Em Setermoen, Noruega, as nações árticas estão diligentemente avaliando a potencial aplicação de drones com visão em primeira pessoa (FPV) nos complexos e desafiadores cenários de batalha do Ártico. Esta iniciativa surge como uma resposta direta às lições aprendidas e ao sucesso operacional notável dessas tecnologias no conflito em curso na Ucrânia. O interesse demonstra uma clara intenção de adaptar capacidades comprovadas a novos ambientes estratégicos, caracterizados por condições climáticas extremas e vastas extensões geográficas.
Durante o exercício Cold Response 2026 da OTAN, aproximadamente 240 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico, dois operadores de uma unidade de reconhecimento de longo alcance das Forças Armadas Norueguesas demonstraram a eficácia da camuflagem profunda, permanecendo quase imperceptíveis em sua posição estratégica em meio à floresta densa. A única evidência de sua presença era um pequeno drone FPV cinza, visivelmente contrastante com seus uniformes de camuflagem totalmente brancos, deitado sobre a neve. Este sistema específico, o Skydio X10D de fabricação americana, já é empregado pelas forças ucranianas, o que ressalta a relevância da experiência de combate naquele teatro de operações. Em julho, o Ministério da Defesa norueguês havia concedido ao fabricante dos EUA um contrato no valor de 9,4 milhões de dólares, evidenciando o compromisso com a aquisição e integração dessa tecnologia.
Adaptação norueguesa e as lições de conflitos recentes
Um oficial norueguês, que preferiu manter o anonimato devido à sensibilidade inerente às operações da unidade, enfatizou o esforço contínuo da Noruega em incorporar as táticas e tecnologias observadas na Ucrânia. Segundo ele, o foco principal é intensificar o uso de drones FPV e de sistemas de coleta de inteligência, adaptando-os rigorosamente ao ambiente operacional específico da região ártica. Esta adaptação não se limita apenas à técnica, mas também à estratégia, buscando maximizar a eficácia em condições ambientais severas e geografias complexas.
Durante o exercício da OTAN, que se estendeu de 9 a 19 de março, o oficial informou que há um interesse crescente em integrar os drones FPV em operações de alto valor, visando alvos estratégicos. Embora alguns operadores já tenham iniciado o treinamento em simuladores para o manuseio desses equipamentos, essa é uma inovação relativamente recente e ainda não foi formalmente incorporada aos programas de treinamento padronizados das forças norueguesas. Essa fase inicial de simulação é crucial para o desenvolvimento de habilidades e táticas antes da plena implementação operacional.
Testes e desafios no ambiente ártico
Outro modelo de drone foi exibido pelo Centro de Guerra Terrestre do Exército Norueguês, instituição responsável pelo treinamento, desenvolvimento de sistemas de armas, e pelos testes de drones e sensores. Um oficial do Centro, também piloto do Skydio X10D, explicou que, no contexto do Cold Response, quase todas as unidades do Exército Norueguês foram equipadas com essa capacidade para ensaiar manobras de coleta de inteligência. Embora o desempenho geral tenha sido considerado relativamente bom, o sistema enfrentou algumas das dificuldades inerentes à maioria dos drones em condições adversas, típicas do Ártico norueguês. Um dos obstáculos mais significativos é a vida útil da bateria, que degrada de forma acentuada em ambientes de baixa temperatura, limitando a autonomia e a duração das missões.
Adicionalmente, um drone FPV construído de forma independente, utilizando peças de baixo custo, foi empregado pelos noruegueses durante o exercício. Este dispositivo foi concebido como um drone de ataque unidirecional, cuja finalidade era transportar explosivos e testar seu alcance máximo em condições operacionais. Tal abordagem reflete a busca por soluções inovadoras e economicamente viáveis, alinhando-se à tendência de drones descartáveis observada em outros conflitos.
A participação dos EUA e a colaboração aliada
Os Estados Unidos, outra nação com interesses estratégicos no Ártico, também participaram do exercício com um drone experimental. Os fuzileiros navais dos EUA testaram um modelo FPV singular, desenvolvido pela Universidade Johns Hopkins. Esta variante era equipada com uma estrutura protetora, uma espécie de gaiola, projetada para mitigar a perda excessiva de sistemas durante os treinamentos. Esta característica permite que o drone resista a colisões e que reparos sejam realizados de maneira mais eficiente, otimizando o ciclo de vida do equipamento em cenários de treinamento intensivo.
As tropas americanas utilizaram este drone em cenários de "força contra força", que simulam o engajamento de uma força amiga contra um adversário real. Este tipo de treinamento é fundamental para aprimorar as habilidades de pilotagem dos operadores em um contexto de ataque, ao mesmo tempo em que desenvolve táticas eficazes de contra-drone, elevando a capacidade de sobrevivência dos pilotos em um campo de batalha dinâmico e tecnologicamente avançado. A simulação de combate realística é vital para o preparo das forças.
Similarmente à observação norueguesa, o Sargento Mestre Patrick Harrington, diretor do centro de excelência em sistemas não tripulados da 2ª Divisão de Fuzileiros Navais, destacou a questão da energia como um dos maiores desafios para a operação de drones FPV em condições árticas. Harrington ressaltou a importância da troca de informações entre os aliados: "Pudemos trocar informações com nossos aliados aqui também, há interesse em como cada país [incluindo o nosso] os usa, o que eles voam, como eles voam". Esta colaboração internacional é crucial para o desenvolvimento conjunto de estratégias e soluções para os desafios operacionais emergentes no Ártico.
À medida que as nações árticas continuam a explorar e integrar drones FPV em suas doutrinas militares, a experiência da Ucrânia serve como um catalisador para a inovação e adaptação. Os desafios persistentes, como a vida útil da bateria e a necessidade de sistemas robustos, exigem pesquisa e desenvolvimento contínuos, bem como uma colaboração internacional aprofundada. Para acompanhar todas as análises e desdobramentos sobre tecnologias militares, geopolítica e segurança, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e mantenha-se informado com conteúdo exclusivo e aprofundado.










