Os objetivos geopolíticos americanos na guerra do Irã: contenção da China e da Rússia e reconfiguração do Rimland eurasiático

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Os objetivos geopolíticos americanos na guerra do Irã: contenção da China e da Rússia e reconfiguração do Rimland eurasiático

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1. Introdução

O conflito armado envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, intensificado a partir do final de fevereiro de 2026, não pode ser compreendido apenas como desdobramento regional das tensões iniciadas com os ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. Embora o teatro imediato seja o Oriente Médio, sua lógica estratégica insere-se em uma competição sistêmica mais ampla, na qual a geografia, a energia e os corredores de conectividade assumem papel central.

Diante desse contexto, o presente ensaio examina em que medida a guerra atual, para além de seus objetivos de guerra e militares imediatos, constitui instrumento de reconfiguração geopolítica do espaço eurasiático, tendo como eixo estruturante a contenção estratégica da China e da Rússia, por meio de seu isolamento, por vias terrestres, do Oriente Médio. Ademais, almeja-se também o controle do espaço e rotas energéticas e, obtida a relativa estabilidade regional, um reposicionamento de forças. Dessa forma, o Irã funciona simultaneamente como ator regional, potência revisionista e nó logístico relevante na articulação continental euroasiática. Parte-se da hipótese de que a escalada do conflito no teatro médio-oriental também se relaciona aos esforços de manutenção da primazia estratégica americana e à contenção indireta de rivais sistêmicos, especialmente China e Rússia. Para explorar essa hipótese, o artigo apresenta inicialmente uma breve contextualização da crise regional, discute o enquadramento teórico adotado e analisa os possíveis objetivos geopolíticos associados ao conflito.

Importa destacar que o conflito se encontra em pleno desenvolvimento, com desdobramentos ainda incertos nos planos geopolítico, estratégico, operacional, político e diplomático. A abordagem aqui adotada é eminentemente político-estratégica, voltada à identificação de objetivos estruturais e tendências sistêmicas, e não à descrição tática dos acontecimentos. Trata-se, portanto, de análise introdutória, formulada sob condições de informação dinâmica e potencialmente incompleta, sujeita a aperfeiçoamentos, retificações ou ratificações à medida que novos dados se consolidem e o curso do conflito revele com maior nitidez suas consequências estratégicas.

Do ponto de vista metodológico, o estudo adota abordagem qualitativa de caráter exploratório, baseada em análise geopolítica e estratégica. A investigação mobiliza a literatura clássica e contemporânea sobre geopolítica e a competição entre grandes potências, associada à interpretação de eventos recentes relacionados à escalada do conflito no Oriente Médio.

2. Breve síntese da dinâmica regional (2016-2025)

A escalada que culmina no conflito atual deve ser compreendida como processo cumulativo iniciado ainda na segunda metade da década passada. Em janeiro de 2016, a entrada em vigor do Plano de Ação Conjunto Global (Joint Comprehensive Plan of Action – JCPOA) inaugurou a fase de contenção negociada do programa nuclear iraniano, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica. Contudo, a retirada formal dos Estados Unidos do acordo em maio de 2018 e a reimposição de sanções econômicas em larga escala reconfiguraram estruturalmente o eixo Washington–Teerã, recolocando o programa nuclear no centro da disputa estratégica e inaugurando um ciclo de pressão máxima e de respostas graduais por parte do Irã.

A partir de 2018, Israel intensificou ataques contra posições iranianas e de grupos aliados na Síria, buscando impedir a consolidação de corredores estratégicos e de capacidades militares avançadas na sua vizinhança. Em 2019, incidentes envolvendo navios petroleiros no Golfo de Omã e ameaças à navegação no entorno do Estreito de Ormuz evidenciaram a crescente centralidade das rotas energéticas na rivalidade regional. Em janeiro de 2020, ataques iranianos contra bases com presença norte-americana no Iraque reforçaram o padrão de ação e retaliação direta limitada, ainda sem ruptura para guerra aberta.

O ponto de inflexão ocorreu em 7 de outubro de 2023, quando o ataque do Hamas a Israel desencadeou uma ampla campanha militar israelense e reativou plenamente a dinâmica do chamado “eixo da resistência”, composto por grupos apoiados pelo Irã no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen. A multiplicação de frentes de combate elevou o risco de expansão horizontal do conflito. Em abril de 2024, a troca de ataques diretos entre Israel e Irã marcou a erosão do padrão exclusivamente indireto de confrontação, sinalizando a disposição de ambos os lados de ultrapassar limiares anteriores de contenção.

A escalada atingiu um novo patamar em junho de 2025, durante a chamada “Guerra dos Doze Dias”, quando operações de grande intensidade passaram a atingir a infraestrutura estratégica iraniana, incluindo instalações associadas ao ciclo nuclear. A Operação Midnight Hammer, conduzida em 22 de junho de 2025, simbolizou esse salto qualitativo ao empregar meios estratégicos de longo alcance contra alvos em profundidade. Esse encadeamento de eventos revela que o conflito em curso não resulta de uma crise episódica, mas de uma trajetória progressiva de reescalada na qual programa nuclear, redes de aliados regionais, controle de rotas energéticas e competição entre grandes potências convergiram em um mesmo problema estratégico.

3. A Estratégia de Segurança dos EUA

Outro aspecto importante para compreender os objetivos geopolíticos norte-americanos neste conflito é a atual Estratégia de Segurança dos EUA, que prevê interesses fundamentais em assegurar que os suprimentos energéticos do Golfo Pérsico não caiam nas mãos de um inimigo declarado (leia-se China). Também prevê que o Estreito de Ormuz permaneça aberto; que o Mar Vermelho continue navegável; que a região não se torne um incubador ou exportador de terrorismo contra os interesses americanos ou contra o território dos Estados Unidos; e que Israel permaneça seguro. O Irã é considerado, pelos EUA e por Israel, o grande polo de instabilidade regional e esse exportador de terrorismo para todo o mundo e possui a capacidade, em tempo indeterminado, de vir a possuir artefatos nucleares.

A China, principal rival americano, vinha importando a imensa maioria do petróleo iraniano, além de também ser uma grande compradora do petróleo que flui pelo Estreito de Ormuz. Também fazia uso do corredor ferroviário que liga o porto iraniano de Bandar Abbas à região de Shandong. Dessa forma, ao controlar o Irã, além de exercer influência sobre todo o petróleo produzido no Golfo Pérsico, os EUA farão a contenção da China e a isolarão, por terra, do Oriente Médio.

Da mesma forma, essa ferrovia, a partir de Teerã, segue para Moscou, integrando o chamado Corredor Internacional Norte-Sul (INSTC, na sigla em inglês), fazendo com que o controle do Irã pelos EUA também isolasse, por terra, a Rússia do Oriente Médio.

Outro ponto importante da Estratégia de Segurança americana é a intenção de se aumentar a presença militar no Leste Asiático, mais especificamente na região do Mar do Sul da China e nas cercanias de Taiwan. As regiões do mundo nas quais há uma grande concentração de tropas são, além do próprio Leste Asiático, a Europa e o Oriente Médio, bastante instáveis no momento devido à Guerra na Ucrânia e às ações promovidas pelo Irã e seus proxies, respectivamente.

4. Enquadramento Teórico

A compreensão do conflito à luz da tradição geopolítica clássica permite deslocar a análise do plano episódico para o estrutural, evidenciando que disputas aparentemente regionais frequentemente operam como instrumentos de rearranjo do equilíbrio sistêmico. A guerra em curso no entorno do Golfo Pérsico deve, portanto, ser interpretada como uma manifestação localizada de uma competição mais ampla pela reconfiguração do espaço eurasiático.

Alfred Thayer Mahan demonstrou que o poder marítimo constitui uma variável decisiva na projeção de poder global, especialmente quando associado ao controle de rotas comerciais e gargalos estratégicos. O Estreito de Ormuz, por onde transita parcela substancial do comércio mundial de petróleo, insere-se precisamente nessa categoria de chokepoint. O controle — ou a capacidade de negação de acesso — a esse ponto crítico não implica necessariamente apropriação direta do recurso energético, mas condiciona a sua circulação. Em um sistema internacional dependente de cadeias logísticas contínuas, a regulação coercitiva do fluxo marítimo converte-se em instrumento de poder estrutural.

Nicholas Spykman, ao formular o conceito de Rimland, argumentou que o domínio das fímbrias litorâneas da Eurásia — faixa intermediária entre o Heartland continental e os oceanos — determina o equilíbrio global. O Oriente Médio integra esse arco periférico decisivo, constituindo zona de contato entre potências marítimas e continentais. Controlar ou influenciar esse espaço significa, em termos spykmanianos, condicionar simultaneamente o acesso terrestre e marítimo à massa eurasiática.

A formulação estratégica de Nicholas J. Spykman sobre o Rimland constitui uma das bases clássicas da geopolítica anglo-americana do século XX. (Arte/OP Magazine)

Zbigniew Brzezinski, ao tratar a Eurásia como o “grande tabuleiro” da política mundial, aprofundou essa leitura ao enfatizar que nenhuma potência pode aspirar à primazia global sem exercer influência determinante sobre os corredores estratégicos eurasiáticos. Nesse contexto, conflitos localizados podem desempenhar função instrumental na imposição de vulnerabilidades a competidores sistêmicos. A energia, as rotas de transporte e os pontos de estrangulamento logístico tornam-se peças centrais dessa disputa.

Saul Cohen, por sua vez, qualificou o Oriente Médio como shatterbelt, isto é, região estruturalmente instável na qual rivalidades locais e competições globais se sobrepõem. Nessas zonas de fratura, crises regionais tendem a adquirir dimensão sistêmica, pois funcionam como espaços de projeção indireta das grandes potências. O padrão recorrente de intervenção externa e instabilidade confirma essa caracterização. Cohen também designa o Irã como um gate state, país que conecta duas regiões geopolíticas diferentes. Essas duas definições estão no cerne do presente ensaio.

À luz desse arcabouço, o conflito atual revela-se menos como guerra bilateral isolada e mais como episódio inserido na disputa pela reorganização do espaço eurasiático. O controle de gargalos marítimos, a contenção de corredores continentais e a influência sobre regiões de fratura constituem dimensões complementares de uma mesma lógica estratégica. A guerra no entorno do Irã, portanto, pode ser compreendida como um mecanismo de ajuste geopolítico no interior da competição entre potências estabelecidas e revisionistas.

5. Objetivos Políticos e Militares

A Operação Midnight Hammer, desencadeada em 22 de junho de 2025, marcou escalada qualitativa ao atingir instalações nucleares estratégicas iranianas, com o emprego de bombardeiros B-2 e munições de penetração profunda contra alvos como Fordow e Natanz. O episódio, conhecido como “Guerra dos Doze Dias”, sinalizou a disposição de uso de força direta contra o território iraniano.

Do ponto de vista político, a Operação Epic Fury, também da coalizão EUA–Israel, parece perseguir quatro objetivos principais: (i) neutralizar definitivamente o programa nuclear iraniano; (ii) destruir a estrutura de mísseis, incluindo sua indústria; (iii) aniquilar a Marinha de Guerra iraniana; e (iv) assegurar-se de que o Irã não utilize seus proxies para desestabilizar a região. Esses objetivos foram explicitados pela Casa Branca em nota oficial alguns dias após o início da Operação. No entanto, um quinto objetivo chegou a ser anunciado pelo Presidente Trump e alguns auxiliares, que seria a mudança de regime iraniano. Esse objetivo segue sendo motivo de discussão em vários meios e ainda não está claro. Considerando os ataques de decapitação iniciais, seguidos da destruição de estruturas de comando e controle governamentais e militares, além de inúmeras ameaças políticas e apoio a grupos rebeldes armados, pode-se inferir que, passada a primeira janela de oportunidade, com a eliminação do líder supremo, Aiatolá Khamenei, e parte expressiva da cadeia de comando, algo está em curso no sentido de promover reconfiguração interna para (v) reduzir a autonomia estratégica do regime ou produzir alinhamentos regionais mais compatíveis com os interesses ocidentais. Para Israel, esses objetivos políticos chegam a ser existenciais, reduzindo um risco real de ataque direto e indireto ao seu território por Irã e seus proxies.

Apresentação do cronograma operacional da Operação Midnight Hammer realizada no Pentágono. (Andrew Harnik/ AFP)

No plano militar, os objetivos praticamente coincidem com os políticos, incluindo: (i) destruição de infraestrutura associada ao ciclo nuclear; (ii) neutralização de sistemas de defesa aérea; (iii) degradação da capacidade de lançamento de mísseis balísticos e indústria de defesa; (iv) destruição da marinha iraniana; (v) limitação da atuação da Guarda Revolucionária e meios de repressão interna; e (vi) decapitação do regime e destruição de sua capacidade de comando e controle.

Trata-se de operação multidomínio envolvendo os componentes aéreo, naval, terrestre (ainda limitado no momento), cibernético, espacial e cognitivo, muito além de simples campanhas aéreas contra a infraestrutura do país, conforme inúmeros registros na história, desde a Primeira Guerra Mundial, e que iniciou semanas após uma enorme onda de protestos populares contra o regime, orgânicos e/ou patrocinados por órgãos de inteligência da coalizão, duramente reprimidos pelas forças de segurança iranianas.

Quanto ao Irã, distinguem-se duas camadas de objetivos. No plano retórico-ideológico, permanece a narrativa de eliminação do Estado de Israel, chamado de “Pequeno Satã”. No plano estratégico realista, contudo, o centro de gravidade parece residir na sobrevivência do regime e na erosão indireta do adversário por meio de proxies regionais e dissuasão assimétrica. Militarmente, esses objetivos são buscados com ataques de mísseis e drones contra bases americanas, Israel, países do Golfo e aqueles que, no entendimento de Teerã, colaboram com a coalizão, incluindo ativos relacionados com a produção, refino e escoamento do petróleo, mas também hotéis, embaixadas e até um data center localizado nos Emirados Árabes Unidos. A intenção deve ser expandir a guerra, prolongá-la e causar o máximo de instabilidade econômica e política regional e global, minando a vontade da coalizão, principalmente dos EUA (“Grande Satã”), embora essas consequências elevem os custos da guerra também para a China.

6. Objetivos Geopolíticos Sistêmicos

A dimensão geopolítica amplia significativamente a compreensão do conflito.

O primeiro objetivo sistêmico dos Estados Unidos parece consistir no controle do território e das condições de acesso ao petróleo do Golfo, especialmente do Estreito de Ormuz e das linhas marítimas associadas. Não se trata de apropriação direta do recurso, mas de controle estratégico do espaço e das condições de circulação energética.

Essa condição amplia a vulnerabilidade da China, cuja dependência de importação de petróleo do Golfo é elevada. Estimativas indicam que uma parcela significativa do suprimento energético chinês transita pela região. Em um cenário de interrupção prolongada, Pequim enfrentaria constrangimentos econômicos e estratégicos relevantes.

O segundo objetivo consiste no isolamento simultâneo da China e da Rússia, do Oriente Médio, por via terrestre. A articulação de corredores ferroviários entre o Golfo Pérsico e o espaço eurasiático vinha reduzindo a dependência de rotas marítimas sujeitas à influência americana. A degradação de portos estratégicos como Bandar Abbas e Asaluyeh compromete temporariamente essa conectividade.

O terceiro objetivo estratégico é, com uma possível estabilização regional, ainda que seja por meio de um grande enfraquecimento do Irã, mesmo que o regime se mantenha por ora, liberar capacidade militar americana para o Indo-Pacífico, deslocando recursos do Oriente Médio para o teatro prioritário de contenção da China.

Nesse contexto, o Irã constitui elo geográfico crítico tanto na dimensão marítima quanto na terrestre da competição sistêmica. Um verdadeiro gate state.

7. Consequências Geoeconômicas

No curto prazo, conflitos envolvendo o Golfo Pérsico produzem um impacto imediato sobre os mercados energéticos globais. A simples percepção de risco sobre o Estreito de Ormuz — por onde transita parcela significativa do comércio marítimo de petróleo — eleva o prêmio de risco embutido nos contratos futuros, pressiona os custos de seguro marítimo e aumenta o frete internacional. Mesmo sem a interrupção física prolongada, a expectativa de instabilidade é suficiente para provocar volatilidade nos preços do petróleo, do gás natural e de derivados de hidrocarbonetos, com reflexos diretos sobre inflação, política monetária e balança comercial de economias importadoras.

A dimensão logística também se torna sensível. Interferências em sistemas de navegação, ataques a navios-tanque, risco de lançamento de minas em rotas e eventual redirecionamento de fluxos comerciais aumentam o tempo de transporte e encarecem as cadeias globais de suprimento. Setores intensivos em energia e transporte — como petroquímica, fertilizantes, siderurgia e alimentos — tendem a absorver custos adicionais, com efeitos difusos sobre preços internacionais. Em cenários de incerteza elevada, observa-se ainda a valorização de ativos considerados refúgio, como o dólar norte-americano e o ouro, reforçando a centralidade do sistema financeiro ocidental em momentos de crise.

No médio prazo, o impacto dependerá da duração e do resultado estratégico do conflito. Um enfraquecimento duradouro do Irã pode reconfigurar os fluxos energéticos regionais, ampliar a margem de manobra de Israel e facilitar a expansão de acordos de normalização diplomática no Oriente Médio. A estabilização relativa do Golfo, sob maior controle de coalizões alinhadas aos Estados Unidos, tenderia a reduzir prêmios de risco, mas simultaneamente se consolidaria como um instrumento de influência estrutural sobre o abastecimento energético global, aumentando as vulnerabilidades chinesas, além de permitir o deslocamento de tropas dessa região para o Extremo Oriente. Por último, uma derrota do Irã, uma das chamadas “potências revisionistas”, também poderá causar danos à imagem de China e Rússia como pretensos líderes de uma nova ordem multipolar, principalmente se esses dois países não prestarem nenhum tipo de apoio material adicional ao aliado durante o conflito.

Em contrapartida, caso o regime iraniano sobreviva politicamente e consiga recompor capacidades, com apoio de China e Rússia, a narrativa de multipolaridade revisionista pode ganhar impulso. Nesse cenário, tenderiam a intensificar-se os esforços de diversificação de rotas energéticas, a aceleração de acordos bilaterais em moedas alternativas e o fortalecimento de corredores terrestres eurasiáticos como forma de reduzir vulnerabilidades marítimas. A dimensão geoeconômica do conflito, portanto, não se limita ao preço do petróleo: envolve a disputa pela arquitetura financeira, pela resiliência logística e pela capacidade de impor — ou mitigar — vulnerabilidades estruturais no sistema internacional. Por fim, resultados considerados negativos na guerra podem influir nas eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro de 2026.

O Brasil pode adquirir uma renovada importância geopolítica como espaço de competição por influência e por ativos estratégicos. (Divulgação/Mineira Jr)

8. Implicações Prospectivas e Reflexos para o Brasil

A redistribuição de poder decorrente do conflito no Oriente Médio tende a produzir impactos indiretos, porém relevantes, sobre o Hemisfério Ocidental. À medida que a rivalidade sistêmica entre Estados Unidos e China se intensifica, a disputa por acesso a recursos estratégicos, rotas logísticas e cadeias tecnológicas tende a se expandir para regiões consideradas estáveis ou periféricas à confrontação direta. Nesse contexto, a América do Sul pode adquirir uma renovada importância geopolítica, não como teatro de conflito, mas como espaço de competição por influência e por ativos estratégicos.

O Brasil, enquanto maior economia e principal ator político-militar da região, reúne atributos que o tornam relevante nessa equação: abundância de minerais críticos associados à transição energética e à indústria de alta tecnologia, capacidade de produção energética diversificada, disponibilidade de grande quantidade de água e biodiversidade, posição geográfica atlântica estratégica e inserção diplomática simultânea junto a potências ocidentais e emergentes. Em um cenário de maior polarização sistêmica, pressões por alinhamento podem se manifestar de forma indireta, especialmente em setores como infraestrutura digital, cadeias de semicondutores, mineração de terras raras e financiamento de projetos estratégicos.

Oscilações prolongadas no mercado energético global também possuem efeitos domésticos tangíveis. A volatilidade do petróleo influencia inflação, taxa de câmbio e política monetária, com impactos sobre crescimento econômico e investimento público. Adicionalmente, a valorização de ativos considerados seguros, como o dólar, tende a pressionar economias emergentes, afetando o fluxo de capitais e as condições de financiamento. Assim, mesmo distante geograficamente do teatro de operações, o Brasil permanece economicamente exposto às dinâmicas geoeconômicas do conflito.

Por outro lado, cenários de reconfiguração energética e logística podem abrir oportunidades estratégicas. A busca por diversificação de fornecedores e rotas pode favorecer exportadores estáveis e politicamente previsíveis. A consolidação de uma postura diplomática equilibrada e pragmática pode ampliar a margem de manobra brasileira em um ambiente de polarização crescente. Nesse sentido, a compreensão das implicações sistêmicas do conflito não constitui exercício meramente analítico, mas condição necessária para a formulação de políticas que preservem autonomia estratégica e capacidade de decisão soberana em um sistema internacional cada vez mais competitivo.

9. Considerações Finais

A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã transcende o conflito regional imediato. À luz da tradição geopolítica clássica, ela se revela como uma manifestação localizada de uma disputa mais ampla pela configuração do espaço eurasiático e pelo equilíbrio sistêmico entre potências estabelecidas e atores revisionistas. O controle de gargalos energéticos, a influência sobre corredores continentais e a disputa pelo Rimland constituem dimensões interligadas dessa dinâmica estratégica.

Mais do que confronto circunstancial, o episódio atual integra um processo de reorganização do ambiente internacional, no qual energia, conectividade e vulnerabilidades estruturais assumem papel central. A capacidade de converter ganhos militares em resultados políticos duradouros será decisiva para determinar se a escalada produzirá uma estabilização relativa ou um aprofundamento da polarização sistêmica. Em qualquer hipótese, os efeitos geoeconômicos já observados indicam que o conflito impacta cadeias logísticas, mercados financeiros e percepções de risco em escala global.

Importa ressaltar, contudo, que o conflito permanece em desenvolvimento, exigindo acompanhamento contínuo de seus desdobramentos geopolíticos, estratégicos, operacionais, diplomáticos e econômicos. Pela natureza do conflito, dificilmente haverá uma vitória clássica ou uma rendição incondicional de uma das partes, fazendo com que possa simplesmente desescalar sua intensidade e reequilibrar-se, com ambos os lados declarando o sucesso na consecução dos objetivos políticos, mas dificilmente para o status quo ante de um Irã forte e buscando a liderança regional. O presente ensaio não pretende oferecer uma interpretação exaustiva, mas contribuir com o enquadramento conceitual que permita compreender sua inserção em uma lógica estrutural mais ampla. Outros ângulos analíticos — militares, jurídicos, energéticos ou tecnológicos — podem e devem ser explorados à medida que novas informações se consolidem.

Por fim, a leitura geopolítica aqui apresentada não exclui a centralidade dos interesses nacionais específicos de cada ator envolvido. As decisões de Estados Unidos, Israel, Irã, Rússia e China refletem percepções próprias de segurança, reputação e oportunidade estratégica, que condicionam tanto suas ações quanto as narrativas produzidas sobre o conflito. Compreender essa interação entre estrutura sistêmica e cálculo nacional é condição essencial para interpretar a evolução da crise e seus impactos sobre a ordem internacional contemporânea.

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O presente artigo contou com a valiosa colaboração do Coronel Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon, Prof. Dr. Coordenador do Laboratório de Ciências Militares / ECEME.

Bibliografia sugerida

BRZEZINSKI, Zbigniew. The grand chessboard: American primacy and its geostrategic imperatives. New York: Basic Books, 1997.

COHEN, Saul B. Geopolitics: the geography of international relations. 2. ed. Lanham: Rowman & Littlefield, 2015.

GRAY, Colin S. The geopolitics of super power. Lexington: University Press of Kentucky, 1988.

INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY (IAEA). Verification and monitoring in the Islamic Republic of Iran in light of United Nations Security Council resolution 2231 (2015). Vienna: IAEA, 2023–2026.

KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and interdependence. 4. ed. Boston: Longman, 2012.

KENNAN, George F. The sources of Soviet conduct. Foreign Affairs, New York, v. 25, n. 4, p. 566–582, 1947.

KLARE, Michael T. Rising powers, shrinking planet: the new geopolitics of energy. New York: Metropolitan Books, 2008.

MACKINDER, Halford J. The geographical pivot of history. The Geographical Journal, London, v. 23, n. 4, p. 421–437, 1904.

MAHAN, Alfred Thayer. The influence of sea power upon history, 1660–1783. Boston: Little, Brown and Company, 1890.

MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton, 2001.

SPYKMAN, Nicholas J. The geography of the peace. New York: Harcourt, Brace and Company, 1944.

WALT, Stephen M. The origins of alliances. Ithaca: Cornell University Press, 1987.

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1. Introdução

O conflito armado envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, intensificado a partir do final de fevereiro de 2026, não pode ser compreendido apenas como desdobramento regional das tensões iniciadas com os ataques do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. Embora o teatro imediato seja o Oriente Médio, sua lógica estratégica insere-se em uma competição sistêmica mais ampla, na qual a geografia, a energia e os corredores de conectividade assumem papel central.

Diante desse contexto, o presente ensaio examina em que medida a guerra atual, para além de seus objetivos de guerra e militares imediatos, constitui instrumento de reconfiguração geopolítica do espaço eurasiático, tendo como eixo estruturante a contenção estratégica da China e da Rússia, por meio de seu isolamento, por vias terrestres, do Oriente Médio. Ademais, almeja-se também o controle do espaço e rotas energéticas e, obtida a relativa estabilidade regional, um reposicionamento de forças. Dessa forma, o Irã funciona simultaneamente como ator regional, potência revisionista e nó logístico relevante na articulação continental euroasiática. Parte-se da hipótese de que a escalada do conflito no teatro médio-oriental também se relaciona aos esforços de manutenção da primazia estratégica americana e à contenção indireta de rivais sistêmicos, especialmente China e Rússia. Para explorar essa hipótese, o artigo apresenta inicialmente uma breve contextualização da crise regional, discute o enquadramento teórico adotado e analisa os possíveis objetivos geopolíticos associados ao conflito.

Importa destacar que o conflito se encontra em pleno desenvolvimento, com desdobramentos ainda incertos nos planos geopolítico, estratégico, operacional, político e diplomático. A abordagem aqui adotada é eminentemente político-estratégica, voltada à identificação de objetivos estruturais e tendências sistêmicas, e não à descrição tática dos acontecimentos. Trata-se, portanto, de análise introdutória, formulada sob condições de informação dinâmica e potencialmente incompleta, sujeita a aperfeiçoamentos, retificações ou ratificações à medida que novos dados se consolidem e o curso do conflito revele com maior nitidez suas consequências estratégicas.

Do ponto de vista metodológico, o estudo adota abordagem qualitativa de caráter exploratório, baseada em análise geopolítica e estratégica. A investigação mobiliza a literatura clássica e contemporânea sobre geopolítica e a competição entre grandes potências, associada à interpretação de eventos recentes relacionados à escalada do conflito no Oriente Médio.

2. Breve síntese da dinâmica regional (2016-2025)

A escalada que culmina no conflito atual deve ser compreendida como processo cumulativo iniciado ainda na segunda metade da década passada. Em janeiro de 2016, a entrada em vigor do Plano de Ação Conjunto Global (Joint Comprehensive Plan of Action – JCPOA) inaugurou a fase de contenção negociada do programa nuclear iraniano, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica. Contudo, a retirada formal dos Estados Unidos do acordo em maio de 2018 e a reimposição de sanções econômicas em larga escala reconfiguraram estruturalmente o eixo Washington–Teerã, recolocando o programa nuclear no centro da disputa estratégica e inaugurando um ciclo de pressão máxima e de respostas graduais por parte do Irã.

A partir de 2018, Israel intensificou ataques contra posições iranianas e de grupos aliados na Síria, buscando impedir a consolidação de corredores estratégicos e de capacidades militares avançadas na sua vizinhança. Em 2019, incidentes envolvendo navios petroleiros no Golfo de Omã e ameaças à navegação no entorno do Estreito de Ormuz evidenciaram a crescente centralidade das rotas energéticas na rivalidade regional. Em janeiro de 2020, ataques iranianos contra bases com presença norte-americana no Iraque reforçaram o padrão de ação e retaliação direta limitada, ainda sem ruptura para guerra aberta.

O ponto de inflexão ocorreu em 7 de outubro de 2023, quando o ataque do Hamas a Israel desencadeou uma ampla campanha militar israelense e reativou plenamente a dinâmica do chamado “eixo da resistência”, composto por grupos apoiados pelo Irã no Líbano, Iraque, Síria e Iêmen. A multiplicação de frentes de combate elevou o risco de expansão horizontal do conflito. Em abril de 2024, a troca de ataques diretos entre Israel e Irã marcou a erosão do padrão exclusivamente indireto de confrontação, sinalizando a disposição de ambos os lados de ultrapassar limiares anteriores de contenção.

A escalada atingiu um novo patamar em junho de 2025, durante a chamada “Guerra dos Doze Dias”, quando operações de grande intensidade passaram a atingir a infraestrutura estratégica iraniana, incluindo instalações associadas ao ciclo nuclear. A Operação Midnight Hammer, conduzida em 22 de junho de 2025, simbolizou esse salto qualitativo ao empregar meios estratégicos de longo alcance contra alvos em profundidade. Esse encadeamento de eventos revela que o conflito em curso não resulta de uma crise episódica, mas de uma trajetória progressiva de reescalada na qual programa nuclear, redes de aliados regionais, controle de rotas energéticas e competição entre grandes potências convergiram em um mesmo problema estratégico.

3. A Estratégia de Segurança dos EUA

Outro aspecto importante para compreender os objetivos geopolíticos norte-americanos neste conflito é a atual Estratégia de Segurança dos EUA, que prevê interesses fundamentais em assegurar que os suprimentos energéticos do Golfo Pérsico não caiam nas mãos de um inimigo declarado (leia-se China). Também prevê que o Estreito de Ormuz permaneça aberto; que o Mar Vermelho continue navegável; que a região não se torne um incubador ou exportador de terrorismo contra os interesses americanos ou contra o território dos Estados Unidos; e que Israel permaneça seguro. O Irã é considerado, pelos EUA e por Israel, o grande polo de instabilidade regional e esse exportador de terrorismo para todo o mundo e possui a capacidade, em tempo indeterminado, de vir a possuir artefatos nucleares.

A China, principal rival americano, vinha importando a imensa maioria do petróleo iraniano, além de também ser uma grande compradora do petróleo que flui pelo Estreito de Ormuz. Também fazia uso do corredor ferroviário que liga o porto iraniano de Bandar Abbas à região de Shandong. Dessa forma, ao controlar o Irã, além de exercer influência sobre todo o petróleo produzido no Golfo Pérsico, os EUA farão a contenção da China e a isolarão, por terra, do Oriente Médio.

Da mesma forma, essa ferrovia, a partir de Teerã, segue para Moscou, integrando o chamado Corredor Internacional Norte-Sul (INSTC, na sigla em inglês), fazendo com que o controle do Irã pelos EUA também isolasse, por terra, a Rússia do Oriente Médio.

Outro ponto importante da Estratégia de Segurança americana é a intenção de se aumentar a presença militar no Leste Asiático, mais especificamente na região do Mar do Sul da China e nas cercanias de Taiwan. As regiões do mundo nas quais há uma grande concentração de tropas são, além do próprio Leste Asiático, a Europa e o Oriente Médio, bastante instáveis no momento devido à Guerra na Ucrânia e às ações promovidas pelo Irã e seus proxies, respectivamente.

4. Enquadramento Teórico

A compreensão do conflito à luz da tradição geopolítica clássica permite deslocar a análise do plano episódico para o estrutural, evidenciando que disputas aparentemente regionais frequentemente operam como instrumentos de rearranjo do equilíbrio sistêmico. A guerra em curso no entorno do Golfo Pérsico deve, portanto, ser interpretada como uma manifestação localizada de uma competição mais ampla pela reconfiguração do espaço eurasiático.

Alfred Thayer Mahan demonstrou que o poder marítimo constitui uma variável decisiva na projeção de poder global, especialmente quando associado ao controle de rotas comerciais e gargalos estratégicos. O Estreito de Ormuz, por onde transita parcela substancial do comércio mundial de petróleo, insere-se precisamente nessa categoria de chokepoint. O controle — ou a capacidade de negação de acesso — a esse ponto crítico não implica necessariamente apropriação direta do recurso energético, mas condiciona a sua circulação. Em um sistema internacional dependente de cadeias logísticas contínuas, a regulação coercitiva do fluxo marítimo converte-se em instrumento de poder estrutural.

Nicholas Spykman, ao formular o conceito de Rimland, argumentou que o domínio das fímbrias litorâneas da Eurásia — faixa intermediária entre o Heartland continental e os oceanos — determina o equilíbrio global. O Oriente Médio integra esse arco periférico decisivo, constituindo zona de contato entre potências marítimas e continentais. Controlar ou influenciar esse espaço significa, em termos spykmanianos, condicionar simultaneamente o acesso terrestre e marítimo à massa eurasiática.

A formulação estratégica de Nicholas J. Spykman sobre o Rimland constitui uma das bases clássicas da geopolítica anglo-americana do século XX. (Arte/OP Magazine)

Zbigniew Brzezinski, ao tratar a Eurásia como o “grande tabuleiro” da política mundial, aprofundou essa leitura ao enfatizar que nenhuma potência pode aspirar à primazia global sem exercer influência determinante sobre os corredores estratégicos eurasiáticos. Nesse contexto, conflitos localizados podem desempenhar função instrumental na imposição de vulnerabilidades a competidores sistêmicos. A energia, as rotas de transporte e os pontos de estrangulamento logístico tornam-se peças centrais dessa disputa.

Saul Cohen, por sua vez, qualificou o Oriente Médio como shatterbelt, isto é, região estruturalmente instável na qual rivalidades locais e competições globais se sobrepõem. Nessas zonas de fratura, crises regionais tendem a adquirir dimensão sistêmica, pois funcionam como espaços de projeção indireta das grandes potências. O padrão recorrente de intervenção externa e instabilidade confirma essa caracterização. Cohen também designa o Irã como um gate state, país que conecta duas regiões geopolíticas diferentes. Essas duas definições estão no cerne do presente ensaio.

À luz desse arcabouço, o conflito atual revela-se menos como guerra bilateral isolada e mais como episódio inserido na disputa pela reorganização do espaço eurasiático. O controle de gargalos marítimos, a contenção de corredores continentais e a influência sobre regiões de fratura constituem dimensões complementares de uma mesma lógica estratégica. A guerra no entorno do Irã, portanto, pode ser compreendida como um mecanismo de ajuste geopolítico no interior da competição entre potências estabelecidas e revisionistas.

5. Objetivos Políticos e Militares

A Operação Midnight Hammer, desencadeada em 22 de junho de 2025, marcou escalada qualitativa ao atingir instalações nucleares estratégicas iranianas, com o emprego de bombardeiros B-2 e munições de penetração profunda contra alvos como Fordow e Natanz. O episódio, conhecido como “Guerra dos Doze Dias”, sinalizou a disposição de uso de força direta contra o território iraniano.

Do ponto de vista político, a Operação Epic Fury, também da coalizão EUA–Israel, parece perseguir quatro objetivos principais: (i) neutralizar definitivamente o programa nuclear iraniano; (ii) destruir a estrutura de mísseis, incluindo sua indústria; (iii) aniquilar a Marinha de Guerra iraniana; e (iv) assegurar-se de que o Irã não utilize seus proxies para desestabilizar a região. Esses objetivos foram explicitados pela Casa Branca em nota oficial alguns dias após o início da Operação. No entanto, um quinto objetivo chegou a ser anunciado pelo Presidente Trump e alguns auxiliares, que seria a mudança de regime iraniano. Esse objetivo segue sendo motivo de discussão em vários meios e ainda não está claro. Considerando os ataques de decapitação iniciais, seguidos da destruição de estruturas de comando e controle governamentais e militares, além de inúmeras ameaças políticas e apoio a grupos rebeldes armados, pode-se inferir que, passada a primeira janela de oportunidade, com a eliminação do líder supremo, Aiatolá Khamenei, e parte expressiva da cadeia de comando, algo está em curso no sentido de promover reconfiguração interna para (v) reduzir a autonomia estratégica do regime ou produzir alinhamentos regionais mais compatíveis com os interesses ocidentais. Para Israel, esses objetivos políticos chegam a ser existenciais, reduzindo um risco real de ataque direto e indireto ao seu território por Irã e seus proxies.

Apresentação do cronograma operacional da Operação Midnight Hammer realizada no Pentágono. (Andrew Harnik/ AFP)

No plano militar, os objetivos praticamente coincidem com os políticos, incluindo: (i) destruição de infraestrutura associada ao ciclo nuclear; (ii) neutralização de sistemas de defesa aérea; (iii) degradação da capacidade de lançamento de mísseis balísticos e indústria de defesa; (iv) destruição da marinha iraniana; (v) limitação da atuação da Guarda Revolucionária e meios de repressão interna; e (vi) decapitação do regime e destruição de sua capacidade de comando e controle.

Trata-se de operação multidomínio envolvendo os componentes aéreo, naval, terrestre (ainda limitado no momento), cibernético, espacial e cognitivo, muito além de simples campanhas aéreas contra a infraestrutura do país, conforme inúmeros registros na história, desde a Primeira Guerra Mundial, e que iniciou semanas após uma enorme onda de protestos populares contra o regime, orgânicos e/ou patrocinados por órgãos de inteligência da coalizão, duramente reprimidos pelas forças de segurança iranianas.

Quanto ao Irã, distinguem-se duas camadas de objetivos. No plano retórico-ideológico, permanece a narrativa de eliminação do Estado de Israel, chamado de “Pequeno Satã”. No plano estratégico realista, contudo, o centro de gravidade parece residir na sobrevivência do regime e na erosão indireta do adversário por meio de proxies regionais e dissuasão assimétrica. Militarmente, esses objetivos são buscados com ataques de mísseis e drones contra bases americanas, Israel, países do Golfo e aqueles que, no entendimento de Teerã, colaboram com a coalizão, incluindo ativos relacionados com a produção, refino e escoamento do petróleo, mas também hotéis, embaixadas e até um data center localizado nos Emirados Árabes Unidos. A intenção deve ser expandir a guerra, prolongá-la e causar o máximo de instabilidade econômica e política regional e global, minando a vontade da coalizão, principalmente dos EUA (“Grande Satã”), embora essas consequências elevem os custos da guerra também para a China.

6. Objetivos Geopolíticos Sistêmicos

A dimensão geopolítica amplia significativamente a compreensão do conflito.

O primeiro objetivo sistêmico dos Estados Unidos parece consistir no controle do território e das condições de acesso ao petróleo do Golfo, especialmente do Estreito de Ormuz e das linhas marítimas associadas. Não se trata de apropriação direta do recurso, mas de controle estratégico do espaço e das condições de circulação energética.

Essa condição amplia a vulnerabilidade da China, cuja dependência de importação de petróleo do Golfo é elevada. Estimativas indicam que uma parcela significativa do suprimento energético chinês transita pela região. Em um cenário de interrupção prolongada, Pequim enfrentaria constrangimentos econômicos e estratégicos relevantes.

O segundo objetivo consiste no isolamento simultâneo da China e da Rússia, do Oriente Médio, por via terrestre. A articulação de corredores ferroviários entre o Golfo Pérsico e o espaço eurasiático vinha reduzindo a dependência de rotas marítimas sujeitas à influência americana. A degradação de portos estratégicos como Bandar Abbas e Asaluyeh compromete temporariamente essa conectividade.

O terceiro objetivo estratégico é, com uma possível estabilização regional, ainda que seja por meio de um grande enfraquecimento do Irã, mesmo que o regime se mantenha por ora, liberar capacidade militar americana para o Indo-Pacífico, deslocando recursos do Oriente Médio para o teatro prioritário de contenção da China.

Nesse contexto, o Irã constitui elo geográfico crítico tanto na dimensão marítima quanto na terrestre da competição sistêmica. Um verdadeiro gate state.

7. Consequências Geoeconômicas

No curto prazo, conflitos envolvendo o Golfo Pérsico produzem um impacto imediato sobre os mercados energéticos globais. A simples percepção de risco sobre o Estreito de Ormuz — por onde transita parcela significativa do comércio marítimo de petróleo — eleva o prêmio de risco embutido nos contratos futuros, pressiona os custos de seguro marítimo e aumenta o frete internacional. Mesmo sem a interrupção física prolongada, a expectativa de instabilidade é suficiente para provocar volatilidade nos preços do petróleo, do gás natural e de derivados de hidrocarbonetos, com reflexos diretos sobre inflação, política monetária e balança comercial de economias importadoras.

A dimensão logística também se torna sensível. Interferências em sistemas de navegação, ataques a navios-tanque, risco de lançamento de minas em rotas e eventual redirecionamento de fluxos comerciais aumentam o tempo de transporte e encarecem as cadeias globais de suprimento. Setores intensivos em energia e transporte — como petroquímica, fertilizantes, siderurgia e alimentos — tendem a absorver custos adicionais, com efeitos difusos sobre preços internacionais. Em cenários de incerteza elevada, observa-se ainda a valorização de ativos considerados refúgio, como o dólar norte-americano e o ouro, reforçando a centralidade do sistema financeiro ocidental em momentos de crise.

No médio prazo, o impacto dependerá da duração e do resultado estratégico do conflito. Um enfraquecimento duradouro do Irã pode reconfigurar os fluxos energéticos regionais, ampliar a margem de manobra de Israel e facilitar a expansão de acordos de normalização diplomática no Oriente Médio. A estabilização relativa do Golfo, sob maior controle de coalizões alinhadas aos Estados Unidos, tenderia a reduzir prêmios de risco, mas simultaneamente se consolidaria como um instrumento de influência estrutural sobre o abastecimento energético global, aumentando as vulnerabilidades chinesas, além de permitir o deslocamento de tropas dessa região para o Extremo Oriente. Por último, uma derrota do Irã, uma das chamadas “potências revisionistas”, também poderá causar danos à imagem de China e Rússia como pretensos líderes de uma nova ordem multipolar, principalmente se esses dois países não prestarem nenhum tipo de apoio material adicional ao aliado durante o conflito.

Em contrapartida, caso o regime iraniano sobreviva politicamente e consiga recompor capacidades, com apoio de China e Rússia, a narrativa de multipolaridade revisionista pode ganhar impulso. Nesse cenário, tenderiam a intensificar-se os esforços de diversificação de rotas energéticas, a aceleração de acordos bilaterais em moedas alternativas e o fortalecimento de corredores terrestres eurasiáticos como forma de reduzir vulnerabilidades marítimas. A dimensão geoeconômica do conflito, portanto, não se limita ao preço do petróleo: envolve a disputa pela arquitetura financeira, pela resiliência logística e pela capacidade de impor — ou mitigar — vulnerabilidades estruturais no sistema internacional. Por fim, resultados considerados negativos na guerra podem influir nas eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro de 2026.

O Brasil pode adquirir uma renovada importância geopolítica como espaço de competição por influência e por ativos estratégicos. (Divulgação/Mineira Jr)

8. Implicações Prospectivas e Reflexos para o Brasil

A redistribuição de poder decorrente do conflito no Oriente Médio tende a produzir impactos indiretos, porém relevantes, sobre o Hemisfério Ocidental. À medida que a rivalidade sistêmica entre Estados Unidos e China se intensifica, a disputa por acesso a recursos estratégicos, rotas logísticas e cadeias tecnológicas tende a se expandir para regiões consideradas estáveis ou periféricas à confrontação direta. Nesse contexto, a América do Sul pode adquirir uma renovada importância geopolítica, não como teatro de conflito, mas como espaço de competição por influência e por ativos estratégicos.

O Brasil, enquanto maior economia e principal ator político-militar da região, reúne atributos que o tornam relevante nessa equação: abundância de minerais críticos associados à transição energética e à indústria de alta tecnologia, capacidade de produção energética diversificada, disponibilidade de grande quantidade de água e biodiversidade, posição geográfica atlântica estratégica e inserção diplomática simultânea junto a potências ocidentais e emergentes. Em um cenário de maior polarização sistêmica, pressões por alinhamento podem se manifestar de forma indireta, especialmente em setores como infraestrutura digital, cadeias de semicondutores, mineração de terras raras e financiamento de projetos estratégicos.

Oscilações prolongadas no mercado energético global também possuem efeitos domésticos tangíveis. A volatilidade do petróleo influencia inflação, taxa de câmbio e política monetária, com impactos sobre crescimento econômico e investimento público. Adicionalmente, a valorização de ativos considerados seguros, como o dólar, tende a pressionar economias emergentes, afetando o fluxo de capitais e as condições de financiamento. Assim, mesmo distante geograficamente do teatro de operações, o Brasil permanece economicamente exposto às dinâmicas geoeconômicas do conflito.

Por outro lado, cenários de reconfiguração energética e logística podem abrir oportunidades estratégicas. A busca por diversificação de fornecedores e rotas pode favorecer exportadores estáveis e politicamente previsíveis. A consolidação de uma postura diplomática equilibrada e pragmática pode ampliar a margem de manobra brasileira em um ambiente de polarização crescente. Nesse sentido, a compreensão das implicações sistêmicas do conflito não constitui exercício meramente analítico, mas condição necessária para a formulação de políticas que preservem autonomia estratégica e capacidade de decisão soberana em um sistema internacional cada vez mais competitivo.

9. Considerações Finais

A guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã transcende o conflito regional imediato. À luz da tradição geopolítica clássica, ela se revela como uma manifestação localizada de uma disputa mais ampla pela configuração do espaço eurasiático e pelo equilíbrio sistêmico entre potências estabelecidas e atores revisionistas. O controle de gargalos energéticos, a influência sobre corredores continentais e a disputa pelo Rimland constituem dimensões interligadas dessa dinâmica estratégica.

Mais do que confronto circunstancial, o episódio atual integra um processo de reorganização do ambiente internacional, no qual energia, conectividade e vulnerabilidades estruturais assumem papel central. A capacidade de converter ganhos militares em resultados políticos duradouros será decisiva para determinar se a escalada produzirá uma estabilização relativa ou um aprofundamento da polarização sistêmica. Em qualquer hipótese, os efeitos geoeconômicos já observados indicam que o conflito impacta cadeias logísticas, mercados financeiros e percepções de risco em escala global.

Importa ressaltar, contudo, que o conflito permanece em desenvolvimento, exigindo acompanhamento contínuo de seus desdobramentos geopolíticos, estratégicos, operacionais, diplomáticos e econômicos. Pela natureza do conflito, dificilmente haverá uma vitória clássica ou uma rendição incondicional de uma das partes, fazendo com que possa simplesmente desescalar sua intensidade e reequilibrar-se, com ambos os lados declarando o sucesso na consecução dos objetivos políticos, mas dificilmente para o status quo ante de um Irã forte e buscando a liderança regional. O presente ensaio não pretende oferecer uma interpretação exaustiva, mas contribuir com o enquadramento conceitual que permita compreender sua inserção em uma lógica estrutural mais ampla. Outros ângulos analíticos — militares, jurídicos, energéticos ou tecnológicos — podem e devem ser explorados à medida que novas informações se consolidem.

Por fim, a leitura geopolítica aqui apresentada não exclui a centralidade dos interesses nacionais específicos de cada ator envolvido. As decisões de Estados Unidos, Israel, Irã, Rússia e China refletem percepções próprias de segurança, reputação e oportunidade estratégica, que condicionam tanto suas ações quanto as narrativas produzidas sobre o conflito. Compreender essa interação entre estrutura sistêmica e cálculo nacional é condição essencial para interpretar a evolução da crise e seus impactos sobre a ordem internacional contemporânea.

ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME). OBSERVATÓRIO MILITAR DA PRAIA VERMELHA (OMPV). O presente artigo contou com a valiosa colaboração do Coronel Eduardo Xavier Ferreira Glaser Migon, Prof. Dr. Coordenador do Laboratório de Ciências Militares / ECEME.

Bibliografia sugerida

BRZEZINSKI, Zbigniew. The grand chessboard: American primacy and its geostrategic imperatives. New York: Basic Books, 1997.

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