Autoridades italianas confirmaram o desmantelamento de uma sofisticada rede de espionagem russa em Roma, cujo principal objetivo era coletar informações sensíveis sobre as capacidades de defesa aérea que nações ocidentais estão fornecendo à Ucrânia. A operação, que culminou na prisão de ex-oficiais de inteligência italianos e na expulsão de diplomatas russos, expõe a persistência e a complexidade das atividades de inteligência de Moscou na Europa em meio ao conflito na Ucrânia. O foco da inteligência russa parece ser a obtenção de dados detalhados sobre sistemas cruciais para a defesa ucraniana contra os ataques de mísseis e drones russos, visando identificar vulnerabilidades e, potencialmente, desenvolver contramedidas ou planejar ataques mais eficazes.
Detalhes da operação e os sistemas visados
A investigação italiana, que incluiu vigilância e escutas telefônicas, revelou a atuação de um suposto oficial da agência de inteligência militar russa GRU, identificado como Mikhail Astakov, que atuava como adido militar na embaixada russa em Roma. Astakov mantinha contato regular com Gavino Piras, de 59 anos, um ex-membro do serviço secreto italiano. Piras, que foi preso juntamente com outro ex-oficial de inteligência, é acusado de recrutar informantes dentro das Forças Armadas italianas, utilizando fundos fornecidos por Astakov. Documentos judiciais acessados pelo Defense News detalham que Astakov entregava a Piras listas de solicitações de informação de seus superiores em encontros secretos. As informações eram então entregues em cartões microSD, que Piras deixava em um esconderijo específico, um buraco em uma parede, para serem coletados pelo agente russo. Cada pacote de dados era remunerado em 4.000 euros (aproximadamente 4.600 dólares), evidenciando o valor estratégico atribuído a estas informações. Atualmente, cinco supostos informantes adicionais estão sob investigação.
As demandas de Astakov revelam um interesse direto nas capacidades de defesa aérea ocidentais. Entre os sistemas especificamente mencionados estavam o SAMP/T (também conhecido como Mamba), um sistema de defesa aérea de médio alcance franco-italiano que já foi fornecido a Kyiv, e o Michelangelo Dome, um sistema de defesa aérea de arquitetura aberta desenvolvido pela empresa italiana Leonardo. Este último é projetado para permitir que países parceiros integrem e tornem interoperáveis seus ativos de defesa existentes, e seu teste na Ucrânia estava programado para novembro. Piras também fazia referência a dados sobre as baterias SAMP/T já entregues e lidava com solicitações sobre o míssil de defesa aérea MBDA CAMM-ER, que a Ucrânia está em negociações para montar em seu território, indicando o interesse russo em toda a cadeia logística e tecnológica da defesa ucraniana.
O alcance estratégico da inteligência russa
A abrangência das solicitações de Astakov ia além da defesa aérea ucraniana. Uma nota entregue em setembro de 2025, por exemplo, pedia informações sobre a 'eficiência de ataques a estruturas nucleares iranianas, danos ao programa, perspectivas de reinício de trabalho', demonstrando um espectro mais amplo de preocupações estratégicas russas. Outros tópicos incluíam os planos da Itália para adquirir mísseis Storm Shadow, planos de rearmamento para a Itália, União Europeia e OTAN, 'prioridades e objetivos da defesa da UE' e 'ajuda para a Ucrânia construir mísseis de longo alcance'. O agente russo também manifestou curiosidade sobre um drone submarino da Leonardo que a empresa estaria testando em La Spezia, Itália, indicando o interesse em tecnologias navais avançadas.
As transcrições dos documentos judiciais também revelam outras informações compartilhadas por Piras. Ele informou a Astakov que a inteligência britânica, e não a italiana, estava auxiliando a Ucrânia em seus ataques de longo alcance contra instalações de petróleo russas. Piras também alegou que especialistas italianos estavam estudando o funcionamento do tanque russo T-90, observando que 'eles não entendem como a metralhadora montada nele funciona autonomamente. Se conseguirem roubar o segredo, eles o farão, então tome cuidado', disse ele a Astakov, revelando uma recíproca atividade de contrainteligência e a busca por avanços tecnológicos militares. Em abril de 2025, Astakov havia solicitado informações sobre a Avio, uma empresa italiana de propulsão, meses após sua parceria com o Exército dos EUA para fornecer motores de foguete de combustível sólido para mísseis.
Consequências e reações oficiais
Após a prisão de Gavino Piras na terça-feira, seu advogado negou que ele tivesse repassado qualquer informação classificada à Rússia. No entanto, a resposta do governo italiano foi imediata e enérgica. Na quinta-feira, o Ministério das Relações Exteriores italiano anunciou a expulsão de dois adidos militares russos que trabalhavam na embaixada russa em Roma, incluindo Mikhail Astakov. O ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, condenou veementemente a ação, declarando que 'Moscou continua a usar a guerra híbrida para atacar o Ocidente e a Itália'. Ele acrescentou que esta é uma 'interferência grave e inaceitável nas instituições italianas e na segurança nacional', sublinhando a seriedade da violação de soberania e a ameaça percebida à estabilidade regional e à segurança europeia.
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