O desenvolvimento de porta-aviões antissubmarino da Marinha dos EUA entre 1955 e 1960

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O desenvolvimento de porta-aviões antissubmarino da Marinha dos EUA entre 1955 e 1960

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Alguns documentos históricos, mesmo após décadas de desclassificação, conservam a intensidade e o senso de urgência inerentes ao momento de sua elaboração. O capítulo intitulado “Development of the CVS Concept”, integrante de um estudo aprofundado da Marinha dos Estados Unidos sobre a guerra antissubmarino conduzida a partir de porta-aviões, é um exemplo notável. Este segmento do estudo detalha um período crucial de cinco anos, de 1955 a 1960, no qual os EUA vivenciaram uma crescente preocupação estratégica. O oceano Atlântico, tradicionalmente percebido como uma barreira natural de proteção, transformou-se em uma rota potencial para a União Soviética lançar ataques diretos contra o território continental americano, uma ameaça sem precedentes na história do país. Essa nova realidade impulsionou uma reestruturação profunda e duradoura na doutrina e composição da Marinha americana, cujas lições e implicações ainda ressoam nas estratégias de defesa contemporâneas.

A percepção da ameaça submarina soviética: do otimismo à urgência

Até meados de 1954, o entendimento americano acerca da capacidade da frota submarina soviética era, de acordo com o próprio documento histórico, predominantemente conjectural. As avaliações de inteligência careciam de dados concretos e precisos. Um estudo conduzido pelo escritório de análise de sistemas de armas aéreas (Op-05W) estimava que a Marinha Soviética possuía um contingente de 345 submarinos. No entanto, o mesmo estudo alertava que este número total era enganoso sob uma perspectiva estratégica. Na prática, apenas 47 dessas embarcações eram classificadas como do tipo Guppy americano, representando uma ameaça efetiva e imediata às vitais linhas de comunicação marítimas no Atlântico Norte. Essa avaliação inicial, embora revelasse um número considerável de submarinos, era permeada por um certo otimismo quanto à real capacidade ofensiva da frota soviética.

Contudo, esse otimismo inicial dissipou-se drasticamente em 1956. Um novo estudo de inteligência, divulgado em 13 de agosto daquele ano, apresentou uma análise alarmante: os soviéticos estavam construindo submarinos de longo alcance a uma velocidade muito superior às estimativas anteriores. Em janeiro de 1956, a crença era que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) possuía 421 submarinos. Projeções revisadas indicavam que esse número atingiria 646 até janeiro de 1958, com a maioria dessas novas embarcações sendo de longo alcance. Duas novas classes de submarinos em particular alimentavam a crescente apreensão estratégica: os submarinos da classe Whiskey, com 1.350 toneladas de deslocamento, e os da classe Zulu, com 2.500 toneladas. Ambas as classes representavam embarcações tecnologicamente avançadas, equipadas com snorkel, um sistema que lhes permitia operar submersas por períodos prolongados, reabastecendo ar para os motores diesel sem precisar emergir completamente. Essa capacidade lhes conferia a autonomia necessária para operar em praticamente toda a periferia dos Estados Unidos, ampliando significativamente o raio de ameaça.

A preocupação mais profunda, no entanto, transcendia o mero aumento numérico da frota. A inteligência destacava uma frase de impacto: “que os soviéticos terão submarinos de propulsão nuclear” nos anos seguintes. A iminência do “verdadeiro submarino”, aquele que jamais necessitaria emergir para reabastecer oxigênio ou recarregar baterias, graças à sua propulsão nuclear, transformaria radicalmente a guerra naval e a projeção de poder submarino. Essa tecnologia representava um salto quântico em capacidade de alcance, velocidade submersa e furtividade, tornando a detecção e o combate a esses submarinos um desafio sem precedentes para a Marinha dos EUA.

A escalada da ameaça: mísseis guiados e a resposta tecnológica

Diante da evolução do poderio submarino soviético, os planejadores estratégicos americanos hierarquizaram a ameaça em ordem decrescente de perigo. Em primeiro lugar, foram identificados os mísseis guiados lançados de submarinos; em segundo, as minas nucleares ou convencionais lançadas por submarinos; e, em terceiro, o ataque com torpedos contra navios mercantes ou militares. Dentre essas modalidades, o míssil era, de longe, o elemento mais difícil de combater devido à sua velocidade, alcance e capacidade destrutiva. Um projétil com características análogas ao míssil Regulus I americano – subsônico, com um alcance operacional de 250 milhas náuticas – se disparado a 150 milhas da costa de Nova York, teria a capacidade de atingir todas as principais cidades do litoral leste dos EUA, evidenciando a vulnerabilidade do território continental a um ataque submarino com mísseis.

Os soviéticos, de fato, estavam desenvolvendo exatamente essa capacidade. As conversões da classe Zulu V resultaram nos primeiros submarinos soviéticos capazes de lançar mísseis balísticos (SLBMs), carregando dois mísseis SS-N-4 verticalmente em sua vela (conning tower). Posteriormente, os submarinos da classe Whiskey Twin Cylinder foram adaptados para transportar dois mísseis de cruzeiro SS-N-3A. O desenvolvimento prosseguiu com a construção da classe Golf, embarcações projetadas especificamente para a missão de lançamento de mísseis, cada uma capaz de carregar três mísseis SS-N-4. Em 1960, quando os primeiros submarinos Golf foram avistados em operação no mar, o mesmo ano em que o primeiro submarino Polaris americano, o USS George Washington (SSBN 598), entrou em serviço, uma diferença tecnológica crucial separava as duas superpotências: os submarinos soviéticos ainda precisavam emergir para efetuar o disparo de seus mísseis, enquanto os submarinos americanos já possuíam a capacidade de lançamento submerso, conferindo-lhes uma vantagem estratégica significativa em furtividade e prontidão operacional.

A resposta estratégica da Marinha dos EUA: o sistema SOSUS

Apesar da crescente ameaça submarina soviética, a Marinha americana conseguiu realizar avanços extraordinários na área de detecção submarina. A solução mais promissora para o dilema da localização de submarinos inimigos surgiu sob a forma do sistema SOSUS – Sound Surveillance System (Sistema de Vigilância Sonora). Este sistema consistia em uma rede de matrizes passivas de hidrofones instaladas no fundo do oceano, concebidas para localizar submarinos soviéticos em operação, incluindo especificamente aqueles que transportavam mísseis. Até 1956, os planos já previam a instalação ou a construção de doze estações SOSUS no Atlântico e sete no Pacífico, demonstrando a escala e a importância estratégica atribuídas a essa nova capacidade.

Os resultados obtidos pelas estações experimentais localizadas nas Bermudas e em Eleuthera, nas Bahamas, foram notavelmente promissores. Essas estações demonstraram alcances de detecção de até 600 milhas náuticas, com uma média confiável de 300 a 400 milhas. Conforme observou o capitão D. E. MacIntosh em dezembro de 1954, os grupos Hunter-Killer, as unidades navais dedicadas à caça de submarinos, “não foram criados para vasculhar amplas áreas do oceano na esperança de descobrir um submarino inimigo”. Eles necessitavam de inteligência operacional precisa para direcionar seus esforços, e o SOSUS prometia exatamente isso: informações em tempo real sobre a localização de ameaças. Como resumiu o contra-almirante C. E. Weakley, enquanto na última guerra (Segunda Guerra Mundial) cada U-boat alemão emergia e transmitia sua posição quase diariamente, simplificando sua localização, o sistema de vigilância oceânica SOSUS agora substituía, em certa medida, esse tipo de inteligência. A obtenção de dados contra os submarinos soviéticos, muito mais furtivos e com menos necessidade de comunicação aberta, prometia ser uma tarefa consideravelmente mais difícil sem uma capacidade de escuta oceânica como o SOSUS. No entanto, a implementação e manutenção do SOSUS eram empreendimentos de altíssimo custo, o que gerava uma tensão constante entre a necessidade estratégica e as restrições orçamentárias.

A era dos porta-aviões antissubmarino e o sistema SOSUS representam um capítulo fundamental na história da Marinha dos EUA e na evolução da guerra naval na Guerra Fria. Para aprofundar seu conhecimento sobre estratégias de defesa, geopolítica e os mais recentes conflitos internacionais, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e mantenha-se sempre à frente da informação estratégica.

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Alguns documentos históricos, mesmo após décadas de desclassificação, conservam a intensidade e o senso de urgência inerentes ao momento de sua elaboração. O capítulo intitulado “Development of the CVS Concept”, integrante de um estudo aprofundado da Marinha dos Estados Unidos sobre a guerra antissubmarino conduzida a partir de porta-aviões, é um exemplo notável. Este segmento do estudo detalha um período crucial de cinco anos, de 1955 a 1960, no qual os EUA vivenciaram uma crescente preocupação estratégica. O oceano Atlântico, tradicionalmente percebido como uma barreira natural de proteção, transformou-se em uma rota potencial para a União Soviética lançar ataques diretos contra o território continental americano, uma ameaça sem precedentes na história do país. Essa nova realidade impulsionou uma reestruturação profunda e duradoura na doutrina e composição da Marinha americana, cujas lições e implicações ainda ressoam nas estratégias de defesa contemporâneas.

A percepção da ameaça submarina soviética: do otimismo à urgência

Até meados de 1954, o entendimento americano acerca da capacidade da frota submarina soviética era, de acordo com o próprio documento histórico, predominantemente conjectural. As avaliações de inteligência careciam de dados concretos e precisos. Um estudo conduzido pelo escritório de análise de sistemas de armas aéreas (Op-05W) estimava que a Marinha Soviética possuía um contingente de 345 submarinos. No entanto, o mesmo estudo alertava que este número total era enganoso sob uma perspectiva estratégica. Na prática, apenas 47 dessas embarcações eram classificadas como do tipo Guppy americano, representando uma ameaça efetiva e imediata às vitais linhas de comunicação marítimas no Atlântico Norte. Essa avaliação inicial, embora revelasse um número considerável de submarinos, era permeada por um certo otimismo quanto à real capacidade ofensiva da frota soviética.

Contudo, esse otimismo inicial dissipou-se drasticamente em 1956. Um novo estudo de inteligência, divulgado em 13 de agosto daquele ano, apresentou uma análise alarmante: os soviéticos estavam construindo submarinos de longo alcance a uma velocidade muito superior às estimativas anteriores. Em janeiro de 1956, a crença era que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) possuía 421 submarinos. Projeções revisadas indicavam que esse número atingiria 646 até janeiro de 1958, com a maioria dessas novas embarcações sendo de longo alcance. Duas novas classes de submarinos em particular alimentavam a crescente apreensão estratégica: os submarinos da classe Whiskey, com 1.350 toneladas de deslocamento, e os da classe Zulu, com 2.500 toneladas. Ambas as classes representavam embarcações tecnologicamente avançadas, equipadas com snorkel, um sistema que lhes permitia operar submersas por períodos prolongados, reabastecendo ar para os motores diesel sem precisar emergir completamente. Essa capacidade lhes conferia a autonomia necessária para operar em praticamente toda a periferia dos Estados Unidos, ampliando significativamente o raio de ameaça.

A preocupação mais profunda, no entanto, transcendia o mero aumento numérico da frota. A inteligência destacava uma frase de impacto: “que os soviéticos terão submarinos de propulsão nuclear” nos anos seguintes. A iminência do “verdadeiro submarino”, aquele que jamais necessitaria emergir para reabastecer oxigênio ou recarregar baterias, graças à sua propulsão nuclear, transformaria radicalmente a guerra naval e a projeção de poder submarino. Essa tecnologia representava um salto quântico em capacidade de alcance, velocidade submersa e furtividade, tornando a detecção e o combate a esses submarinos um desafio sem precedentes para a Marinha dos EUA.

A escalada da ameaça: mísseis guiados e a resposta tecnológica

Diante da evolução do poderio submarino soviético, os planejadores estratégicos americanos hierarquizaram a ameaça em ordem decrescente de perigo. Em primeiro lugar, foram identificados os mísseis guiados lançados de submarinos; em segundo, as minas nucleares ou convencionais lançadas por submarinos; e, em terceiro, o ataque com torpedos contra navios mercantes ou militares. Dentre essas modalidades, o míssil era, de longe, o elemento mais difícil de combater devido à sua velocidade, alcance e capacidade destrutiva. Um projétil com características análogas ao míssil Regulus I americano – subsônico, com um alcance operacional de 250 milhas náuticas – se disparado a 150 milhas da costa de Nova York, teria a capacidade de atingir todas as principais cidades do litoral leste dos EUA, evidenciando a vulnerabilidade do território continental a um ataque submarino com mísseis.

Os soviéticos, de fato, estavam desenvolvendo exatamente essa capacidade. As conversões da classe Zulu V resultaram nos primeiros submarinos soviéticos capazes de lançar mísseis balísticos (SLBMs), carregando dois mísseis SS-N-4 verticalmente em sua vela (conning tower). Posteriormente, os submarinos da classe Whiskey Twin Cylinder foram adaptados para transportar dois mísseis de cruzeiro SS-N-3A. O desenvolvimento prosseguiu com a construção da classe Golf, embarcações projetadas especificamente para a missão de lançamento de mísseis, cada uma capaz de carregar três mísseis SS-N-4. Em 1960, quando os primeiros submarinos Golf foram avistados em operação no mar, o mesmo ano em que o primeiro submarino Polaris americano, o USS George Washington (SSBN 598), entrou em serviço, uma diferença tecnológica crucial separava as duas superpotências: os submarinos soviéticos ainda precisavam emergir para efetuar o disparo de seus mísseis, enquanto os submarinos americanos já possuíam a capacidade de lançamento submerso, conferindo-lhes uma vantagem estratégica significativa em furtividade e prontidão operacional.

A resposta estratégica da Marinha dos EUA: o sistema SOSUS

Apesar da crescente ameaça submarina soviética, a Marinha americana conseguiu realizar avanços extraordinários na área de detecção submarina. A solução mais promissora para o dilema da localização de submarinos inimigos surgiu sob a forma do sistema SOSUS – Sound Surveillance System (Sistema de Vigilância Sonora). Este sistema consistia em uma rede de matrizes passivas de hidrofones instaladas no fundo do oceano, concebidas para localizar submarinos soviéticos em operação, incluindo especificamente aqueles que transportavam mísseis. Até 1956, os planos já previam a instalação ou a construção de doze estações SOSUS no Atlântico e sete no Pacífico, demonstrando a escala e a importância estratégica atribuídas a essa nova capacidade.

Os resultados obtidos pelas estações experimentais localizadas nas Bermudas e em Eleuthera, nas Bahamas, foram notavelmente promissores. Essas estações demonstraram alcances de detecção de até 600 milhas náuticas, com uma média confiável de 300 a 400 milhas. Conforme observou o capitão D. E. MacIntosh em dezembro de 1954, os grupos Hunter-Killer, as unidades navais dedicadas à caça de submarinos, “não foram criados para vasculhar amplas áreas do oceano na esperança de descobrir um submarino inimigo”. Eles necessitavam de inteligência operacional precisa para direcionar seus esforços, e o SOSUS prometia exatamente isso: informações em tempo real sobre a localização de ameaças. Como resumiu o contra-almirante C. E. Weakley, enquanto na última guerra (Segunda Guerra Mundial) cada U-boat alemão emergia e transmitia sua posição quase diariamente, simplificando sua localização, o sistema de vigilância oceânica SOSUS agora substituía, em certa medida, esse tipo de inteligência. A obtenção de dados contra os submarinos soviéticos, muito mais furtivos e com menos necessidade de comunicação aberta, prometia ser uma tarefa consideravelmente mais difícil sem uma capacidade de escuta oceânica como o SOSUS. No entanto, a implementação e manutenção do SOSUS eram empreendimentos de altíssimo custo, o que gerava uma tensão constante entre a necessidade estratégica e as restrições orçamentárias.

A era dos porta-aviões antissubmarino e o sistema SOSUS representam um capítulo fundamental na história da Marinha dos EUA e na evolução da guerra naval na Guerra Fria. Para aprofundar seu conhecimento sobre estratégias de defesa, geopolítica e os mais recentes conflitos internacionais, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e mantenha-se sempre à frente da informação estratégica.

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