Em um cenário de conflitos globais e reconfigurações estratégicas, o presidente Volodymyr Zelenskiy tem habilmente capitalizado a expertise da Ucrânia em guerra de drones para consolidar uma série de acordos diplomáticos bem-sucedidos. Durante visitas cruciais ao Oriente Médio e à Europa, Kyiv demonstrou sua capacidade militar como um trunfo para fortalecer sua influência diplomática. Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, a estratégia de Zelenskiy tem sido focada em reforçar as alianças, tanto com nações ocidentais tradicionais quanto com países emergentes do "sul global", visando mitigar a influência diplomática de Moscou no cenário internacional.
Analistas de defesa observam que a recente escalada do conflito no Oriente Médio, com a guerra entre Israel e o Irã, reafirmou a centralidade dos drones na guerra moderna. Essa percepção tem sido um catalisador para a estratégia diplomática ucraniana, conferindo a Zelenskiy uma vantagem negociadora em um período em que o suporte dos Estados Unidos a Kyiv é percebido como menos estável. A Ucrânia, ao longo do conflito, desenvolveu e implementou métodos de baixo custo e alta eficácia para a defesa contra ataques de drones. Essas abordagens inovadoras contrastam com a dependência exclusiva de sistemas de mísseis defensivos de ponta, como o dispendioso sistema Patriot dos EUA, amplamente utilizado no Golfo. Adicionalmente, Kyiv avançou no desenvolvimento de capacidades de drones de ataque de longo alcance, que têm sido empregados com sucesso contra a infraestrutura energética russa.
Avanços diplomáticos e desafios de exportação
Somente no último mês, a Ucrânia firmou acordos significativos nas áreas de defesa e drones com a Alemanha, Noruega e Holanda. Essas parcerias sucedem os acordos de segurança de longo prazo estabelecidos em março com a Arábia Saudita, o Catar e os Emirados Árabes Unidos. Em semanas recentes, Zelenskiy também selou cooperação em segurança com a Turquia e a Síria, além de assinar acordos de defesa e energia com o presidente azerbaijano Ilham Aliyev. Orysia Lutsevych, chefe do Fórum Ucrânia na Chatham House, um think tank sediado em Londres, ressalta que Zelenskiy está empenhado em apresentar a Ucrânia como um ativo estratégico, não uma vulnerabilidade, capaz de oferecer soluções para a natureza mutável da guerra. Contudo, ela alerta que "a Ucrânia precisa agora se organizar para realmente entregar o que promete".
Apesar do ímpeto diplomático, existem obstáculos substanciais para a plena concretização desse potencial. Fabricantes de drones ucranianos afirmam possuir capacidade ociosa considerável, mas o governo aprovou apenas um número limitado de licenças de exportação na área de defesa. Embora a Ucrânia tenha iniciado a fabricação de drones em países como Alemanha e Reino Unido, essa produção está primordialmente destinada a atender às necessidades militares internas. Lutsevych destaca que "na Ucrânia, o gargalo é o controle de exportação: basicamente é uma proibição de exportação", sugerindo a necessidade de agilizar e simplificar as regulamentações. Ela enfatiza a importância de encontrar um equilíbrio entre as demandas da guerra e as oportunidades de exportação.
Em seu pronunciamento, o presidente Zelenskiy confirmou que a indústria de defesa ucraniana opera com 50% de capacidade ociosa em certas áreas e que as exportações de armamentos seriam iniciadas em breve. As autoridades, segundo ele, estão trabalhando para simplificar os procedimentos burocráticos para a exportação, ao mesmo tempo em que implementarão medidas rigorosas para garantir que a tecnologia e os armamentos ucranianos não caiam em mãos russas. Outro desafio para a Ucrânia reside no fato de que seu sucesso tem sido mais notório no desenvolvimento de sistemas eficazes – como camadas coordenadas de drones interceptadores, metralhadoras e dispositivos de bloqueio para defesa antiaérea – do que na criação de tecnologias de ponta inéditas. Como demonstração dessas técnicas, a Ucrânia enviou cerca de 200 especialistas para a região do Golfo, com o objetivo de auxiliar na defesa contra os drones de longo alcance Shahed iranianos.
Kurt Volker, ex-embaixador dos EUA na OTAN e enviado especial para a Ucrânia durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, aponta que Kyiv age com prudência ao compartilhar seus sistemas de guerra de forma generalizada. Volker observa que "muito do que os ucranianos fizeram foi desenvolver processos e mentalidade", explicando que a Ucrânia se preocupa com a possibilidade de a Rússia aprender sobre o funcionamento de seus sistemas. Ele compara a situação à proteção de propriedade intelectual por uma empresa: "O que qualquer negócio faria é proteger sua IP pelo maior tempo possível. É isso que a torna valiosa. Então, é claro que eles estão fazendo isso".
Operadores humanos e o futuro da defesa aérea
A eficácia das defesas aéreas de baixo custo da Ucrânia está intrinsecamente ligada ao treinamento e à proficiência dos operadores de seus drones interceptadores, conforme análise de Fabian Hoffmann, pesquisador sênior do Norwegian Defence University College. Essa abordagem tem se mostrado altamente eficiente contra drones de hélice, como o Geran-2 russo. Contudo, a introdução gradual de modelos a jato, capazes de atingir velocidades de 400 km por hora, representa um desafio crescente para os operadores humanos. Hoffmann salienta que "a Ucrânia tem avançado em direção a drones interceptadores guiados autonomamente, mas, até o momento, os operadores têm desempenhado grande parte do trabalho pesado". Ele adiciona que empresas europeias, como a Tytan na Alemanha e a Frankenburg na Estônia, estão desenvolvendo sistemas autônomos que poderiam, eventualmente, reduzir a vantagem da Ucrânia.
Especialistas preveem que a expansão das exportações militares trará benefícios econômicos substanciais para a Ucrânia. Atualmente, aproximadamente 400.000 pessoas já estão empregadas na indústria de defesa ucraniana, de acordo com a UCDI, uma associação de fabricantes. Um setor de defesa mais capitalizado poderia não apenas reduzir a dependência do apoio financeiro e militar ocidental, mas também impulsionar o crescimento econômico após um eventual cessar-fogo. As ambições de Zelenskiy com a diplomacia de drones se estendem à garantia de acordos de fornecimento de energia com estados do Oriente Médio e à abertura de novos mercados para os produtos agrícolas ucranianos.
Além disso, o presidente busca fortalecer as defesas antimísseis da Ucrânia. A escalada do conflito entre Israel e Irã gerou preocupações em Kyiv de que os suprimentos de sistemas Patriot – cruciais para derrubar mísseis balísticos russos – possam ser desviados, à medida que Washington prioriza suas próprias necessidades de segurança e as de seus aliados. Nesse contexto, o pacto de defesa de 4 bilhões de dólares da Ucrânia com a Alemanha, assinado este mês, incluiu o fornecimento de sistemas Patriot, um movimento estratégico para assegurar a continuidade da proteção aérea ucraniana.
Para continuar acompanhando as análises mais aprofundadas sobre geopolítica, defesa e segurança internacional, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e fique por dentro das últimas notícias e desenvolvimentos estratégicos que moldam o cenário global.










