O Exército Brasileiro (EB) busca finalizar a aquisição de 36 obuseiros autopropulsados ATMOS 155 mm. Esta iniciativa ocorre após o governo federal aprovar uma solução industrial envolvendo a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da israelense Elbit Systems, e a Avibras Aeroco, localizada em Jacareí (SP). A operação visa tanto a modernização bélica quanto a mitigação de sensibilidades geopolíticas, ao mesmo tempo em que fortalece a Base Industrial de Defesa (BID) nacional. A escolha do sistema ATMOS, reconhecido por sua mobilidade e poder de fogo, representa um avanço estratégico para a artilharia de campanha do Brasil, crucial em cenários operacionais contemporâneos.
Desafios geopolíticos e a solução estratégica nacional
A aquisição dos obuseiros ATMOS, tecnicamente validada, foi paralisada devido a um impasse geopolítico. As tensões decorrentes do conflito entre Israel e o Hamas, e as críticas do governo brasileiro às operações israelenses, geraram desgaste político. Para superar essa questão, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, obteve o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um arranjo que priorize a montagem e integração local do sistema no Brasil. Essa abordagem busca reduzir o atrito político inerente à compra de tecnologia de defesa israelense e fortalecer a Base Industrial de Defesa brasileira, alinhando a necessidade operacional com objetivos de desenvolvimento industrial.
As negociações envolvem a AEL Sistemas, a Elbit e a Avibras Aeroco, que reativou suas operações em Jacareí. A proposta central é utilizar a infraestrutura da Avibras para a montagem e integração dos obuseiros ATMOS, criando uma narrativa de maior participação nacional. Isso confere um caráter mais estratégico ao programa, menos suscetível a contestações políticas, e potencialmente gera empregos e capacitação técnica no país.

Modernização da artilharia do Exército e o papel da Avibras
O processo de aquisição começou em 2023 com uma licitação internacional para a Viatura Blindada de Combate Obuseiro Autopropulsado 155 mm Sobre Rodas (VBCOAP 155 mm SR). Em abril de 2024, a Elbit Systems Land Ltd., com o ATMOS 155 mm/52 calibres sobre chassi Tatra T-815 6×6, foi declarada vencedora, atendendo a todos os requisitos do Exército. O ATMOS representa um avanço fundamental para a modernização da Artilharia de Campanha, oferecendo alcance superior a 40 km, alta mobilidade tática, tempo reduzido para entrada e saída de posição e integração a sistemas de comando, controle e sensores externos, elementos cruciais para a guerra moderna.
A participação da Avibras Aeroco é vista como decisiva para destravar a compra. Sua relevância foi confirmada pela visita institucional do Comandante do Exército, Gen Ex Tomás Miguel Ribeiro Paiva, acompanhado do Alto Comando, ao complexo de Jacareí em 1º de julho. Este evento, que incluiu apresentações sobre o parque industrial e as atividades voltadas às demandas da Força Terrestre, ocorreu em um momento estratégico para a retomada das operações da empresa. A Avibras reiterou seu compromisso com o fortalecimento da indústria brasileira de defesa e a execução de projetos estratégicos, destacando a importância do sistema ASTROS e de seus subprogramas de artilharia para a modernização do Exército Brasileiro.
Industrialmente, a Avibras detém expertise na integração de veículos Tatra, utilizados em seu sistema ASTROS, o que favorece a integração local do ATMOS em Jacareí. Contudo, especialistas ressaltam que a expressão “100% nacional” deve ser interpretada com cautela: o ATMOS é de origem israelense, e a nacionalização, se concretizada, envolveria primariamente montagem, integração de subsistemas, suporte logístico e a potencial incorporação de fornecedores locais, e não a total concepção e fabricação de todos os componentes no Brasil.
Impacto orçamentário e projeções futuras da defesa
O contrato para os obuseiros ATMOS é estimado em cerca de R$ 800 milhões, embora avaliações públicas anteriores tenham citado valores próximos a US$ 210 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 1 bilhão. O modelo de aquisição inicial previa a entrega de dois exemplares para avaliação técnica e operacional. Após aprovação, o Exército contrataria os 34 sistemas restantes, com entregas anuais até 2034. Essa abordagem escalonada permite controle de qualidade e adaptação progressiva da Força.
Esta aquisição estratégica substituirá parte da artilharia rebocada mais antiga e ampliará a capacidade de apoio de fogo de longo alcance para brigadas mecanizadas e artilharias divisionárias. Em conflitos como a guerra na Ucrânia, sistemas autopropulsados sobre rodas demonstraram valor inestimável, combinando alcance, mobilidade, dispersão e rapidez de deslocamento após o disparo, características que conferem maior sobrevivência e eficácia em ambientes de alta intensidade.
Além dos obuseiros, as negociações podem incluir o sistema de lançadores múltiplos PULS (Precise and Universal Launching System) da Elbit, que complementaria a capacidade brasileira de foguetes e mísseis. Segundo a LRCA Defense Consulting, o PULS integra uma agenda mais ampla de cooperação industrial e operacional entre Elbit, AEL Sistemas e Avibras, indicando uma visão estratégica de longo prazo para a modernização das Forças Armadas Brasileiras. A eventual aproximação entre o ATMOS, o PULS e a indústria de defesa brasileira sugere um caminho para a integração de capacidades avançadas e a consolidação de parcerias estratégicas para o país.
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