O mercado de ações de defesa dos Estados Unidos tem registrado um declínio notável, mesmo com a prolongada escalada do conflito no Irã, indicando que o fenômeno de investimento conhecido como "compra-em-conflito" já havia atingido seu pico semanas antes. Essa antecipação reflete a expectativa de ações mais contundentes por parte do ex-presidente Donald Trump na época. A dinâmica observada sugere uma reavaliação dos ativos por parte dos investidores, que precificaram cenários de intensificação militar muito antes de os eventos se desenrolarem plenamente.
O NYSE Arca Defense Index, um indicador que abrange 34 empresas norte-americanas de defesa, tanto de pequena quanto de grande capitalização, apresentou uma queda de quase 8% em março. Este desempenho contrasta com a retração de 5% observada no S&P 500, um índice mais abrangente. Para contextualizar, em fevereiro de 2022, quando a Rússia iniciou sua invasão à Ucrânia, o mesmo índice de defesa havia registrado um ganho substancial de cerca de 12%. Essa diferença sublinha a singularidade da resposta do mercado ao conflito no Oriente Médio, onde a expectativa de um "prêmio de conflito" já estava, em grande parte, incorporada nas avaliações.
Antecipação de mercado e avaliações elevadas
A performance morosa das ações, conforme apontado por estrategistas, indica que os investidores estavam desfazendo posições após um período de forte valorização. Este movimento não sugere uma diminuição na demanda por equipamentos de defesa ou dúvidas sobre os gastos militares de longo prazo, mas sim uma realização de lucros após a euforia inicial. David Bianco, diretor de investimentos para as Américas na gestora de ativos alemã DWS, explicou que uma parcela significativa do "prêmio de conflito" já estava embutida nas valuações das empresas do setor. Segundo ele, o mercado viu ouro, petróleo e ações de defesa valorizarem-se em resposta a mensagens da administração Trump, especialmente quando o então presidente anunciou o envio de uma armada para o Oriente Médio, gerando incerteza e a percepção de uma alta probabilidade de conflito. Bianco, inclusive, revelou ter iniciado a redução de sua posição "overweight" (superponderada) em ações de defesa antes mesmo do início efetivo do conflito no Oriente Médio, demonstrando a antecedência com que o mercado antecipa tais eventos.
Havia sinais claros, bem antes do início dos bombardeios EUA-Israel no final de fevereiro, de que Washington estava se preparando para um confronto com Teerã. Relatórios da agência Reuters, divulgados semanas antes do início das hostilidades, detalhavam o acúmulo de forças dos EUA no Oriente Médio e a preparação para uma operação que poderia se estender por semanas, caso as vias diplomáticas falhassem. Essa preparação antecipada e a comunicação associada foram fatores cruciais para a precificação do "prêmio de conflito" no mercado de ações de defesa.
Analogamente, o setor de defesa europeu registrou uma queda de 11% em março, configurando sua maior perda mensal desde a pandemia. Esta retração ocorreu em meio a uma ampla liquidação de ativos, impulsionada por preocupações com um potencial choque energético decorrente do conflito. No entanto, é importante notar que as ações de defesa europeias haviam experimentado uma valorização significativa nas semanas anteriores, impulsionadas pelos planos de rearmamento em larga escala anunciados por governos europeus após a invasão russa da Ucrânia. Este cenário dual – euforia inicial e posterior ajuste – reforça a complexidade das reações do mercado a eventos geopolíticos.
Orçamento e desafios de produção
No início deste ano, o ex-presidente Trump propôs um orçamento militar para os EUA de US$ 1,5 trilhão para 2027, um valor consideravelmente superior aos US$ 901 bilhões aprovados para 2026. Contudo, persiste a incerteza quanto à aprovação de um aumento tão expressivo pelo Congresso norte-americano. Douglas Harned, analista da Bernstein, em uma nota recente, afirmou que "nada do que aconteceu até agora sugere que um orçamento de defesa de US$ 1,5 trilhão para 2027 possa ser excedido". Por essas razões, não se deve esperar um aumento nas projeções de lucros do setor de defesa a partir do conflito atual. Esta análise ponderada sugere que o impacto financeiro de tais conflitos pode ser menos direto ou imediato do que o senso comum poderia indicar, especialmente em um setor já altamente valorizado.
De fato, o índice de defesa apresentou um crescimento superior a 150% entre 2020 e 2025, o que posiciona o setor em valuações historicamente elevadas. O sub-índice S&P 500 Aerospace & Defense, por exemplo, é negociado a cerca de 32 vezes os lucros projetados para os próximos 12 meses, um múltiplo bem acima da média de aproximadamente 20 vezes do S&P 500 mais amplo, conforme dados da LSEG. Essas valuações robustas indicam que grande parte do potencial de crescimento futuro já está precificada nas ações, limitando o espaço para impulsos adicionais advindos de conflitos. As expectativas de lucro permanecem contidas apesar do conflito.
A reação do mercado também tem sido branda em relação aos esforços do Pentágono para impulsionar a produção e reabastecer os estoques de mísseis e munições, que estão esgotados. Analistas apontam que quaisquer ganhos de receita levarão tempo para se materializar, visto que os longos ciclos de produção e as restrições de capacidade limitam a velocidade com que a produção pode ser ampliada. As expectativas de crescimento de lucros para 2026 pairavam em torno de 12% no final de março, em comparação com cerca de 15% no início de 2026, para grandes empresas como General Dynamics, Lockheed Martin, Northrop Grumman, L3Harris e RTX, de acordo com Tajinder Dhillon, chefe de pesquisa de lucros e ações da LSEG Data & Analytics. Sameer Samana, chefe de ações globais do Wells Fargo Investment Institute, complementou que "o conflito precisaria durar mais tempo, ou se expandir materialmente, para que as estimativas (de lucros) aumentassem".
Restrições de oferta e pressões políticas
Além das valuações elevadas, os investidores apontam para a flexibilidade limitada da produção como um fator de preocupação. Richard Safran, analista sênior e diretor-gerente de aeroespacial e defesa da Seaport Research Partners, observa que, durante conflitos, o financiamento das empresas de defesa é frequentemente desviado para atender a necessidades operacionais imediatas, em vez de ser alocado para modernização ou desenvolvimento de longo prazo. Essa priorização pode comprometer a inovação e o crescimento futuro do setor.
A administração Trump também exerceu pressão sobre as empresas de defesa para que priorizassem a produção em detrimento dos pagamentos aos acionistas, o que exacerba a incerteza em torno dos retornos de capital. Essa intervenção política, embora compreensível em um contexto de segurança nacional, pode desincentivar investimentos de longo prazo por parte de acionistas que buscam retornos consistentes. O panorama de médio prazo do setor depende, portanto, significativamente das decisões orçamentárias dos EUA, com detalhes cruciais sobre os gastos esperados para 21 de abril, conforme reportado pela Bloomberg News. A evolução desses fatores será determinante para a trajetória das ações de defesa nos próximos períodos.
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