
Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) registrou um marco histórico ao receber, pela primeira vez, cadetes do segmento feminino no curso de Comunicações. Das 29 vagas oferecidas para o curso de Comunicações, dez foram ocupadas por cadetes do segmento feminino. O ingresso destas pioneiras ocorre no contexto de consolidação do processo de integração das mulheres às linhas de formação operacional e técnica do Exército Brasileiro, coincidindo com o ano em que a Arma de Comunicações completa 70 anos de existência.
Mais do que receberem o distintivo “vetorial” que simboliza o cadete de comunicações, os dezenove cadetes do segmento masculino e as dez cadetes do segmento feminino, recebem um legado. São discípulos de Rondon e herdeiros de uma tradição que uniu o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, por meio das comunicações e que, ainda hoje, sustenta a coesão, a coordenação e a efetividade das operações em tempos de paz e nos complexos cenários dos conflitos militares.

A formatura realizada na última quinta-feira (29) marca o acolhimento dos “calouros” no Curso de Comunicações. A solenidade foi presidida pelo comandante da Academia Militar das Agulhas Negras, Gen Bda Igor Lessa Pasinato. O momento marca o início uma robusta formação em uma das armas mais técnicas do Exército. Na ocasião, o Ten Cel Filipe da Silva Araujo, comandante do curso de Comunicações, destacou toda a importância do momento vivido.
“Hoje vivemos mais um marco histórico. Pela primeira vez, o segmento feminino ingressa na Arma de Comunicações. Diante de nós estão as dez pioneiras. As primeiras oficiais de Comunicações do Exército Brasileiro. As primeiras guerreiras eletrônicas. As primeiras guerreiras da cibernética. E, no futuro, as primeiras generais da Arma.” – declarou o Ten Cel Araujo.

Histórico do ingresso de mulheres no Exército Brasileiro
A presença feminina no Exército Brasileiro iniciou-se formalmente na década de 1980, inicialmente restrita a áreas administrativas e de saúde. Ao longo das décadas seguintes, o processo de ampliação de funções ocorreu de forma progressiva, com a incorporação de mulheres em quadros técnicos, logísticos e científicos. Esse movimento foi acompanhado por ajustes normativos, doutrinários e estruturais, sempre orientados pelo princípio da manutenção dos padrões operacionais e da coesão institucional. A ampliação do acesso às carreiras militares não ocorreu de forma abrupta, mas como resultado de avaliações internas sobre desempenho, adaptação e requisitos profissionais.
Desde então, o acesso das mulheres ao Exército Brasileiro como militares de carreira vem sendo progressivamente ampliado. Elas já exercem funções de comando em organizações militares e participam de missões de paz no exterior, em caráter individual, sob a égide da Organização das Nações Unidas. Atualmente, as mulheres figuram de forma recorrente entre os aprovados nos concursos das escolas de formação militar, integrando, na carreira de oficial, o Quadro de Engenheiros Militares (QEM), o Quadro Complementar de Oficiais (QCO) e o Serviço de Saúde do Exército.
O marco mais recente desse processo é a ampliação do Serviço Militar Inicial. A partir deste ano, de forma voluntária, as mulheres brasileiras poderão também incorporar-se como soldados do Exército e das forças coirmãs, ampliando sua participação nas atividades operacionais e de apoio da Defesa Nacional. Um marco que consolida a presença feminina como parte integrante da força terrestre, atuando em igualdade de condições com os militares do sexo masculino no cumprimento das missões constitucionais do Exército.

As primeiras cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras
A entrada das primeiras mulheres na AMAN em 2018, representou um divisor de águas na formação de oficiais combatentes do Exército Brasileiro. A partir desse momento, a Academia passou a preparar, em ambiente integrado, futuros oficiais de ambos os segmentos no Serviço de Intendência e no Quadro de Material Bélico, mantendo os mesmos critérios acadêmicos, militares e disciplinares.
Na ocasião, para estar em plenas condições der receber as novas 34 cadetes do segmento feminino, a Academia realizou adequações estruturais, administrativas e pedagógicas, sem alterações nos conteúdos essenciais da formação. O objetivo institucional foi garantir igualdade de condições de instrução, preservando a identidade do ensino militar e os padrões exigidos para o exercício do oficialato.
A formatura desta primeira turma, em novembro de 2021, permitiu ao Comando do Exército uma avaliação concreta do processo de integração. Os resultados observados indicaram plena capacidade de adaptação das cadetes às rotinas acadêmicas, militares e operacionais, bem como a viabilidade de convivência profissional integrada no ambiente da formação. A experiência acumulada desde então, contribuiu para o aprimoramento de procedimentos internos da Academia, consolidando práticas que hoje fazem parte da rotina institucional e garantem a isonomia prevista no serviço público. Esse aprendizado foi fundamental para viabilizar a ampliação gradual do acesso das mulheres a diferentes armas, quadros e serviços.

A chegada das primeiras cadetes da Arma do Comando
O ingresso das primeiras cadetes do segmento feminino no curso de Comunicações neste ano de 2026, representa uma etapa adicional nesse processo. A Arma de Comunicações possui papel estratégico no Exército Brasileiro, sendo responsável pelo planejamento, implantação, operação e manutenção dos sistemas de comando, controle, comunicações e apoio à decisão. A formação em Comunicações exige elevado domínio técnico, capacidade de integração sistêmica e compreensão do ambiente operacional moderno, marcado pela digitalização, pela guerra eletrônica e pela interdependência entre meios terrestres, aéreos e cibernéticos.
Este marco histórico ocorre no ano em que a “Arma do Comando” celebra sete décadas de história, tradição, inovação e serviço ao Exército Brasileiro. A coincidência temporal confere significado simbólico e institucional ao evento, associando tradição e continuidade à modernização do perfil profissional da Força.
Ao longo de seus 70 anos, a Arma de Comunicações acompanhou transformações tecnológicas profundas, passando de sistemas analógicos a arquiteturas digitais complexas. A incorporação de mulheres à sua formação na AMAN reforça a capacidade de adaptação da Arma às exigências contemporâneas, sem ruptura em seus fundamentos doutrinários e históricos.
Esta importante página na história das mulheres no Exército Brasileiro, consolida uma trajetória institucional pautada pelo planejamento, pela avaliação técnica e pela preservação dos padrões operacionais. O marco reforça o entendimento de que a integração de mulheres às armas e cursos da AMAN está vinculada à capacitação profissional e às necessidades estratégicas do Exército Brasileiro. Nos próximos três anos as dez cadetes pioneiras irão montar postos-rádios isolados em cotas elevadas, permanecerão dias sem apoio logístico, subirão em torres, instalarão equipamentos e irão operar redes de rádio, redes de computadores e sistemas complexos, em total isonomia com os cadetes do segmento masculino, sem distinção de sexo e em busca da construção de uma única identidade: a de soldado do Exército Brasileiro.














