O número de militares engajados em operações de manutenção da paz em escala global registrou seu nível mais baixo em pelo menos um quarto de século em 2025. Este declínio alarmante, conforme revelado por uma pesquisa detalhada do Stockholm International Peace Research Institute (Sipri), é um indicativo crítico de que a crescente tensão geopolítica e a crônica escassez de financiamento estão comprometendo seriamente a viabilidade e a eficácia das operações multilaterais de paz. A análise do instituto sueco aponta para um cenário de profunda fragilidade no sistema de segurança coletiva, com implicações diretas para a estabilidade global e a proteção de civis em zonas de conflito.
Declínio recorde e as raízes da crise de financiamento
Ao final de dezembro, o contingente de pessoal internacional mobilizado para operações de paz contabilizava 78.633 efetivos. Este número representa uma redução significativa de 17% em comparação com o ano anterior, evidenciando uma tendência de encolhimento contínuo que se acentuou nos últimos anos. Mais drasticamente, o Sipri aponta que o total de tropas é 49% menor do que o registrado no final de 2016. As principais causas para estas reduções drásticas no pessoal desdobrado são atribuídas diretamente a uma profunda crise de financiamento que afeta a Organização das Nações Unidas (ONU), impulsionada por contribuições atrasadas ou não pagas por parte de grandes doadores. Essa insuficiência orçamentária impeliu a ONU a efetuar cortes abruptos nos gastos com operações de paz, culminando na diminuição de efetivos em diversas missões cruciais ao redor do mundo.

A erosão do multilateralismo e os fatores geopolíticos
Jaïr van der Lijn, diretor do programa de operações de paz e gestão de conflitos do Sipri, expressou sérias preocupações sobre a trajetória atual. Segundo ele, a continuidade dessa tendência pode levar a um “enfraquecimento dramático da gestão multilateral de conflitos e ao quase completo afastamento de instituições como as Nações Unidas”. Ele descreve esta situação como uma “tempestade perfeita” de fatores financeiros, políticos e geopolíticos que ameaçam a estrutura da paz internacional. As consequências previsíveis, alerta Van der Lijn, incluem “mais conflitos, e estes conflitos provavelmente terão impactos ainda mais graves sobre os civis à medida que os estados abandonam normas há muito estabelecidas”. A gestão multilateral de conflitos e as operações de paz enfrentam, portanto, uma “pressão severa” advinda de diversas frentes.
O cenário geopolítico atual exibe uma complexa rede de desafios. A intervenção da Rússia em conflitos na África, por exemplo, é percebida como um fator que prejudica a governança de segurança regional. Paralelamente, os Estados Unidos, especialmente sob a administração do então Presidente Donald Trump em 2025, adotaram medidas que minam o multilateralismo, o que se traduziu em ações significativas de retirada, corte de financiamento ou contestação de vários órgãos da ONU. Isso incluiu a tentativa de encerrar operações de manutenção da paz da ONU, como a Força Interina da ONU no Líbano (Unifil), conforme detalhado no relatório do Sipri. Enquanto isso, a China e a Europa, embora potências globais, mostram-se relutantes ou incapazes de assumir a liderança necessária para sustentar o sistema multilateral. Em termos financeiros, o orçamento de manutenção da paz da ONU enfrentou um déficit de 2 bilhões de dólares no início de julho de 2025. O orçamento aprovado pela Assembleia Geral da ONU para o período de 2025-2026 foi drasticamente cortado para 5,38 bilhões de dólares, representando o valor mais baixo em pelo menos uma década, o que agrava ainda mais a capacidade operacional da organização.
O papel crescente de organizações regionais e seus desafios
Apesar de a ONU ter sido a principal organizadora de operações multinacionais de paz em 2025, respondendo por 18 operações e 67% do pessoal desdobrado, a maioria dos esforços de manutenção da paz foi liderada por organizações e alianças regionais, totalizando 34 operações. No entanto, Claudia Pfeifer Cruz, pesquisadora sênior no programa de operações de paz e gestão de conflitos, aponta uma limitação crítica: “Organizações regionais carecem de capacidades essenciais quando se trata de construção da paz bem-sucedida e integrada, enquanto também são atormentadas por déficits de financiamento e incapacidade de chegar a acordos”. Essa lacuna é crucial, pois, à medida que a gestão de conflitos liderada pela ONU se retrai, está deixando um vácuo crescente que os modelos alternativos atuais se mostram incapazes de preencher, intensificando a insegurança em regiões sensíveis. A distribuição geográfica do pessoal de manutenção da paz no ano passado revela que a África Subsaariana acolheu 70% dos efetivos, seguida pelo Oriente Médio e Norte da África com 15%, e a Europa com 12%. As duas maiores operações multilaterais de paz da ONU em 2025 foram a Missão Multidimensional Integrada de Estabilização das Nações Unidas na República Centro-Africana (Minusca) e a Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (Unmiss).
Curiosamente, os dez principais países contribuintes de pessoal militar e policial para operações multilaterais de paz são todas nações do Sul Global. As maiores contribuições de pessoal militar vieram principalmente da África Subsaariana ou do Sul da Ásia, lideradas por Uganda, com 4.657 tropas, seguida por Nepal, Bangladesh e Índia, cada um fornecendo mais de 4.000 soldados. A combinação da escassez de financiamento, um orçamento reduzido e a discordância sobre a decisão de encerrar a Unifil até o final de dezembro de 2026 indicam, para o Sipri, um “papel progressivamente menor para a ONU na gestão de conflitos”. O instituto observou ainda que os EUA exigiram o fim da Unifil apesar das “frequentes violações” de um acordo de cessar-fogo de 2024 entre Israel e Líbano. “As restrições financeiras claramente aceleraram as reduções de pessoal, mas não foram o único fator”, escreveu o instituto em seu relatório, destacando que “divisões geopolíticas e negociações cada vez mais difíceis no Conselho de Segurança tornaram mais difícil sustentar operações existentes ou construir apoio para novas”. Este panorama complexo sugere que a crise atual transcende a esfera econômica, adentrando o campo das intrincadas relações de poder e vontades políticas.
As revelações do Sipri sublinham uma era de incerteza para a manutenção da paz global. Aprofunde-se nesta e em outras análises críticas sobre defesa, geopolítica e segurança internacional. Siga a OP Magazine em nossas redes sociais para não perder nenhuma atualização e mantenha-se informado sobre os eventos que moldam o cenário mundial.










