Em uma reconfiguração estratégica significativa, a liderança militar da Ucrânia planeja descontinuar o envio de tropas para treinamento básico no exterior. Essa decisão reflete uma avaliação crítica da eficácia dos métodos de instrução ocidentais frente às realidades do conflito em curso. Yevhen Mezhivikin, vice-chefe da Direção Principal de Doutrina e Treinamento do Estado-Maior, afirmou à publicação Militarnyi na semana passada que grande parte do que os exércitos ocidentais ensinam está “desligada de nossas realidades”. A intenção é consolidar todo o treinamento básico em território ucraniano, enquanto cursos mais especializados ainda poderão ser realizados no exterior, otimizando o processo de formação para as condições específicas do campo de batalha.
Essa mudança de paradigma não se limita à instrução interna. A Ucrânia está emergindo como uma fonte valiosa de conhecimento e experiência de combate para seus aliados. O Almirante Pierre Vandier, Comandante Supremo Aliado para Transformação da OTAN, durante sua primeira visita à Ucrânia, destacou em fevereiro que a capacidade de adaptação bélica ucraniana representa “uma das lições mais fortes” para a aliança. Ele também reconheceu, conforme reportado pela Ukrinform, que a Rússia tem demonstrado uma capacidade superior de assimilação dessas mesmas lições, evidenciando a urgência de aprimoramento por parte da OTAN. A constatação de Vandier de que “a Rússia é muito boa em adaptar, realmente, melhor do que nós hoje” sublinha a necessidade imperativa de revitalizar os mecanismos de aprendizado e inovação dentro da aliança.
A reconfiguração da instrução militar ucraniana
A inversão de papéis, onde a Ucrânia passa de receptora a exportadora de conhecimento militar, já está em pleno andamento. Apesar da ofensiva de primavera russa, a Ucrânia recuperou mais território em sua contraofensiva do que em qualquer outro momento desde 2023. Paralelamente, Kiev demonstrou capacidade ofensiva de longo alcance, incapacitando uma estimativa de 40% da capacidade de exportação de petróleo da Rússia através de ataques a terminais. Além dessas operações críticas, a Ucrânia conseguiu destacar e enviar 228 especialistas em drones para o oriente médio, onde auxiliaram aliados na interceptação de drones Shahed iranianos, que foram utilizados em ataques contra mais de uma dúzia de países, evidenciando a profundidade de sua expertise operacional e tecnológica.
O Tenente-Coronel Yurii Myronenko, ex-líder da equipe por trás do sistema DELTA de consciência situacional em campo de batalha e recentemente nomeado inspetor-geral do Ministério da Defesa, havia antecipado essa evolução em entrevista no mês anterior. Ele enfatizou que, embora a Ucrânia necessite de “parceiros poderosos” na OTAN, o país também possui ativos valiosos a oferecer, incluindo “trocas tecnológicas” e a habilidade de tomar decisões “muito próximas da linha de frente”. Essa perspectiva não é exclusiva da Ucrânia; governos aliados também têm incentivado essa recalibração. Mezhivikin revelou que o reino unido foi “o primeiro país a propor a movimentação de todo o treinamento para a Ucrânia e a concentração de esforços em centros específicos”, reconhecendo a eficácia da abordagem ucraniana.
A disseminação da experiência de combate e a adaptação estratégica da OTAN
A concretização dessa transferência de conhecimento é visível na recente ação de Kiev, que enviou um grupo de conselheiros militares para a Alemanha. O objetivo é instruir as forças alemãs em táticas de guerra de drones, contramedidas contra sistemas aéreos não tripulados (contra-UAS) e integração de guerra eletrônica – temas que os exércitos da OTAN têm estudado em nível doutrinário, mas raramente testaram sob condições de combate contínuo. A Alemanha, ao formalmente convidar instrutores ucranianos para suas escolas militares, tornou-se o primeiro membro da OTAN a fazê-lo. O Tenente-General Christian Freuding, chefe do exército alemão, expressou a alta expectativa em relação a essa colaboração, afirmando à Reuters que “o exército ucraniano é atualmente o único no mundo com experiência de linha de frente contra a Rússia”, ressaltando a relevância ímpar desse intercâmbio.
É fundamental esclarecer que o treinamento no exterior “não foi cancelado”, conforme pontuou Dmytro Lykhovii, porta-voz militar, três dias após a declaração original, segundo a Ukrainska Pravda. Em vez disso, o processo está sendo otimizado e dimensionado de forma mais eficiente. Lykhovii explicou que os cursos no exterior serão “agrupados e otimizados”, com uma lista concisa de nações parceiras especializando-se em áreas específicas. Cursos sobre armamentos e equipamentos, educação para comandantes-líderes e treinamento para sargentos-chefes (NCOs seniores) continuam a ser realizados fora da Ucrânia. No entanto, o volume de tropas enviadas para treinamento básico no exterior “diminuiu visivelmente nos últimos dois anos”, conforme Lykhovii informou à RBC-Ukraine. Embora o treinamento básico continue em três países da união europeia com o apoio de quatro estados da OTAN até 2026, isso representa uma redução significativa em comparação com os 18 estados membros da união europeia que hospedavam treinamento de nível de brigada ucraniana de todos os tipos até o final de 2025.
Essa transformação estratégica, que levou doze anos para se consolidar, posiciona a Ucrânia como a principal nação a ensinar, exportando sua expertise conquistada com grande esforço em guerra de drones, contra-UAS e guerra eletrônica para exércitos aliados que, historicamente, abordavam esses temas em doutrina, mas sem a validação do combate real. Um dos pontos mais notáveis dessa contribuição é o sistema DELTA, a plataforma operacional de campo de batalha utilizada pelas unidades ucranianas para consolidar informações, rastrear atividades e transmitir dados de alvo. O sistema DELTA já foi integrado aos exercícios de treinamento da própria OTAN, demonstrando sua interoperabilidade e eficácia em cenários complexos.
O Ministério da Defesa ucraniano confirmou que o DELTA serviu como plataforma de comando primária para a “equipe vermelha” ucraniana durante o exercício REPMUS 2025 da OTAN em Portugal, focado em sistemas não tripulados. Nesta simulação, a equipe ucraniana venceu todos os cinco cenários, coordenando mais de 100 drones em domínios marítimos, aéreos, terrestres e subaquáticos, e simulando a destruição de uma fragata da OTAN cujos sistemas de detecção falharam em identificar a tempo os drones navais Magura V7. Similarmente, na Estônia, uma pequena equipe de drones ucranianos, atuando como força adversária durante o Exercício Hedgehog 2025, utilizou drones e análise de alvos rápidos para tornar uma unidade mecanizada da OTAN ineficaz em combate em apenas meio dia, destruindo 17 veículos blindados e aproximadamente 30 alvos adicionais, conforme relatado pelo The Wall Street Journal. Esses resultados sublinham a eficácia e a inovação da abordagem ucraniana, oferecendo lições cruciais para a prontidão das forças aliadas.
A urgência para a adaptação e o treinamento entre as forças aliadas é premente. Avaliações da inteligência ocidental indicam a possibilidade de uma ofensiva russa em larga escala contra a OTAN já em 2029. Essa projeção, conforme Freuding declarou à Reuters, significa que “é quase depois de amanhã”. A falta de tempo é um fator crítico, pois “o inimigo não espera que declaremos que estamos prontos”, reforçando a necessidade de uma ação imediata e coordenada para integrar as lições de combate da Ucrânia e fortalecer as defesas da aliança.
A profunda transformação na estratégia de treinamento e a exportação de uma expertise de combate sem precedentes marcam um novo capítulo na cooperação militar internacional. Para continuar acompanhando as análises mais aprofundadas sobre defesa, geopolítica e conflitos internacionais, siga a OP Magazine em nossas redes sociais e mantenha-se informado sobre os desenvolvimentos que moldam o cenário global.










