Mais de uma década após a Síria ter assumido o compromisso internacional de desmantelar seu vasto e perigoso arsenal químico, inspetores internacionais identificaram uma quantidade significativa de materiais para armas químicas anteriormente não declarados. Estas descobertas emergem em um momento crítico, enquanto o país atravessa uma nova e delicada fase, caracterizada por profundas transformações no cenário de segurança. As revelações, detalhadas em um relatório da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) no final de maio, incluem munições químicas, como bombas aéreas e foguetes, além de insumos de produção e milhares de páginas de documentação que detalham o programa letal desenvolvido sob a gestão do então presidente sírio Bashar al-Assad, já deposto. Tais achados ocorrem em meio a uma complexa reorganização do poder em todo o território sírio, onde uma série de atores de segurança, incluindo os Estados Unidos e seus aliados, enfrentam dificuldades para estabilizar um país devastado por anos de conflito, impulsionado tanto pelo governo quanto por grupos extremistas.
As revelações da OPAQ e o legado químico sírio
Um recente relatório do órgão de fiscalização do Pentágono descreveu a transição síria como progressivamente instável, observando que as novas forças do governo sírio consolidaram rapidamente o controle sobre territórios anteriormente sob domínio das Forças Democráticas Sírias (SDF), lideradas por curdos. As SDF, por sua vez, haviam sido parceiras das forças militares dos EUA na região na luta contra o Estado Islâmico. Em meados de abril, tropas norte-americanas encerraram e se retiraram de diversas bases no país, transferindo o controle para as forças governamentais e pondo fim a uma presença que se estendeu por dez anos. O mesmo relatório alertou para a provável dificuldade das novas autoridades sírias em exercer controle efetivo sobre o fragmentado aparato de segurança nacional, especialmente enquanto as SDF, que governaram grande parte do norte da Síria por anos, são integradas a uma força armada unificada. Paralelamente, essa conjuntura de instabilidade cria condições propícias para que grupos militantes, como o Estado Islâmico, possam novamente ganhar força e expandir suas operações.
Nesse cenário complexo, os investigadores da OPAQ alertam que a extensão total do programa de armas químicas da Síria pode ainda permanecer desconhecida. A agência indicou que informações coletadas desde o colapso do governo Assad em dezembro de 2024 sugerem que mais de 100 locais adicionais podem estar vinculados ao programa de armas químicas da antiga administração. Este número representa um aumento dramático em relação aos 26 locais que eram previamente conhecidos pela comunidade internacional. A OPAQ também identificou o mesmo tipo de bombas aéreas utilizadas em ataques químicos contra as cidades de Ltamenah, em março de 2017, e Khan Shaykhun, em abril de 2017. Investigações anteriores já haviam confirmado o uso de gás sarin e cloro em Ltamenah e gás sarin em Khan Shaykhun, lançados por jatos. Além disso, os inspetores descobriram o mesmo modelo de foguetes empregado no ataque químico de 2013 em Ghouta, ressaltando a continuidade e a gravidade das evidências encontradas.
Desafios da transição de poder e os riscos de proliferação
As novas informações adicionam uma camada de incerteza às já existentes tribulações de segurança enfrentadas pelo novo presidente da Síria, Ahmed al-Sharaa, que busca estabilidade regional após liderar o grupo armado Hayat Tahrir al-Sham na derrubada de Assad. Desde março de 2025, inspetores da OPAQ visitaram mais de 20 locais em toda a Síria, muitos dos quais eram inacessíveis durante a administração Assad, mas que se tornaram acessíveis com a mudança no controle militar. Além das questões sobre onde outras armas químicas podem estar ocultas, um especialista destacou que a questão de quem exatamente tem conhecimento e acesso a esses itens pode ser igualmente preocupante. Randa Slim, diretora do programa para o Oriente Médio no Stimson Center, afirmou que a descoberta de locais previamente não declarados levanta a preocupação de que ex-funcionários da era Assad, ligados ao programa, possam manter acesso a materiais ou informações sensíveis.
Slim ressaltou o benefício econômico potencial para esses indivíduos de vender esses materiais a atores não-estatais, como o Hezbollah ou o Estado Islâmico, indicando a existência de mercados clandestinos para tais itens e recordando que o Estado Islâmico já utilizou armas químicas no passado. A combinação de uma transição militar complexa e informações incompletas sobre a localização de materiais de armas químicas pode gerar um risco significativo de proliferação, especialmente devido à persistência de grupos militantes operando na região. Embora a administração de Al-Sharaa tenha prometido livrar o país de armas químicas, a transição para uma força militar unificada revelou outras lacunas de segurança.
A avaliação do órgão de fiscalização do Pentágono indicou que pelo menos 150 combatentes do Estado Islâmico escaparam de instalações de detenção durante a ofensiva do agora governo sírio, uma vez que os combatentes das SDF, responsáveis pela guarda das prisões, foram redirecionados para as linhas de frente devido à ameaça à sua autonomia territorial. O relatório também descreveu uma crescente desordem em acampamentos e centros de detenção que abrigavam famílias antes envolvidas no efêmero califado do grupo terrorista. Os EUA transferiram mais de 5.700 detentos do Estado Islâmico para instalações no Iraque, mas aproximadamente 20.000 pessoas vivendo em Al Hol, um campo para deslocados que incluía milhares de famílias e parceiros do Estado Islâmico, deixaram o assentamento sem qualquer monitoramento. Slim também observou que a partida das forças dos EUA da Síria, ocorrida no início do ano, pode complicar os esforços para rastrear a atividade militante e monitorar a movimentação de materiais perigosos. Embora as tropas americanas estivessem amplamente baseadas no norte da Síria, seu papel incluía o fornecimento de inteligência que auxiliava no monitoramento do Estado Islâmico.
As revelações da OPAQ e o cenário de transição na Síria sublinham a persistência de ameaças críticas à segurança regional e global. Manter-se informado sobre esses desenvolvimentos é crucial. Para análises aprofundadas e cobertura contínua sobre defesa, geopolítica e segurança, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e acesse nosso portal. Sua fonte de inteligência estratégica está sempre atualizada!










