A Marinha Portuguesa demonstrou a proficiência e a coordenação de suas capacidades de combate antissubmarino (ASW) durante o REPMUS 2026, o maior exercício global focado na experimentação de sistemas não tripulados. A atividade, realizada nas estratégicas regiões de Troia e Sesimbra, incluiu o lançamento de dois torpedos Mk 46. Um dos disparos foi efetuado pela fragata NRP Bartolomeu Dias, um dos ativos navais mais relevantes de Portugal para missões de defesa, enquanto o segundo foi lançado a partir do helicóptero Lynx embarcado na mesma embarcação. Este tipo de ação conjunta é fundamental para simular cenários operacionais complexos e reforçar a prontidão das forças navais em face de ameaças submarinas contemporâneas.
Os lançamentos de torpedos foram oficialmente confirmados pela Armada em 14 de setembro, sublinhando o objetivo central de validar e aprimorar a integração sinérgica entre os meios navais de superfície e as aeronaves orgânicas. A Marinha Portuguesa enfatizou que a oportunidade de treinamento em um ambiente tão realista e desafiador é inestimável para o desenvolvimento contínuo das táticas e procedimentos operacionais. A instituição reiterou a importância vital de exercícios dessa magnitude para a manutenção da prontidão operacional, o aprimoramento da proficiência das tripulações e a garantia da eficácia das forças navais, elementos cruciais para assegurar a capacidade de combate e o cumprimento integral das missões atribuídas à Marinha em um contexto de segurança cada vez mais exigente.
Coordenação na luta antissubmarino
A utilização de um modelo idêntico de torpedo, o Mk 46, por uma fragata e seu helicóptero embarcado, como demonstrado no REPMUS 2026, é uma estratégia que permite o treinamento e a avaliação de diversas abordagens táticas contra ameaças submarinas. A fragata, atuando como plataforma principal, emprega seus sensores de casco e tubos lançadores para engajar alvos em sua área imediata de atuação. Em contraste, o helicóptero oferece uma capacidade de resposta e deslocamento rápido, permitindo o lançamento da arma em áreas mais distantes ou em posições otimizadas em relação à localização estimada do submarino inimigo, expandindo significativamente o envelope de engajamento da unidade naval. Essa coordenação multidimensional é um pilar da doutrina de guerra antissubmarina moderna.
O torpedo Mk 46 é reconhecido como um torpedo leve antissubmarino, medindo 324 milímetros, projetado especificamente para ser lançado tanto por navios de superfície quanto por aeronaves. Sua capacidade é aprimorada por um sistema de busca acústica avançado, que lhe permite detectar, localizar e seguir submarinos com precisão após a entrada na água. Durante os exercícios e treinamentos operacionais, a prática padrão envolve a utilização de versões de treinamento do Mk 46, que não contêm a carga explosiva operacional, mas replicam fielmente as características de busca e rastreamento do torpedo real. Esta abordagem garante a segurança durante as manobras e permite a validação das táticas sem o risco de detonações inadvertidas.
A fragata NRP Bartolomeu Dias está equipada com dois conjuntos duplos de tubos lançadores para os torpedos Mk 46, proporcionando uma capacidade robusta de engajamento ASW. Adicionalmente, o navio integra um conjunto sofisticado de sensores, composto por um sonar de casco PHS-36 e um sonar rebocado Anaconda. A combinação desses sistemas permite à fragata uma capacidade abrangente de detecção e acompanhamento de submarinos em diversas profundidades e ambientes acústicos, tornando-a um vetor de guerra antissubmarina altamente capaz. Com 122,25 metros de comprimento e um deslocamento de 3.320 toneladas, a fragata, que originalmente foi construída nos Países Baixos como HNLMS Van Nes, entrou em serviço na Marinha Portuguesa em janeiro de 2009, tendo a luta antissubmarino como sua missão principal designada.
O helicóptero Westland Lynx Mk95 opera como uma extensão vital das capacidades de sensores e armamentos da fragata, ampliando seu raio de ação e flexibilidade tática. Adquiridos por Portugal em 1993, esses helicópteros multifuncionais são capazes de executar uma gama diversificada de missões, incluindo a luta antissubmarino, o combate a alvos de superfície, a interdição marítima, transporte de pessoal e carga, evacuação médica (MEDEVAC) e missões de busca e salvamento (SAR). A operação desses helicópteros a partir das fragatas das classes Vasco da Gama e Bartolomeu Dias confere à Marinha Portuguesa uma capacidade aeronaval orgânica e versátil, crucial para operações marítimas modernas.
O exercício REPMUS 2026 e a inovação com sistemas não tripulados
O REPMUS – sigla para Robotic Experimentation and Prototyping with Maritime Unmanned Systems – é amplamente reconhecido como o maior exercício global dedicado à experimentação robótica e de veículos não tripulados (Unmanned Vehicles – UVs). Sua 16ª edição, que teve início em 31 de agosto e se estenderá até 25 de setembro, reflete o crescente foco das marinhas mundiais na integração e no desenvolvimento de tecnologias autônomas para aplicações de defesa e segurança marítima. A relevância deste exercício reside na sua capacidade de congregar atores chave para testar e validar o uso de sistemas não tripulados em um ambiente operacional complexo e dinâmico.
A organização do REPMUS 2026, sob a liderança da Marinha Portuguesa, é uma empreitada de grande escala, reunindo mais de 1.500 participantes de 36 marinhas distintas, evidenciando o caráter multinacional e cooperativo do evento. Além das forças navais, o exercício conta com a participação de mais de 60 empresas e organizações de pesquisa e desenvolvimento (P&D), 13 universidades e cinco entidades da OTAN, todas com um enfoque direto em operações marítimas e sistemas não tripulados. Mais de 300 sistemas marítimos não tripulados – abrangendo veículos de superfície, submersíveis autônomos, aeronaves não tripuladas e sistemas terrestres – são empregados nas atividades, com o apoio de pelo menos 14 navios. Os testes são conduzidos em uma vasta área operacional superior a 400 milhas náuticas quadradas, o equivalente a aproximadamente 1.370 quilômetros quadrados, permitindo simulações abrangentes de cenários multidomínio. A complexidade da organização envolve ainda a colaboração com instituições acadêmicas como a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, centros de excelência como o Centre for Maritime Research and Experimentation da OTAN, o NATO Joint Capability Group Maritime Unmanned Systems e a Agência Europeia de Defesa. Entre os ensaios adicionais realizados nesta edição, destacam-se lançamentos de foguetes e balões atmosféricos conduzidos pelo Office of Naval Research dos Estados Unidos, em colaboração com o Instituto Hidrográfico português, expandindo o escopo da experimentação para além do domínio marítimo imediato.
Força naval multinacional
A fragata NRP Bartolomeu Dias (F333) desempenha um papel central também como parte de uma força multinacional empregada em cenários multidomínio durante o REPMUS. Em 9 de setembro, mais de 420 militares participaram de atividades que integraram unidades navais, forças terrestres e veículos autônomos, estes últimos empregados de forma inovadora como forças opositoras para criar um ambiente de treinamento mais desafiador e realista. Para esta fase crítica do exercício, foi ativada a Força Naval Portuguesa, composta pelo NRP Bartolomeu Dias, pelos navios-patrulha oceânicos NRP Sines e NRP Figueira da Foz, e por uma unidade do Corpo de Fuzileiros, demonstrando a capacidade de projeção e coordenação nacional. Além dos ativos portugueses, a força foi reforçada pela incorporação de unidades de nações aliadas, incluindo o navio de apoio espanhol ESPS Carnota, o navio de pesquisa italiano NRV Alliance e o navio de apoio francês FS Seine, evidenciando o compromisso com a interoperabilidade e a cooperação internacional. A fragata portuguesa assume ainda a posição de navio-capitânia do agrupamento da EUROMARFOR, ativado entre 3 e 25 de setembro, com o objetivo primordial de ampliar a interoperabilidade, a cooperação e a capacidade de resposta conjunta entre as marinhas europeias em um espectro alargado de operações navais e marítimas.
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