Em um evento estratégico para a aviação de caça brasileira e para o fortalecimento das relações de defesa entre nações, a fabricante sueca Saab realizou a apresentação oficial, no dia 2 de junho, em suas instalações na cidade de Linköping, Suécia, do primeiro caça Gripen F destinado à Força Aérea Brasileira (FAB). Este marco não apenas sinaliza uma nova e crucial etapa no abrangente Programa Gripen, mas também sublinha a profundidade da cooperação estratégica estabelecida entre o Brasil e a Suécia. A aeronave, oficialmente designada F-39F pela FAB, é a variante biposto da avançada família Gripen E/F e foi concebida com um propósito multifuncional: integrar capacidades de treinamento de ponta, facilitar a conversão operacional de pilotos e, simultaneamente, preservar uma robusta capacidade de combate em uma única e altamente versátil plataforma aérea.
A introdução do primeiro F-39F possui um significado singular para o Brasil, dada sua posição como cliente lançador – ou seja, o primeiro país a encomendar e participar ativamente do desenvolvimento – da versão de dois lugares. Essa distinção ressalta a influência brasileira no projeto e a confiança na parceria tecnológica. Ao contrário de um modelo de treinamento exclusivamente projetado para instrução, o Gripen F mantém intactas as capacidades operacionais essenciais que caracterizam o Gripen E monoposto, que inclui sistemas de armas avançados e um desempenho de voo de última geração. O diferencial crucial é a adição de um segundo cockpit, plenamente funcional, que viabiliza a operação por dois tripulantes. Essa configuração permite que o F-39F seja empregado em uma vasta gama de missões que incluem instrução em ambiente real de voo, avaliação de desempenho, comando tático de operações aéreas complexas e o emprego operacional direto em cenários de combate.
Um marco para a capacitação e operação da Força Aérea Brasileira
A Saab enfatiza que o desenvolvimento do novo modelo foi fruto de uma colaboração estratégica com a indústria de defesa brasileira, com o objetivo primordial de otimizar e acelerar a formação de pilotos de caça, ao mesmo tempo em que se busca uma ampliação substantiva da eficiência operacional em cenários aéreos cada vez mais intrincados e desafiadores. A configuração biposto, com a presença de um segundo tripulante, permite uma divisão estratégica da carga de trabalho em missões de elevada complexidade. Esta sinergia é particularmente vantajosa em operações que exigem a gestão simultânea de múltiplos sensores para coleta de informações, em engajamentos de guerra eletrônica que demandam expertise e agilidade na aplicação de contramedidas, no emprego preciso de armamentos inteligentes contra alvos estratégicos e na coordenação integrada com outras aeronaves em voo, bem como com unidades militares em terra ou no mar, otimizando a consciência situacional e a tomada de decisão.
O Gripen F-39F desempenha, ademais, um papel indispensável no processo de transição e qualificação dos pilotos da Força Aérea Brasileira para a nova geração de vetores de combate. A aeronave oferece a possibilidade de que as fases de instrução e as missões de conversão operacional sejam conduzidas em um caça que é, em sua essência, plenamente operacional e pronto para combate. Isso proporciona ao piloto em formação a vivência de condições reais de voo e de emprego tático, simulando os desafios e exigências de um cenário de combate autêntico, porém sob o acompanhamento e supervisão direta e imediata de um instrutor experiente no segundo assento. Esta abordagem de treinamento em ambiente real, com um instrutor a bordo, representa um salto qualitativo em comparação com simuladores ou aeronaves de treinamento com capacidades limitadas.
A estratégia de transferência de tecnologia e a indústria nacional
O programa de reequipamento da Força Aérea Brasileira contempla a aquisição de um total de 36 aeronaves Gripen: sendo 28 unidades da versão Gripen E monoposto, otimizada para missões de ataque e defesa aérea, e 8 unidades da versão Gripen F biposto, que combina as capacidades de treinamento avançado e engajamento operacional. O cronograma de entregas teve seu início em 2020, e as primeiras unidades do caça já se encontram em pleno serviço ativo no Brasil, operando a partir da estratégica Base Aérea de Anápolis, localizada em Goiás, sob a responsabilidade do 1º Grupo de Defesa Aérea (1º GDA), conhecido como Esquadrão Jaguar. A implantação nessa base central assegura uma cobertura eficiente do espaço aéreo brasileiro.
Para além da substancial modernização da aviação de caça da FAB, o Programa Gripen se destaca como um dos mais abrangentes e bem-sucedidos acordos de transferência de tecnologia que o Brasil já firmou na sensível e estratégica área da defesa. Essa iniciativa tem impulsionado a capacitação profissional de centenas de especialistas brasileiros, incluindo engenheiros, técnicos de manutenção e pilotos de ensaio, dotando-os de conhecimentos de ponta e expertise em áreas críticas. Adicionalmente, o programa fomentou a participação ativa de empresas nacionais em todas as etapas cruciais do ciclo de vida da aeronave, abrangendo desde as fases de desenvolvimento e produção até os complexos ensaios em voo, a manutenção preventiva e corretiva e o suporte logístico contínuo.
A robusta indústria brasileira tem se integrado ao programa Gripen através da colaboração de empresas de projeção nacional e internacional, como a Embraer, conhecida por sua excelência aeroespacial, a Akaer, especializada em aeroestruturas e engenharia, a Atech, líder em sistemas e soluções de controle, a AEL Sistemas, atuante em aviônicos e guerra eletrônica, e as próprias unidades da Saab estabelecidas em território brasileiro. Em Gavião Peixoto, no interior do estado de São Paulo, a Embraer sedia a linha de produção do Gripen, o Centro de Ensaios em Voo do Gripen – uma instalação crítica para a validação de novas tecnologias e configurações –, e o Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen, responsável pela engenharia de adaptação e futuras inovações. Paralelamente, em São Bernardo do Campo, a Saab opera uma fábrica de aeroestruturas dedicada à manufatura de componentes e partes essenciais do caça, evidenciando a profunda integração produtiva local.
Após sua apresentação formal em Linköping, o primeiro Gripen F será encaminhado para o centro de ensaios em voo da Saab, ainda na Suécia. Neste local, a aeronave iniciará uma rigorosa campanha específica de testes, desenhada para validar integralmente a configuração biposto, aferir o desempenho e a integração dos sistemas embarcados, e garantir a aderência completa da aeronave aos exigentes requisitos operacionais da Força Aérea Brasileira. Esta fase de validação é crucial antes da entrega definitiva do aparelho à FAB, assegurando que o F-39F esteja plenamente apto para suas múltiplas funções. Com a iminente chegada do Gripen F, a FAB passará a dispor de uma plataforma aérea de vanguarda, simultaneamente capaz de catalisar a formação e o aprimoramento de novos pilotos de caça e de executar missões operacionais de altíssima complexidade e valor estratégico para a defesa nacional.
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