O Departamento de Defesa dos Estados Unidos emitiu uma resposta oficial nesta semana para esclarecer comentários feitos pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, que foram interpretados como uma flexibilização das normas sobre contato físico de instrutores com recrutas durante o treinamento básico militar. A resposta veio em forma de carta do subsecretário de Pessoal e Preparação, Anthony Tata, endereçada a um grupo de 28 congressistas que havia questionado as afirmações de Hegseth em um discurso a oficiais superiores no final de setembro de 2025.
No centro da controvérsia estão declarações feitas por Hegseth em um encontro com generais e almirantes, nas quais ele defendeu a revisão de definições de termos como “liderança tóxica”, “bullying” e “hazing” (práticas coercitivas ou de intimidação), argumentando que o uso corrente desses conceitos teria sido “distorcido” ao ponto de prejudicar a autoridade de comandantes e suboficiais. Ele afirmou que instrutores de treinamento podiam “usar métodos consagrados para motivar recrutas, incluindo contato físico” desde que não violassem a lei ou fossem “imprudentes”.

Revisão de definições e orientação do Pentágono
Na carta à qual o Pentágono recorreu para contextualizar os comentários, Tata reafirmou que práticas de “hazing” e bullying são inaceitáveis no serviço militar e que a revisão das definições busca reduzir a complexidade e os entraves do sistema de reclamações interno que, segundo a liderança do Departamento de Defesa, poderia minar a eficácia dos líderes sem distinguir condutas verdadeiramente abusivas de práticas de treinamento legítimas.
O documento não especificou parâmetros precisos para o que constituiria “ações apropriadas” por parte de instrutores em situações envolvendo recrutas, limitando-se a afirmar que o contato físico é permitido quando necessário para garantir a segurança — por exemplo, em cenários de risco imediato à integridade física do recruta ou de terceiros.
Controvérsia política e repercussões
O esclarecimento ocorre em um contexto de debate político intenso sobre cultura e disciplina nas Forças Armadas dos EUA, com Hegseth promovendo uma agenda de restauração do que chama de “ethos guerreiro” e de reforço de padrões de treinamento e preparo físico. Críticos, incluindo os próprios congressistas que questionaram suas declarações, alertam para os riscos de revisão de normas de proteção contra abuso e assédio no ambiente militar.
A congressista Judy Chu (D–CA), que liderou o grupo de legisladores que solicitou esclarecimentos, vinculou a discussão à memória de seu sobrinho, um fuzileiro naval que morreu por suicídio após um episódio de abuso físico por colegas em 2011, enfatizando a necessidade de assegurar que nenhuma mudança de política reduza a proteção de recrutas e militares contra práticas danosas.
Dados de reclamações sobre “hazing” e desafios de implementação
Relatórios compilados até 2024 indicam que cerca de um em cada cinco casos de “hazing” e bullying formalmente registrados foram substanciados, com números gerais de reclamações aumentando recentemente, embora ainda relativamente baixos em comparação com o tamanho total das Forças Armadas. O Corpo de Fuzileiros Navais responde por uma proporção desproporcional desses casos desde que o reporte compulsório foi instituído em 2020.
Tata ressaltou ainda que o Pentágono está desenvolvendo um banco de dados mais robusto para coleta e análise de reclamações, financiado por verbas alocadas em 2025, com o objetivo de melhorar a precisão e a utilidade dos dados disponíveis sobre incidentes de conduta inadequada.










