Kyiv, Ucrânia — O custo das garantias de segurança dos Estados Unidos para encerrar a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia tornou-se explícito esta semana: Kyiv deve ceder a totalidade da região de Donbas. Essa área representa aproximadamente 10% do território ucraniano e cerca de 15% do seu Produto Interno Bruto (PIB) antes da guerra. Segundo o Presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy, em comentários feitos à Reuters, os Estados Unidos solicitaram que a Ucrânia se retirasse de toda a região leste, incluindo áreas que o país manteve sob seu controle durante mais de catorze anos de ataques russos, como condição para finalizar as proteções de longo prazo que vêm sendo discutidas com Kyiv há meses.
Essa exigência surgiu após conversações bilaterais realizadas na Flórida no último fim de semana, envolvendo o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, e o conselheiro sênior Jared Kushner. Zelenskyy descreveu essas negociações como infrutíferas, não produzindo nenhum progresso real. Essa avaliação mais pessimista contrasta fortemente com sua declaração anterior, na qual afirmava que as garantias estavam “100% prontas”, indicando uma deterioração nas expectativas ou nas propostas apresentadas.
Apenas três semanas antes, o Presidente Zelenskyy havia tentado descartar a principal concessão em discussão nas negociações. Ele afirmou ao jornal Corriere della Sera que a Ucrânia “nunca abandonaria Donbas e os 200.000 ucranianos que lá vivem”, reforçando o compromisso de seu governo com a soberania territorial e a proteção de sua população na região.
A dinâmica entre diplomacia e o campo de batalha
Apesar dos esforços diplomáticos em curso, a intensidade dos combates no campo de batalha não diminuiu. A Ucrânia conseguiu recapturar mais território em uma contraofensiva em fevereiro do que em qualquer outro momento desde 2023, conforme dados do Institute for the Study of War. A Rússia respondeu a essa ofensiva com sua própria operação de primavera, lançando quase 1.000 ataques em um período de 24 horas, o que marcou o maior assalto registrado desde o início da guerra. Em retaliação, a Ucrânia contra-atacou no dia seguinte com cerca de 400 drones, resultando na paralisação de, no mínimo, 40% da capacidade de exportação de petróleo da Rússia, de acordo com a Reuters, demonstrando a escalada contínua do conflito em meio às negociações.
Oficiais russos anunciaram esta semana que as conversações foram suspensas, embora não tenha sido especificado quando – ou se – elas seriam retomadas. Essa incerteza quanto ao futuro das negociações adiciona uma camada de complexidade ao cenário geopolítico já volátil, deixando em aberto a possibilidade de que a resolução diplomática do conflito permaneça distante.
As implicações da concessão territorial e a proliferação nuclear
O Tenente-General aposentado Ben Hodges, ex-comandante do Exército dos EUA na Europa, expressou à Military Times que a exigência de que a Ucrânia ceda Donbas é “politicamente e moralmente inaceitável”. Em sua análise, a demanda por Donbas não se configura como uma mera moeda de troca nas negociações, mas sim como o cerne da proposta, funcionando como um teste decisivo para determinar se Washington estaria disposta a trocar território ucraniano por uma promessa de segurança que ele descreve como meramente “no papel”. Hodges criticou abertamente a proposta, afirmando que “estão pedindo a um país que foi invadido para entregar seu povo e sua terra, e estão chamando isso de paz”, sublinhando a percepção de que tal acordo seria uma rendição mascarada.
Para os especialistas, o acordo proposto não representa um caminho para a paz, mas sim uma exigência que a Ucrânia dificilmente poderá aceitar. A troca de Donbas por uma garantia indefinida, oferecida por um garantidor cuja credibilidade já se encontra fragilizada, levanta sérias preocupações. A percepção é que, enquanto a guerra do Irã esgota os armamentos necessários a Kyiv, a máquina de guerra russa é impulsionada, comprometendo a capacidade de apoio eficaz do garantidor. Nesse contexto, eles argumentam que, se a mensagem transmitida for a de que mesmo um país que voluntariamente renunciou ao seu arsenal nuclear pode ser compelido a ceder território em troca de um mero “talvez”, o desfecho não será a paz. Pelo contrário, isso resultaria em mais conflitos e levaria mais estados a concluir que a posse de armas nucleares é essencial para sua sobrevivência e segurança.
O Embaixador aposentado dos EUA, Ian Kelly, que serviu como embaixador na Geórgia durante a ocupação russa de 20% do país, observou que esse padrão não é novidade. Em declarações à Military Times, Kelly comparou a situação a cenários anteriores, afirmando: “Nós lhes demos o Javelin, mas depois dissemos: ‘A propósito, não os usem’”. Essa analogia ressalta a percepção de que a assistência militar pode vir acompanhada de restrições que limitam sua eficácia prática.
Kelly reiterou que a estrutura da proposta é familiar: uma concessão que Kyiv não pode fazer, combinada com uma promessa que não foi claramente definida, e oferecida por um patrocinador cuja capacidade de cumprimento já é questionada. Ele argumentou que, embora qualquer cessar-fogo assinado sob essas condições seria temporário, o precedente estabelecido seria permanente. Tal situação sinalizaria a Moscou quais tipos de exigências são eficazes e, ao mesmo tempo, mostraria aos parceiros dos EUA o valor real da proteção americana. As incertezas em torno da proposta são significativas e surgem rapidamente: o que, exatamente, Washington está oferecendo; o que a imposição dessa garantia exigiria sem a participação direta dos EUA; e o que aconteceria se a garantia falhasse em seu primeiro teste de credibilidade. De qualquer forma, a sombra projetada é a mesma: a dissuasão não desaparece, mas sim migra, alterando o equilíbrio estratégico global.
O miragem da garantia de segurança
A garantia de segurança que está no centro do acordo apresenta um problema fundamental: as partes envolvidas parecem não concordar sobre o seu significado ou se ela seria efetiva caso fosse testada. Essa falta de clareza e consenso mina a confiança na proposta e levanta dúvidas sobre sua viabilidade prática em um cenário de conflito.
Em fevereiro, Zelenskyy tentou utilizar uma das poucas concessões políticas concretas da Ucrânia: ele anunciou que Kyiv abandonaria sua aspiração de adesão à OTAN. Esse objetivo havia sido o pilar da política externa ucraniana pós-2019 e um dos pretextos frequentemente usados por Moscou para justificar sua guerra. Em troca, Washington, segundo Zelenskyy, ofereceu o que descreveu como garantias de segurança “semelhantes ao Artigo 5”.
Hodges apontou que a formulação dessas garantias era reveladora. O Artigo 5 da OTAN é um compromisso de tratado claro, com um gatilho de ação conhecido e uma aliança coesa por trás dele. No entanto, uma garantia “semelhante ao Artigo 5” não possui nenhuma dessas características. Ele categoricamente afirmou que “isso não é uma garantia de segurança”, mas sim “uma frase”, indicando a falta de substância e compromisso formal.
O Tenente-General aposentado classificou a promessa como “absolutamente vazia”. Hodges argumentou que, se a administração americana não consegue sequer aplicar sanções existentes – citando o exemplo da Índia, que importou mais petróleo russo do que antes da guerra – então “a administração não está falando sério”. Ele enfatizou a impossibilidade de conceber garantias de segurança baseadas em um “talvez”, destacando a necessidade de um compromisso firme e inquestionável. Hodges expressou que não tinha nenhuma confiança de que a atual administração trataria um ataque de drone russo à Ucrânia da mesma forma que trataria um ataque similar a Nova Iorque ou Washington.
Questionando a natureza e o limiar de uma possível resposta, Hodges indagou: “precisam ser 50 drones ou é um drone?” Ele concluiu, de forma contundente: “Não tenho nenhuma confiança de que eles realmente fariam isso”, sublinhando a profunda desconfiança na efetividade e na vontade política de cumprir tais garantias.
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