A constatação de que os novos programas de aquisição de armamentos dos Estados Unidos não estão sendo entregues no prazo se repete anualmente, conforme revelam as auditorias federais. O relatório anual de 2026 do Escritório de Responsabilidade Governamental (GAO) sobre os principais programas de aquisição de defesa (MDAP) aponta que o Departamento de Defesa (DOD) planeja investir mais de US$ 2,4 trilhões no desenvolvimento e compra de seus sistemas de armas mais dispendiosos. O documento destaca a persistência de atrasos nos cronogramas dos MDAPs, indicando previsões de tempo excessivamente otimistas em 104 dos programas mais caros do Pentágono analisados.
Atrasos sistêmicos e variação de custos
De acordo com o relatório do GAO, o tempo médio geral para entregar uma capacidade operacional aumentou para mais de 12 anos neste ano. Além disso, a situação é agravada pelo fato de que vários MDAPs não estabeleceram novas datas de entrega ou estão postergando marcos intermediários críticos. A manutenção de datas de entrega estáticas, apesar dos atrasos reais, levanta questionamentos sobre a realisticidade das estimativas iniciais dos programas, sugerindo que a média atual de 12 anos de atraso provavelmente crescerá no futuro. Tal cenário ecoa as conclusões do relatório de 2025, que já apontava a dificuldade contínua do DOD em entregar tecnologias inovadoras de forma rápida e dentro do orçamento.
Em relação aos custos, o relatório de 2025 focou no aumento impulsionado pela inflação na economia dos EUA. A análise de 2026, por sua vez, apresenta um panorama de preços misto: 46 dos 72 programas reportaram aumentos totalizando US$ 122 bilhões, enquanto 16 registraram reduções que somam US$ 47 bilhões. Apesar dessa variação nos custos, o relatório de 2026 do GAO prioriza a questão dos atrasos, em particular nos projetos da categoria de aquisição de nível intermediário (MTA).
Implicações da via de aquisição de nível intermediário (MTA)
O Pentágono está investindo mais de US$ 49 bilhões em 23 dos mais caros projetos MTA, uma via de aquisição destinada a acelerar a implantação de armas em até cinco anos. Contudo, o GAO verificou que muitos sistemas estão sendo incluídos no MTA mesmo com tecnologias imaturas para um processo de via rápida. Por exemplo, entre 2018 e 2025, 18 de 40 programas iniciaram a via MTA com tecnologias que não estavam prontas para esse modelo de aquisição acelerada.
Essas tecnologias frequentemente apresentavam níveis de prontidão (TRL) inferiores a 6 (estágio de protótipo), e algumas estavam abaixo do TRL 3 (estágio de prova de conceito), indicando que ainda estavam nas fases iniciais de desenvolvimento. Dos oito projetos MTA atuais, o GAO considerou sete como tecnologicamente imaturos, incluindo o mísseil de cruzeiro de ataque hipersônico (Hypersonic Attack Cruise Missile) e o sensor infravermelho persistente de nova geração (Next Generation Persistent Overhead Infrared sensor). Shelby Oakley, diretora do GAO para contratações e aquisições de segurança nacional, destacou que "os programas estão usando cada vez mais a via MTA para amadurecer tecnologias, quando a intenção da via é prototipar e/ou implantar uma capacidade residual em dois a cinco anos", explicando por que as capacidades não estão sendo entregues mais rapidamente.
Exemplos de programas com desafios específicos
Entre os programas com problemas específicos, o MQ-25 Stingray da Marinha, uma aeronave não tripulada baseada em porta-aviões, enfrenta um atraso de 2,5 anos para sua capacidade operacional inicial e 26 meses para o fim dos testes operacionais iniciais, com possíveis prolongamentos devido a alterações de design baseadas nos testes. Para o destróier DDG(X), a Marinha ainda não ofereceu uma estratégia de aquisição clara que detalhe as premissas do projeto, tornando seu caso de negócios obscuro, segundo o GAO. Além disso, o DDG(X) provavelmente será afetado pelos atrasos nos estaleiros na construção da série Arleigh Burke-class Flight III, que já acumulam até 55 meses de atraso.
O programa de modernização do radar do B-52 da Força Aérea sofre com "aumentos de custo e atrasos no cronograma", optando por iniciar a produção com "muito poucos testes de voo de desenvolvimento concluídos", o que pode gerar riscos futuros. Já o programa de Capacidade de Médio Alcance do Exército (Mid-Range Capability), que emprega mísseis da Marinha e tubos de lançamento vertical em veículos terrestres, identificou três tecnologias críticas adicionais, todas imaturas, levantando questões sobre o retorno do investimento para as quatro baterias planejadas para produção pelo Exército.
Os achados do GAO sublinham a necessidade urgente de uma gestão mais rigorosa e realista nos programas de aquisição de defesa dos EUA. Os atrasos persistentes e a falha em aderir aos propósitos originais de vias de aquisição como o MTA comprometem a capacidade das forças armadas de obter tecnologias essenciais de forma eficiente, impactando diretamente a prontidão operacional e a otimização dos recursos. Para análises aprofundadas sobre defesa, geopolítica e segurança, e para manter-se atualizado sobre esses desenvolvimentos críticos, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e acesse nosso conteúdo exclusivo.










