paralelamente, essa guerra também revela que formas de combate mais antigas, e até mesmo arcaicas, não desapareceram. Três, combates urbanos porta a porta, a guerra de atrito e o combate aproximado permanecem realidades muito concretas no campo de batalha contemporâneo. A principal lição, portanto, é a superposição de diferentes formas de guerra, e não a substituição de métodos antigos por novos. A tecnologia, embora altere os métodos de combate, não substitui elementos fundamentais como a manobra tática, a eficácia do comando, o moral das tropas ou a capacidade de persistir em operações prolongadas.

O general destacou a importância de evitar analogias excessivas, enfatizando que a França não é a Ucrânia. A França é uma potência nuclear, membro da OTAN e baseia-se em um modelo militar de espectro completo. O país não enfrenta a perspectiva de uma invasão terrestre inimiga em massa em seu território sob as mesmas condições estratégicas da Ucrânia. O modelo francês deve preservar sua própria coerência, o que significa que o Exército Francês deve permanecer capaz de operar nos três espaços estratégicos que atualmente estruturam seus compromissos: a proteção do território nacional, operações em territórios ultramarinos e zonas de crise, e a guerra de coalizão de alta intensidade, como, por exemplo, na Europa. Isso exige a manutenção de uma força versátil, adaptável e equilibrada, em vez de uma força especializada em uma única forma de conflito.

A evolução do treinamento e as validações do Orion 26

Com o objetivo de alcançar uma “armée de combat” (exército pronto para o combate), o treinamento do Exército Francês evoluiu significativamente em direção a um maior realismo, dispersão e atrito. As unidades agora são treinadas em ambientes contestados, sob a ameaça constante de drones, interferência eletrônica, ataques profundos e saturação de informações. Essa abordagem visa preparar os militares para as complexidades e incertezas do campo de batalha moderno. Além disso, houve um reforço no treinamento de comando em ambientes degradados, na proteção de quartéis-generais, na mobilidade, na sobrevivência logística e na coordenação de armas combinadas. Esses aspectos são cruciais para a resiliência e eficácia das operações em larga escala e em cenários de alta intensidade.

O exercício Orion 26, uma das maiores manobras militares realizadas pela França em décadas, confirmou a relevância do plano de transformação do Exército Francês. O general Schill afirmou que o plano estabelecido era o correto, validando a necessidade de formações grandes e coerentes, capazes de sustentar o comando por longos períodos, operar em coalizão e manter ritmos operacionais muito elevados. O exercício também reafirmou que a eficiência operacional e a preparação contínua são indispensáveis para enfrentar os desafios de segurança atuais e futuros.

Para se aprofundar nas análises sobre defesa, geopolítica e segurança, e acompanhar as últimas notícias e entrevistas exclusivas com líderes militares e especialistas, siga a OP Magazine em todas as nossas redes sociais. Mantenha-se informado sobre os temas que moldam o cenário estratégico global.

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

últimas notícias

PARCERIA