Um relatório crítico divulgado pela Govini em 2024 lança um alerta substancial sobre a base industrial de defesa dos Estados Unidos, indicando que ela pode não estar adequadamente preparada para sustentar um conflito prolongado contra a República Popular da China. O documento aponta para a existência de vulnerabilidades sistêmicas e críticas que perpassam as esferas de produção, a robustez das cadeias de suprimentos e os níveis atuais dos estoques de munições, elementos essenciais para a resiliência estratégica.
Intitulado “Numbers Matter: Defense Acquisition, U.S. Production Capacity, and Deterring China”, o estudo fundamenta sua tese na premissa de que, nas dinâmicas das guerras modernas, a capacidade de produzir e repor armamentos em larga escala e com celeridade é um fator decisivo para a consecução da vitória. De acordo com os achados do relatório, a atual estrutura industrial americana representa uma “sombra encolhida” de sua capacidade histórica, caracterizando-se por estoques insuficientes e uma limitada habilidade para uma expansão rápida e eficaz em cenários de alta demanda.
Dependência estratégica da China
Um dos pontos mais sensíveis e estrategicamente preocupantes identificados pelo relatório é a crescente dependência dos Estados Unidos em relação a fornecedores chineses. Os dados compilados e apresentados no documento são notórios, revelando que o número de fornecedores oriundos da China nas cadeias de suprimento militar dos EUA quadruplicou significativamente no período compreendido entre 2005 e 2020. Essa tendência de aumento da dependência é percebida como um risco substancial à segurança nacional e à autonomia estratégica americana.
A gravidade dessa dependência é particularmente acentuada no vital setor de microeletrônica. Mais de 40% dos semicondutores que fundamentam e sustentam uma vasta gama de sistemas e infraestruturas críticas do Departamento de Defesa dos EUA dependem diretamente de fornecedores chineses, conforme análises baseadas na plataforma Ark.ai. A onipresença desses componentes em virtualmente todos os sistemas de armas modernos — desde o avançado bombardeiro furtivo B-2 Spirit até o estratégico míssil Patriot — sublinha a vulnerabilidade operacional e estratégica inerente a essa dependência.
Limitações na produção de munições e cenários de conflito
O conflito na Ucrânia serve como um exemplo empírico das limitações impostas pela atual capacidade industrial dos EUA. Nos primeiros três meses da guerra, Washington forneceu à Ucrânia aproximadamente 7.000 mísseis Javelin, o que corresponde a cerca de um terço do estoque total dos Estados Unidos. Contraditoriamente, a capacidade de produção anual desse mesmo míssil era de apenas 2.100 unidades, ilustrando uma taxa de consumo que supera drasticamente a capacidade de reposição.
Uma situação análoga é observada na produção de munições de artilharia. Enquanto as forças ucranianas chegavam a disparar até 7.000 projéteis por dia, a produção americana no início do conflito situava-se em apenas 14.000 a 15.000 por mês, com uma expansão gradual prevista que, ainda assim, não acompanhava o ritmo de consumo. Essa disparidade evidencia a dificuldade em manter um suprimento contínuo e volumoso em um cenário de combate intensivo.
Para um potencial e iminente conflito no estratégico teatro do Indo-Pacífico, o estudo da Govini alerta que os EUA precisariam, de forma crítica, de armas de longo alcance, tais como o LRASM, JASSM, NSM, Tomahawk e Harpoon. Embora os estoques dessas armas sejam classificados como confidenciais, o relatório os considera “grosseiramente inadequados” para confrontar a magnitude da ameaça que a China representa na região.
Simulações de cenários de combate, particularmente um que envolva uma invasão de Taiwan, são ainda mais alarmantes. Elas indicam que os principais estoques de mísseis americanos poderiam ser esgotados em um período tão curto quanto uma semana de combate intenso, um dado que ressalta a urgência de uma reavaliação e fortalecimento da capacidade de defesa.
Desvantagem naval crescente no domínio marítimo
No domínio marítimo, o relatório da Govini destaca uma crescente desvantagem quantitativa em favor da China. Pequim já detém uma marinha maior que a dos EUA, com uma frota composta por pelo menos 340 navios, e projeta alcançar um total de 440 embarcações até o ano de 2030. Essa expansão contrasta diretamente com a situação da Marinha dos Estados Unidos.
Enquanto a China avança, os Estados Unidos contam atualmente com uma frota de menos de 300 navios. Adicionalmente, o país dispõe de apenas cinco estaleiros capazes de construir grandes navios de guerra, e todos eles operam próximos de seu limite de capacidade. Em notável contraste, a China possui uma robusta infraestrutura com 17 estaleiros militares e, de forma ainda mais significativa, domina o setor de construção naval comercial global, o que lhe confere uma vantagem estratégica substancial em termos de capacidade de produção e manutenção naval.
Recomendações estratégicas para a capacidade dissuasória
Para reverter o atual cenário e restaurar a capacidade dissuasória americana, o relatório propõe uma série de medidas estratégicas e concretas. Entre elas, destacam-se a necessidade de multiplicar por cinco as compras de mísseis de médio e longo alcance, um passo crucial para atender às demandas de um potencial conflito no Indo-Pacífico.
Outras recomendações incluem dobrar o financiamento anual destinado à aquisição de navios de superfície e submarinos, visando a mitigar a desvantagem naval crescente em relação à China. Propõe-se também a criação de um fundo estratégico de US$ 10 bilhões para estocar componentes críticos, o que fortaleceria as cadeias de suprimentos e reduziria a dependência de fornecedores externos. Por fim, o relatório sugere a ampliação do uso de software e inteligência artificial nos processos de aquisição de defesa, buscando otimizar a eficiência e a capacidade de resposta. Segundo os autores, sem uma expansão significativa da base industrial e dos estoques de armamentos, a capacidade dos Estados Unidos de dissuadir a China — especialmente no Indo-Pacífico — pode continuar a se deteriorar, com implicações graves para a segurança global.
A análise aprofundada da Govini revela uma urgência estratégica para os Estados Unidos reavaliarem e fortalecerem sua base industrial de defesa. As fragilidades expostas, especialmente frente ao avanço da China, exigem uma resposta coordenada e decisiva para garantir a manutenção da dissuasão e a segurança nacional. Para mais análises exclusivas e detalhadas sobre defesa, geopolítica e segurança internacional, siga as redes sociais da OP Magazine e mantenha-se informado sobre os desdobramentos mais relevantes.










