Em um episódio singular da história militar, a 'batalha' pela ilha de Guam em 20 de junho de 1898 pode ser considerada um dos confrontos mais cordiais já registrados. Ao invés do esperado som de balas e do ribombar de canhões, o capitão Henry Glass da Marinha dos Estados Unidos e sua tripulação a bordo do cruzador reativado USS Charleston foram recebidos nas praias por residentes curiosos. Estes, em um mal-entendido notável, interpretaram os disparos de advertência do Charleston como uma saudação formal. A ironia central deste evento reside no fato de que ninguém na ilha havia sido notificado de que Guam estava, de fato, em guerra. A pequena e frequentemente esquecida ilha, então sob domínio espanhol, não recebia qualquer comunicação de Madri desde 14 de abril de 1898 – um mês completo antes do início das hostilidades entre a Espanha e os Estados Unidos. Contudo, essa lacuna de comunicação não impediu os americanos de prosseguir com a intenção de tomar essa remota possessão espanhola.
A expedição ao Pacífico e a ordem secreta
No início daquele mês, o USS Charleston, sob o comando do Capitão Glass, havia recebido ordens diretas do Secretário da Marinha John D. Long. A diretriz era clara: “parar na Ilha Espanhola de Guam… [e] usar a força que for necessária para capturar o porto.” Equipado com este objetivo, o cruzador rumou para a ilha controlada pelos espanhóis no Pacífico. A tripulação, ao tomar conhecimento de seu destino e da missão, reagiu com uma mistura de excitação e perplexidade. Um marinheiro da época recordou o burburinho a bordo, com muitos questionando: “O que é Guam, onde fica e por que a queremos, afinal?” Essa indagação ressaltava a obscuridade da ilha para a maioria dos americanos e, ao mesmo tempo, a expansão das ambições estratégicas dos Estados Unidos, que começavam a se estender para além das Américas, alinhadas à doutrina do Destino Manifesto.
Um diálogo sobre guerra, não um confronto
Ao chegar em Guam, os americanos estavam preparados para o combate, imbuídos do espírito de expansão territorial e influência global que caracterizava a era. Eles rapidamente iniciaram o bombardeio ao forte de Santa Cruz. Contudo, essa demonstração de força foi erroneamente interpretada pelos espanhóis como uma salva de respeito e saudação. Em resposta, as autoridades espanholas da ilha apressaram-se em providenciar artilharia para retribuir o que consideravam uma cortesia. Conforme os oficiais guamanianos se aproximavam do Charleston em um barco a remo, foram surpreendidos pela chocante notícia: um estado de guerra existia entre os Estados Unidos e a Espanha, e eles eram agora, tecnicamente, prisioneiros de guerra. Em seguida, o Capitão Glass despachou o Tenente William Braunersreuther para se encontrar com o governador Juan Marina Vega e formalizar a rendição da pequena guarnição espanhola. Segundo o Comando de História e Patrimônio Naval, Vega ficou visivelmente surpreso ao ser informado de que precisaria ir a bordo do navio americano, uma ação proibida pela lei espanhola. Sua resposta foi registrada: “Lamento ter que recusar esta honra e pedir que tenha a gentileza de vir em terra, onde o aguardo para aceder aos seus desejos na medida do possível, e para concordar com nossas situações mútuas.” Apesar de sua hesitação inicial, Vega eventualmente aquiesceu, entregando sua pequena guarnição espanhola aos americanos.
A transição administrativa e suas complexidades
Com a rápida 'rendição' de Guam, o Capitão Glass, ansioso para seguir imediatamente para Manila e se juntar à frota do Comodoro George Dewey na crucial Batalha da Baía de Manila, tomou uma decisão pragmática mas de consequências incertas. Ele colocou a ilha sob a administração de Francisco Portusach, um cidadão americano naturalizado de 30 anos. Antigo zelador, Portusach estava no lugar certo na hora certa; seu principal atributo qualificador era sua cidadania americana, o que foi suficiente para Glass. Assim, a ilha – e os interesses dos Estados Unidos – foram entregues às mãos pouco experientes de Portusach. Como era de se esperar, após a partida de Glass, Portusach demonstrou-se incapaz de consolidar sua posição como governador e foi rapidamente deposto por Jose Sisto, um ex-administrador público espanhol. O reinado de Sisto também foi breve, sendo ele rapidamente derrubado pela população nativa Chamorro, que buscava afirmar sua autonomia. A situação política instável foi finalmente resolvida com o Tratado de Paris de 1898, que formalizou a entrega de Guam como um território dos Estados Unidos, status que a ilha mantém até os dias atuais. Essa transição complexa sublinha os desafios iniciais da projeção de poder dos EUA no Pacífico e a intrincada dinâmica de governança em territórios recém-adquiridos.
A história de Guam em 1898 é um lembrete fascinante de como a geopolítica e a comunicação podem moldar eventos inesperados. Para análises mais aprofundadas sobre defesa, geopolítica e conflitos internacionais, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e fique por dentro das últimas novidades e reportagens exclusivas.










