Paris — A soberania europeia no domínio da defesa e segurança é uma meta factível e exigiria um investimento anual de aproximadamente €50 bilhões (US$59 bilhões) ao longo da próxima década. Esta é a principal conclusão de um documento elaborado por um grupo de cinco proeminentes investidores, especialistas em defesa e executivos da indústria alemã. O relatório, intitulado 'Sparta 2.0' e publicado pelo Instituto Kiel para a Economia Mundial, identifica dez áreas cruciais onde a Europa enfrenta lacunas de capacidade estratégica, que incluem, mas não se limitam, a comando e controle (C2), sistemas autônomos e capacidade de ataque de precisão de longo alcance (deep strike). Estima-se que a concretização da autonomia de defesa custaria entre €150 bilhões e €200 bilhões até 2030, totalizando €500 bilhões ao longo dos próximos dez anos.
O estudo ressalta a profunda dependência da Alemanha e, por extensão, da Europa, em relação aos Estados Unidos em todas as etapas da cadeia de efeitos militares. Esta dependência abrange desde a aquisição de informações por meio de reconhecimento via satélite até o controle de fogo em campo de batalha. Os autores do documento argumentam que os planos atuais de países europeus para um aumento significativo dos gastos com defesa, embora representem um avanço, resultam apenas em ganhos “modestos” no caminho para a independência estratégica do continente. Em contrapartida, eles propõem uma abordagem mais ambiciosa e coordenada.
A urgência da priorização política e os custos viáveis
Thomas Enders, presidente do Conselho Alemão de Relações Exteriores e ex-CEO da Airbus, um dos signatários do relatório, enfatizou em um comunicado na última quinta-feira que um alto grau de independência europeia pode ser alcançado em poucos anos, e que o custo associado a este objetivo é financiável através dos aumentos orçamentários já previstos. Enders salientou a relevância do conflito na Ucrânia como um catalisador, demonstrando que tais avanços não precisam levar décadas para se concretizar. Além de Enders, o documento foi assinado por Jeannette zu Fürstenberg, presidente da empresa de capital de risco General Catalyst; Moritz Schularick, economista e presidente do Kiel Institute; René Obermann, presidente da Airbus e ex-CEO da Deutsche Telekom; e Nico Lange, analista de segurança e ex-membro da equipe de defesa.
Os autores reiteram que uma parte substancial das lacunas de capacidade identificadas pode ser abordada dentro de poucos anos, contanto que haja uma priorização política adequada. Eles comparam o desafio estratégico de defesa da Europa ao 'Projeto Manhattan', um esforço de guerra que mobilizou recursos e talentos em uma escala sem precedentes para um objetivo singular. Concretamente, um progresso substancial em direção a uma capacidade de ação autônoma europeia é considerado realista dentro de três a cinco anos. Uma “autonomia de longo alcance”, por sua vez, seria alcançável em um horizonte de cinco a dez anos, desde que este objetivo seja perseguido como uma prioridade política, integrado em um esforço europeu conjunto e coeso. O financiamento dessa soberania europeia é visto como plenamente exequível, correspondendo a aproximadamente 10% do total dos gastos de defesa europeus, e a despesa necessária ao longo da próxima década representa cerca de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB) da União Europeia.
Lacunas críticas e programas de investimento propostos
O relatório detalha as “dez lacunas centrais de capacidade” que a Europa precisa preencher para operar de forma autônoma. As estimativas de custo para os programas propostos estão, como admitem os autores, “necessariamente sujeitas a considerável incerteza”, com desvios esperados na faixa de 20% a 30%. A criação de uma capacidade europeia de comando e controle (C2) é avaliada em um período de três a quatro anos, com um custo que pode variar de €10 bilhões a mais de €20 bilhões. A Europa, atualmente, não possui um equivalente à empresa de tecnologia de defesa Palantir dos EUA, tornando a construção de um sistema soberano europeu de C2 e gerenciamento de batalha uma prioridade, com o sistema Delta da Ucrânia servindo como referência tecnológica e operacional.
No que tange à guerra moderna, a Europa tem falhado em acompanhar a mudança de paradigma observada na Ucrânia, caracterizada pela predominância de drones. A construção de uma capacidade suficiente em sistemas autônomos escaláveis poderia levar de três a cinco anos, com um custo estimado de €30 bilhões ou mais. As ações propostas incluem o estabelecimento de capacidade de produção em massa para vários milhões de drones e munições vagantes (loitering munitions) por ano. Outra linha de ação seria a criação de um programa de desenvolvimento de grande escala para veículos terrestres não tripulados (UGVs), envolvendo a indústria automotiva alemã, fabricantes de sistemas terrestres e startups de inteligência artificial, com foco na produção seriada.
A capacidade de ataque de precisão de longo alcance baseado em terra representa outra lacuna que poderia ser preenchida em três a cinco anos, com um orçamento de €20 bilhões a €30 bilhões. Já os sistemas de combate aéreo de sexta geração exigiriam um investimento de 10 anos ou mais e custariam, no mínimo, €200 bilhões, incluindo o financiamento para dois programas de desenvolvimento paralelos para garantir a vanguarda tecnológica. A defesa aérea também apresenta falhas significativas, especialmente em termos de capacidade acessível e em larga escala de contra-drones e de curto alcance, essenciais para a proteção de brigadas, ativos e infraestruturas. A defesa contra mísseis balísticos permanece uma “lacuna igualmente crítica”. Uma efetividade operacional inicial na defesa aérea poderia ser alcançada em três a cinco anos, enquanto a “implantação completa”, que incluiria interceptores autônomos de próxima geração, poderia demandar de cinco a dez anos, com um custo total de €50 bilhões. Por fim, o relatório menciona o reconhecimento por satélite, as comunicações, bem como o posicionamento, navegação e cronometragem (PNT) como lacunas de capacidade, com a prioridade número um sendo a construção de um equivalente europeu ao sistema Starlink. Outras lacunas de capacidade prioritárias identificadas incluem o lançamento espacial, inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR) persistentes aerotransportados, nuvem militar, software e inteligência artificial, transporte aéreo estratégico e apoio militar-operacional, além de guerra eletrônica e supressão de defesas aéreas inimigas.
Este roteiro detalhado, delineado por especialistas alemães, não apenas quantifica o investimento necessário para a autonomia de defesa europeia, mas também estabelece um cronograma ambicioso e realista. Para aprofundar seu conhecimento sobre geopolítica, segurança e as mais recentes análises de defesa, siga a OP Magazine em todas as redes sociais e mantenha-se informado com conteúdo exclusivo e especializado.










