Na obra 'Chutando a escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica', o economista sul-coreano Ha-Joon Chang lança uma questão fundamental e, por vezes, politicamente incômoda: será que as nações atualmente desenvolvidas atingiram seu patamar de riqueza e industrialização aplicando as mesmas políticas econômicas liberais que, hoje, veementemente aconselham e frequentemente impõem às economias mais pobres? Sua análise, sustentada por uma minuciosa e abrangente revisão da trajetória econômica global, conclui que a resposta a essa pergunta é categoricamente negativa, desafiando uma narrativa amplamente aceita sobre o caminho para a prosperidade.
Publicado originalmente em inglês no ano de 2002, o livro de Chang resgata e desenvolve uma metáfora poderosa introduzida pelo influente economista alemão Friedrich List. Segundo essa imagem, uma potência econômica, após alcançar o cume do desenvolvimento – um feito muitas vezes conquistado por meio de robustas políticas de proteção industrial, subsídios governamentais e uma ativa intervenção estatal –, passa a advogar em favor do livre-comércio irrestrito. Simultaneamente, essa mesma potência tenta diligentemente remover, ou 'chutar para longe', a 'escada' – ou seja, as ferramentas e estratégias protecionistas – que ela própria utilizou em sua ascensão, visando dificultar que outras nações sigam o mesmo percurso. Chang emprega essa analogia para questionar a crença disseminada de que a prosperidade econômica, a industrialização avançada e a superioridade tecnológica seriam desdobramentos inevitáveis e naturais de uma abordagem de <i>laissez-faire</i>, ou de mínima intervenção estatal na economia.
A história contra o mito
A principal força e distinção do trabalho de Ha-Joon Chang reside em seu rigoroso método de pesquisa. Em vez de limitar a discussão sobre política econômica a modelos abstratos e teorias idealizadas, o economista mergulha profundamente na história. Ele investiga e detalha as ações e estratégias concretas que nações como a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, a Alemanha, a França, a Suécia, o Japão e a Coreia do Sul – entre outras economias hoje desenvolvidas – realmente implementaram durante seus cruciais períodos de industrialização. A dissonância notável entre o discurso econômico liberal que essas nações passaram a promover posteriormente e as práticas históricas que as levaram ao desenvolvimento constitui o pilar central e o eixo analítico da obra de Chang.
A Grã-Bretanha, frequentemente exaltada como a nação pioneira do livre-comércio e da revolução industrial, adotou, na realidade, uma série de políticas marcadamente protecionistas em suas etapas iniciais de desenvolvimento. O país protegeu rigorosamente sua manufatura de lã, implementando medidas que salvaguardavam sua indústria doméstica contra a concorrência externa. Além disso, restringiu severamente a exportação de matérias-primas essenciais, garantindo que estes recursos abastecessem suas próprias indústrias em crescimento. Em um movimento estratégico para impulsionar sua capacidade produtiva e tecnológica, atraiu trabalhadores estrangeiros altamente qualificados, promovendo a transferência de conhecimento e habilidades. Do ponto de vista geopolítico e militar, utilizou seu poder naval formidável para conquistar e assegurar mercados ultramarinos, expandindo sua influência comercial por meios que iam além da mera concorrência de preços. Foi somente após consolidar uma ampla superioridade industrial e tecnológica que a Grã-Bretanha começou a desmantelar suas barreiras comerciais, um processo que se solidificou plenamente ao longo do século XIX.
O caso dos Estados Unidos serve como um exemplo ainda mais enfático e contundente da tese de Chang. O autor caracteriza o país como um dos maiores e mais consistentes defensores históricos da proteção e do fomento à indústria nascente. Decadas antes de sua plena industrialização, Alexander Hamilton, um dos pais fundadores, delineou um programa econômico visionário que incluía altas tarifas alfandegárias para proteger indústrias incipientes, incentivos fiscais e investimentos públicos estratégicos. A industrialização americana avançou sob o amparo de barreiras comerciais elevadas, que criaram um ambiente seguro para o crescimento de setores estratégicos. Paralelamente, o país investiu maciçamente na expansão da educação pública, formando uma força de trabalho qualificada, e ofereceu apoio substancial à infraestrutura essencial, como ferrovias e canais. Crucialmente, a pesquisa e o desenvolvimento tecnológico foram largamente financiados pelo Estado, elementos que foram pilares para o seu progresso econômico.
Ha-Joon Chang dedica atenção especial à influência decisiva das encomendas de defesa e do investimento público em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no período subsequente à Segunda Guerra Mundial para o desenvolvimento dos Estados Unidos. Setores que hoje representam a vanguarda da economia e da tecnologia global, como a indústria de computadores, o segmento aeroespacial e a própria internet, são apresentados como áreas cuja liderança americana dificilmente teria florescido e se estabelecido sem o suporte maciço do financiamento federal e a demanda constante gerada pelas necessidades militares. Para o leitor interessado em temas de Defesa e segurança estratégica, este é, sem dúvida, um dos pontos mais contemporâneos e relevantes de toda a análise proposta pelo livro, evidenciando a intersecção profunda entre política industrial, inovação tecnológica e estratégia de defesa.
Mais do que tarifas
Uma leitura apressada da obra 'Chutando a escada' poderia levar à equivocada interpretação de que o livro de Ha-Joon Chang é simplesmente uma defesa genérica do protecionismo. Contudo, o argumento do economista é consideravelmente mais elaborado e matizado. Ele demonstra que as tarifas aduaneiras, embora importantes, representaram apenas um dentre muitos instrumentos estratégicos empregados pelas nações que almejavam reduzir a distância que as separava das potências econômicas de sua época. O desenvolvimento bem-sucedido foi resultado de um conjunto multifacetado de intervenções estatais, e não de uma única política isolada.
A complexa lista de ferramentas de política industrial e desenvolvimento que Chang elenca inclui uma vasta gama de ações governamentais. Entre elas estão os subsídios à exportação, que tornavam produtos nacionais mais competitivos no exterior; o crédito direcionado a setores estratégicos, garantindo recursos para seu crescimento; as compras governamentais, que asseguravam demanda para indústrias nascentes; e o investimento massivo em infraestrutura, como transporte e energia, que servia de espinha dorsal para a economia. Além disso, destacam-se a formação técnica de qualidade, para construir capital humano; o apoio contínuo à pesquisa e inovação; o planejamento de recursos humanos em escala nacional, visando suprir as necessidades futuras da indústria; a aquisição estratégica de tecnologia estrangeira, para acelerar o aprendizado e o avanço; e o fomento a parcerias sólidas entre o Estado e as empresas privadas. Em casos específicos, os governos foram ainda mais proativos, criando fábricas-modelo ou empresas estatais para iniciar setores industriais inteiros, para posteriormente transferir essas estruturas ao setor privado, uma vez estabelecidas e viáveis.
O Japão da Era Meiji ocupa uma posição de destaque na demonstração de Chang sobre estratégias de desenvolvimento. Impedido por tratados desiguais de impor tarifas elevadas, que limitavam sua autonomia econômica e comercial, o país asiático recorreu a outras formas de intervenção estatal. Criou uma série de empresas estatais em setores estratégicos e de alto valor agregado, como construção naval, mineração, siderurgia e, notavelmente, a produção militar – um pilar essencial para sua soberania e projeção de poder. Além disso, o governo japonês realizou investimentos substanciais em infraestrutura vital, incluindo ferrovias e telégrafos, e priorizou a educação pública e a absorção ativa de conhecimento e tecnologia estrangeiros. Quando o Japão finalmente recuperou sua plena autonomia tarifária, soube combinar habilmente a proteção seletiva de indústrias estratégicas com uma coordenação industrial abrangente, orientando o desenvolvimento econômico nacional de forma coesa.
Chang é enfático em ressaltar que não existe uma receita universal ou um modelo único e infalível para o desenvolvimento econômico. Cada nação selecionou e adaptou instrumentos de política industrial de acordo com suas realidades específicas. Os Estados Unidos, por exemplo, empregaram tarifas alfandegárias com uma intensidade e persistência notáveis em suas fases iniciais; a Alemanha, por sua vez, utilizou uma combinação de investimento público substancial, orientação estatal para a indústria e proteção concentrada em setores considerados estratégicos para seu futuro. A Suécia optou por um caminho que combinava educação técnica de excelência, investimento em pesquisa e o estabelecimento de parcerias público-privadas robustas. A conclusão crucial de Chang é que o sucesso reside na capacidade dos países de selecionar e aplicar instrumentos que sejam intrinsecamente compatíveis com seus próprios recursos disponíveis, suas instituições existentes e, de maneira crítica, sua posição no intrincado sistema internacional de poder e comércio.
Instituições não nascem prontas
Na segunda metade de sua obra, o economista Ha-Joon Chang desloca seu foco das políticas econômicas diretas para o tema da chamada 'boa governança', desafiando a premissa de que certas instituições são pré-requisitos automáticos para o desenvolvimento. Ele realiza uma investigação aprofundada sobre a formação histórica e a evolução gradual de estruturas institucionais essenciais, como a democracia moderna, a burocracia profissional e meritocrática, um Judiciário independente, os bancos centrais, as leis de falência, os direitos de propriedade bem definidos, a legislação trabalhista e as instituições de proteção social. Essa análise histórica revela que o desenvolvimento institucional é um processo orgânico e demorado, moldado por contextos específicos.
A principal conclusão de Chang é que as estruturas de governança e as instituições que hoje são frequentemente apresentadas como pré-condições indispensáveis para o desenvolvimento econômico e social levaram, de fato, décadas, e em muitos casos, séculos, para amadurecer plenamente nas nações que hoje consideramos ricas e desenvolvidas. O autor demonstra, com evidências históricas concretas, que em estágios equivalentes de renda e desenvolvimento, esses países possuíam instituições significativamente menos robustas e menos desenvolvidas do que as que são atualmente encontradas em grande parte do mundo emergente. Esta observação sugere que as instituições muitas vezes evoluem e se fortalecem como um resultado do próprio desenvolvimento econômico, e não necessariamente como um ponto de partida para ele. O autor não sustenta que democracia, direitos trabalhistas.
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