Crise no Mar Vermelho reforçou a necessidade de estar pronto no mar, afirmam chefes de marinhas ocidentais

|

Crise no Mar Vermelho reforçou a necessidade de estar pronto no mar, afirmam chefes de marinhas ocidentais

|

Os recentes ataques assimétricos direcionados a navios comerciais e militares que transitam pela estratégica região do Mar Vermelho serviram como um contundente lembrete às marinhas ocidentais sobre a imperativa e crescente necessidade de manter uma prontidão operacional constante para neutralizar qualquer ameaça marítima, a qualquer momento. Essa avaliação foi partilhada por proeminentes chefes navais durante a recente Paris Naval Conference, um fórum de discussão crucial sobre os desafios e o futuro das operações marítimas globais.

Contexto da crise no Mar Vermelho e a ameaça assimétrica

As deliberações dos chefes navais na conferência, um evento de alta relevância co-organizado pela Marinha Francesa e pelo IFRI (Instituto Francês de Relações Internacionais), salientaram uma preocupante realidade contemporânea: ameaças militares de alta capacidade e sofisticação podem agora emergir com maior facilidade e celeridade de atores assimétricos. Essa mudança de paradigma é uma consequência direta da ampla disponibilidade de tecnologias avançadas, um fenômeno ilustrado de forma dramática pelos incidentes no Mar Vermelho.

A partir de outubro de 2023, como uma ramificação do conflito entre Israel e Hamas que irrompeu na região de Gaza naquele mês, os rebeldes Ansar Allah (Houthis), com base no sul e oeste do Iêmen, iniciaram uma campanha agressiva. Esta consistiu no lançamento de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e ataques com sistemas não tripulados contra o tráfego marítimo comercial e naval que utilizava o vital corredor marítimo do Mar Vermelho, do estreito de Bab al-Mandeb e do Golfo de Áden. A intensidade dessa campanha atingiu seu auge em 2024, e embora tenha diminuído em volume, persiste até os dias atuais, representando um risco contínuo à navegação internacional.

A resposta naval ocidental e operações multinacionais

Em resposta a essa escalada de agressões, as marinhas ocidentais mobilizaram rapidamente navios de superfície para a região. Duas operações navais multinacionais de grande porte foram estabelecidas para proteger a navegação. A primeira foi a Operação Prosperidade Guardiã, liderada pelos EUA, focada na defesa do comércio marítimo. A segunda, a Operação Aspides, foi conduzida pela União Europeia (UE), com um mandato semelhante. Adicionalmente, algumas marinhas optaram por destacamentos independentes, evidenciando a diversidade de abordagens na resposta à crise. Um exemplo ilustrativo da prontidão operacional é o trabalho de um marinheiro da US Navy a bordo do destróier da classe Arleigh Burke, USS Laboon, monitorando a atividade aérea enquanto a embarcação estava em missão na Operação Prosperidade Guardiã no Mar Vermelho. Entre as lições aprendidas nessas operações, destacou-se o uso de especialistas em radar em terra para 'despoluir' os Quadros Operacionais Comuns (COPs) a bordo, o que significativamente aprimorou a capacidade dos marinheiros de identificar e engajar ameaças iminentes.

Lições estratégicas da prontidão contínua

A intensidade e a natureza da ameaça, tanto em termos de capacidade dos adversários quanto de requisitos operacionais, configuraram uma lição fundamental para as marinhas presentes. O almirante Daryl Caudle, Chefe de Operações Navais (CNO) da Marinha dos EUA (USN), ressaltou em uma conferência de imprensa no evento a natureza compacta e volátil do Mar Vermelho: “É um tiro curto. O Mar Vermelho é pequeno. Você tem que estar 'ligado' naquele corpo d’água.” Esta declaração sublinha a necessidade de vigilância constante e capacidade de resposta imediata em um ambiente tão restrito.

O comandante da Marinha Real Holandesa (RNLN), vice-almirante Harold Liebregs, reforçou essa perspectiva. Ele explicou à mídia que, em décadas anteriores, as marinhas que se deslocavam para 'guerras de escolha' – intervenções expedicionárias em regiões distantes – normalmente teriam tempo para se preparar para operações de alta intensidade durante o próprio deslocamento, operando em outros momentos com níveis de prontidão mais flexíveis. “Não estávamos operando nossos navios com o desempenho máximo. Estávamos contentes em aceitar deficiências – mas você não pode mais aceitá-las”, afirmou o vice-almirante Liebregs. Navios que navegavam pelo Mar Vermelho não previam ser atacados. “Você não esperava – mas de repente está sob ataque, sob ameaça de mísseis balísticos e outras coisas”, continuou. A conclusão do vice-almirante Liebregs é incisiva: “Portanto, não há diferença entre guerras de escolha e guerras de necessidade [agora]: temos que estar prontos o tempo todo. Penso que essa é a principal lição”.

Desafios operacionais e a evolução da ameaça

O almirante Caudle detalhou uma série de outras lições cruciais extraídas da crise de navegação no Mar Vermelho. Entre elas, destacam-se a importância do entendimento e do compartilhamento mútuo dos Quadros Operacionais Comuns (COPs) entre as marinhas aliadas, o que facilita uma visão integrada do cenário de ameaças. A utilização de especialistas em radar baseados em terra para 'despoluir' e 'limpar' os COPs a bordo foi essencial para aprimorar a capacidade de resposta. A necessidade de neutralizar uma vasta gama de ameaças, desde mísseis balísticos até veículos aéreos não tripulados de ataque unidirecional (OWA UAVs), enfatizou a complexidade da defesa multicamadas. Além disso, as operações de logística no mar, incluindo o rearmamento em um corpo d'água estreito e congestionado, apresentaram desafios significativos de coordenação e execução. Em nível nacional, a construção de ciclos de aprendizado contínuos entre os navios, os quartéis-generais de comando de frota e os centros de desenvolvimento de guerra em terra foi identificada como vital. Em nível multinacional, compreender como aprimorar operações combinadas para perseguir um objetivo comum, enquanto algumas marinhas e navios executam tarefas de escolta e outros conduzem missões de ataque, tornou-se uma prioridade.

Colaboração e aprendizado em um cenário de risco permanente

Com base em sua vasta experiência, que inclui inúmeras operações nas áreas de responsabilidade (AORs) da 5ª Frota e da 6ª Frota dos EUA, o almirante Caudle afirmou: “Não sei se consigo apontar um momento em que a colaboração e o ciclo de aprendizado foram maiores do que [aqueles entre] as forças que se uniram no Mar Vermelho.” Essa colaboração e o processo de aprendizado foram qualificados como de “classe mundial” pelo CNO, evidenciando o alto nível de interoperabilidade e adaptação alcançado pelas forças aliadas em um cenário de combate real e dinâmico. Essa aprendizagem permanece fundamental, especialmente diante da continuidade da ameaça. O almirante Nicolas Vaujour, Chefe do Estado-Maior da Marinha Francesa, informou à imprensa que a ameaça Houthi persiste. Ele destacou o plano da UE de estender a Operação Aspides por mais um ano, até fevereiro de 2027, um plano que foi confirmado em 23 de fevereiro, sublinhando a natureza duradoura do risco. Durante a sessão plenária da conferência, os chefes reunidos discutiram exaustivamente o risco residual no Mar Vermelho e outras lições aprendidas com as operações em andamento.

Para se manter atualizado sobre as análises mais aprofundadas em defesa, geopolítica e segurança, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e acompanhe nossas publicações exclusivas. Sua fonte de informação estratégica está aqui!

Share this content on your social networks:

Translate your content for a better experience:

Os recentes ataques assimétricos direcionados a navios comerciais e militares que transitam pela estratégica região do Mar Vermelho serviram como um contundente lembrete às marinhas ocidentais sobre a imperativa e crescente necessidade de manter uma prontidão operacional constante para neutralizar qualquer ameaça marítima, a qualquer momento. Essa avaliação foi partilhada por proeminentes chefes navais durante a recente Paris Naval Conference, um fórum de discussão crucial sobre os desafios e o futuro das operações marítimas globais.

Contexto da crise no Mar Vermelho e a ameaça assimétrica

As deliberações dos chefes navais na conferência, um evento de alta relevância co-organizado pela Marinha Francesa e pelo IFRI (Instituto Francês de Relações Internacionais), salientaram uma preocupante realidade contemporânea: ameaças militares de alta capacidade e sofisticação podem agora emergir com maior facilidade e celeridade de atores assimétricos. Essa mudança de paradigma é uma consequência direta da ampla disponibilidade de tecnologias avançadas, um fenômeno ilustrado de forma dramática pelos incidentes no Mar Vermelho.

A partir de outubro de 2023, como uma ramificação do conflito entre Israel e Hamas que irrompeu na região de Gaza naquele mês, os rebeldes Ansar Allah (Houthis), com base no sul e oeste do Iêmen, iniciaram uma campanha agressiva. Esta consistiu no lançamento de mísseis balísticos, mísseis de cruzeiro e ataques com sistemas não tripulados contra o tráfego marítimo comercial e naval que utilizava o vital corredor marítimo do Mar Vermelho, do estreito de Bab al-Mandeb e do Golfo de Áden. A intensidade dessa campanha atingiu seu auge em 2024, e embora tenha diminuído em volume, persiste até os dias atuais, representando um risco contínuo à navegação internacional.

A resposta naval ocidental e operações multinacionais

Em resposta a essa escalada de agressões, as marinhas ocidentais mobilizaram rapidamente navios de superfície para a região. Duas operações navais multinacionais de grande porte foram estabelecidas para proteger a navegação. A primeira foi a Operação Prosperidade Guardiã, liderada pelos EUA, focada na defesa do comércio marítimo. A segunda, a Operação Aspides, foi conduzida pela União Europeia (UE), com um mandato semelhante. Adicionalmente, algumas marinhas optaram por destacamentos independentes, evidenciando a diversidade de abordagens na resposta à crise. Um exemplo ilustrativo da prontidão operacional é o trabalho de um marinheiro da US Navy a bordo do destróier da classe Arleigh Burke, USS Laboon, monitorando a atividade aérea enquanto a embarcação estava em missão na Operação Prosperidade Guardiã no Mar Vermelho. Entre as lições aprendidas nessas operações, destacou-se o uso de especialistas em radar em terra para 'despoluir' os Quadros Operacionais Comuns (COPs) a bordo, o que significativamente aprimorou a capacidade dos marinheiros de identificar e engajar ameaças iminentes.

Lições estratégicas da prontidão contínua

A intensidade e a natureza da ameaça, tanto em termos de capacidade dos adversários quanto de requisitos operacionais, configuraram uma lição fundamental para as marinhas presentes. O almirante Daryl Caudle, Chefe de Operações Navais (CNO) da Marinha dos EUA (USN), ressaltou em uma conferência de imprensa no evento a natureza compacta e volátil do Mar Vermelho: “É um tiro curto. O Mar Vermelho é pequeno. Você tem que estar 'ligado' naquele corpo d’água.” Esta declaração sublinha a necessidade de vigilância constante e capacidade de resposta imediata em um ambiente tão restrito.

O comandante da Marinha Real Holandesa (RNLN), vice-almirante Harold Liebregs, reforçou essa perspectiva. Ele explicou à mídia que, em décadas anteriores, as marinhas que se deslocavam para 'guerras de escolha' – intervenções expedicionárias em regiões distantes – normalmente teriam tempo para se preparar para operações de alta intensidade durante o próprio deslocamento, operando em outros momentos com níveis de prontidão mais flexíveis. “Não estávamos operando nossos navios com o desempenho máximo. Estávamos contentes em aceitar deficiências – mas você não pode mais aceitá-las”, afirmou o vice-almirante Liebregs. Navios que navegavam pelo Mar Vermelho não previam ser atacados. “Você não esperava – mas de repente está sob ataque, sob ameaça de mísseis balísticos e outras coisas”, continuou. A conclusão do vice-almirante Liebregs é incisiva: “Portanto, não há diferença entre guerras de escolha e guerras de necessidade [agora]: temos que estar prontos o tempo todo. Penso que essa é a principal lição”.

Desafios operacionais e a evolução da ameaça

O almirante Caudle detalhou uma série de outras lições cruciais extraídas da crise de navegação no Mar Vermelho. Entre elas, destacam-se a importância do entendimento e do compartilhamento mútuo dos Quadros Operacionais Comuns (COPs) entre as marinhas aliadas, o que facilita uma visão integrada do cenário de ameaças. A utilização de especialistas em radar baseados em terra para 'despoluir' e 'limpar' os COPs a bordo foi essencial para aprimorar a capacidade de resposta. A necessidade de neutralizar uma vasta gama de ameaças, desde mísseis balísticos até veículos aéreos não tripulados de ataque unidirecional (OWA UAVs), enfatizou a complexidade da defesa multicamadas. Além disso, as operações de logística no mar, incluindo o rearmamento em um corpo d'água estreito e congestionado, apresentaram desafios significativos de coordenação e execução. Em nível nacional, a construção de ciclos de aprendizado contínuos entre os navios, os quartéis-generais de comando de frota e os centros de desenvolvimento de guerra em terra foi identificada como vital. Em nível multinacional, compreender como aprimorar operações combinadas para perseguir um objetivo comum, enquanto algumas marinhas e navios executam tarefas de escolta e outros conduzem missões de ataque, tornou-se uma prioridade.

Colaboração e aprendizado em um cenário de risco permanente

Com base em sua vasta experiência, que inclui inúmeras operações nas áreas de responsabilidade (AORs) da 5ª Frota e da 6ª Frota dos EUA, o almirante Caudle afirmou: “Não sei se consigo apontar um momento em que a colaboração e o ciclo de aprendizado foram maiores do que [aqueles entre] as forças que se uniram no Mar Vermelho.” Essa colaboração e o processo de aprendizado foram qualificados como de “classe mundial” pelo CNO, evidenciando o alto nível de interoperabilidade e adaptação alcançado pelas forças aliadas em um cenário de combate real e dinâmico. Essa aprendizagem permanece fundamental, especialmente diante da continuidade da ameaça. O almirante Nicolas Vaujour, Chefe do Estado-Maior da Marinha Francesa, informou à imprensa que a ameaça Houthi persiste. Ele destacou o plano da UE de estender a Operação Aspides por mais um ano, até fevereiro de 2027, um plano que foi confirmado em 23 de fevereiro, sublinhando a natureza duradoura do risco. Durante a sessão plenária da conferência, os chefes reunidos discutiram exaustivamente o risco residual no Mar Vermelho e outras lições aprendidas com as operações em andamento.

Para se manter atualizado sobre as análises mais aprofundadas em defesa, geopolítica e segurança, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e acompanhe nossas publicações exclusivas. Sua fonte de informação estratégica está aqui!

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

PUBLICIDADE

últimas notícias

PARCERIA