Uma delegação composta por mais de vinte e cinco empresas de defesa da Ucrânia esteve em Paris esta semana, com o objetivo estratégico de se reunir com seus congêneres franceses. A iniciativa visa lançar as bases para acordos de coprodução em território francês e, assim, intensificar a integração da indústria de defesa ucraniana com a base industrial europeia. Este movimento é crucial para a Ucrânia, que busca fortalecer suas capacidades defensivas e diversificar parcerias estratégicas em meio ao conflito contínuo com a Rússia.
Apesar do potencial de sinergia e da urgência do cenário, as empresas de defesa francesas têm demonstrado uma abordagem cautelosa na criação de joint ventures com parceiros ucranianos. Ihor Fedirko, diretor executivo do Conselho Ucraniano da Indústria de Defesa, apontou que, até o momento, apenas uma joint venture foi estabelecida. Este número contrasta marcadamente com as onze parcerias já firmadas pela Alemanha e as cinco pela Espanha. Fedirko compartilhou esses dados durante uma coletiva de imprensa realizada na última quarta-feira, após um dia de encontros organizados em conjunto com o GICAT, o grupo que representa a indústria de defesa terrestre da França.
A expertise ucraniana em drones e a busca por integração
Nos quatro anos de conflito contra a invasão russa, a Ucrânia desenvolveu uma expertise em guerra com drones que é considerada inigualável na Europa. Essa experiência não se limita apenas ao uso em campo de batalha, mas abrange a criação de novos casos de uso e doutrinas operacionais, além de ter escalado a produção de drones para milhões de unidades anualmente. Simultaneamente, a França se destaca por abrigar algumas das maiores empresas de defesa da Europa e por ser o segundo maior exportador de armas do mundo, o que a posiciona como um parceiro industrial estratégico vital para a Ucrânia neste contexto.
Fedirko sublinhou a necessidade de estabelecer uma “estratégia ganha-ganha” com a indústria de defesa francesa, focando na identificação dos melhores parceiros para colaboração. A intenção ucraniana é aprofundar o conhecimento sobre os processos de fabricação, a cultura de produção e os padrões de qualidade franceses, visando beneficiar e modernizar sua própria indústria. A delegação ucraniana era composta por 27 empresas, em sua maioria especializadas na fabricação de drones, enquanto quase 60 empresas francesas participaram do dia de encontros com o objetivo de identificar potenciais colaborações. Visitas de acompanhamento a fabricantes franceses estavam planejadas para os dias seguintes, intensificando as discussões iniciadas.
Sinergias estratégicas e o futuro da coprodução
Oleksandr Kamyshin, assessor do presidente Volodymyr Zelenskyy e ex-ministro das Indústrias Estratégicas, enfatizou que a coprodução de produtos de defesa ucranianos em território de parceiros estratégicos resulta em um fluxo adicional de equipamentos diretamente para a linha de frente. Ele argumentou que a aquisição de kits coproduzidos por governos aliados, para posterior doação à Ucrânia, representa a maneira “mais rápida e melhor” de apoiar as forças ucranianas, otimizando a logística e a disponibilidade de material essencial em tempo de guerra.
A indústria ucraniana, historicamente integrada “ao Leste” devido a laços da era soviética, busca agora uma integração mais profunda com o arcabouço de defesa europeu. Kamyshin destacou que a própria indústria de defesa da Europa se fortalecerá significativamente ao incorporar as capacidades e as “lições aprendidas” desenvolvidas em condições reais de combate na Ucrânia. Segundo ele, a Ucrânia oferece um modelo de colaboração “definitivamente benéfico” para a França, em termos de desenvolvimento industrial, impulso econômico e segurança estratégica mútua.
Ihor Fedirko realçou a singularidade da indústria de defesa francesa, ativa em 'deep tech' e conhecida por sua independência e força nos setores aeroespacial e de armamento convencional. Enquanto a França domina a produção de mísseis, radares e equipamentos de visão noturna, a Ucrânia contribui com seu vasto conhecimento, tecnologias e inovações no campo dos drones, forjados sob condições de combate. A expectativa é que a combinação da experiência e expertise ucraniana com as tecnologias avançadas e padrões de produção franceses possa “estabelecer algo bastante novo” e eficaz. Clément Requier, diretor de exportação e parcerias europeias do GICAT, previu que empresas francesas podem anunciar uma ou duas joint ventures de drones com parceiros ucranianos nas próximas semanas, adicionando-se a formatos de colaboração já existentes.
Inteligência artificial e a perspectiva de uma parceria estratégica
A Ucrânia demonstra uma abertura industrial inédita, disposta a compartilhar o que aprendeu a produzir, visando a integração com a indústria europeia. Oleksandr Kamyshin observou um forte interesse por parte da França nesta cooperação. A reunião de quarta-feira marcou o quarto encontro entre as indústrias de defesa dos dois países desde julho de 2023 e o primeiro sediado em solo francês. Requier salientou que a França, que frequentemente se concentra na entrega de soluções autônomas, deveria também considerar ser uma fornecedora de componentes e equipamentos críticos para seus parceiros, promovendo uma integração mais profunda nas cadeias de suprimentos europeias.
Com mais de mil empresas ativas no setor de defesa, majoritariamente fabricantes de sistemas não tripulados, a Ucrânia possui uma base industrial robusta. Kamyshin destacou a eficácia dos drones ucranianos no afundamento de navios e submarinos russos, fazendo uma alusão à conhecida frase de que “drones de Lego funcionam bem”. Essa observação sublinha a inovação e adaptabilidade das soluções ucranianas, contrastando com percepções anteriores de desdém por tecnologias menos convencionais.
A França possui vasta expertise em inteligência artificial, área na qual a Ucrânia demonstra grande interesse em colaborar e desenvolver projetos conjuntos. Kamyshin reiterou que a Ucrânia vê a França como um parceiro estratégico, focando a colaboração e a coprodução em território francês, em detrimento de uma mera relação de vendas. Em março, a Ucrânia já havia levantado a possibilidade de compartilhar dados de campo de batalha com parceiros para treinar modelos de IA. Kamyshin confirmou que a Ucrânia estaria disposta a compartilhar esses conjuntos de dados com países com os quais iniciasse coprodução, sem se limitar ao território ucraniano, com um anúncio sobre parcerias previsto para 13 de abril.
A visita dos fabricantes de drones ucranianos a Paris e a busca por acordos de coprodução representam um pilar fundamental na estratégia da Ucrânia para fortalecer sua base industrial de defesa e consolidar sua integração com a Europa. Esta colaboração promissora não só amplificará as capacidades defensivas ucranianas, mas também enriquecerá a inovação e a resiliência de toda a indústria de defesa europeia. A sinergia entre a experiência de combate real da Ucrânia e a capacidade tecnológica avançada da França tem o potencial de redefinir o futuro da segurança continental. Para análises aprofundadas sobre defesa, geopolítica e conflitos internacionais, siga a OP Magazine em nossas redes sociais.










