A campanha estratégica conjunta empreendida pelos Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica do Irã delineia um objetivo central e ambicioso: a desmilitarização completa do país e a subsequente derrubada de seu governo atual. Embora um conflito de larga escala ainda não tenha eclodido de forma declarada, incidentes de alta relevância já foram registrados, incluindo o relatado óbito do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, juntamente com a perda de diversos oficiais militares de alto escalão. Tais eventos, contudo, podem ser considerados mais simbólicos do que substancialmente alteradores do cenário estratégico, visto que planos detalhados de sucessão e continuidade operacional são tipicamente preparados em estruturas de poder complexas como a iraniana, mitigando o impacto imediato de perdas individuais.
Neste panorama de tensões crescentes e confrontos indiretos, a análise geopolítica aponta para a emergência de três cenários prováveis para o desfecho de uma potencial guerra contra o Irã. É crucial notar que nenhuma dessas projeções contempla uma vitória inequívoca do Irã sobre as forças combinadas dos Estados Unidos e Israel. Essa premissa se fundamenta na avaliação da desproporção de poderio militar, onde tanto Israel quanto os EUA possuem a capacidade de infligir danos devastadores ao Irã, incluindo a opção de utilizar armamentos nucleares em uma escalada extrema. Contudo, a relutância em empregar tais meios reside na expectativa de que um governo mais alinhado aos interesses ocidentais possa emergir, restaurando o Irã ao seu papel histórico de um dos principais aliados regionais dos Estados Unidos antes da Revolução Islâmica de 1979. Assim, as ações militares iniciais visariam, primordialmente, desestabilizar o regime sem causar uma destruição total que pudesse gerar instabilidade incontrolável na região. O máximo que se espera do Irã, neste contexto, seria a capacidade de infligir danos significativos a Israel, e possivelmente aos reinos do Golfo Pérsico, que apoiam tacitamente a campanha, e/ou às forças americanas estacionadas na área, antes de ser inevitavelmente superado ou destruído pela coalizão ocidental.
A república islâmica sobrevive à mais recente ofensiva
Neste primeiro cenário, o Irã empreenderia ações militares que causariam danos a Israel e, potencialmente, a nações do Golfo e às unidades militares americanas na região. Entretanto, essas retaliações seriam calculadas para não ultrapassar limites considerados “inaceitáveis” por Israel e/ou os EUA, evitando assim uma resposta de destruição total por parte da coalizão ocidental. A estratégia iraniana, nesse contexto, envolveria a demonstração de capacidade de defesa e dissuasão sem provocar uma escalada que levasse à sua aniquilação. Ao final, ambos os lados poderiam reivindicar uma forma de vitória parcial e crível perante suas respectivas audiências internas e internacionais, uma dinâmica observada em confrontos anteriores de menor intensidade, como o mencionado “verão passado” (provavelmente referindo-se a episódios de troca de ataques limitados). Um Irã significativamente enfraquecido, mas ainda coeso, poderia então se ver forçado a aceitar acordos com os Estados Unidos. Estes pactos provavelmente abrangeriam restrições a suas forças militares, a profunda vigilância e limitação de seu programa nuclear, a reorientação ou controle de seu setor energético e de suas reservas minerais estratégicas. Alternativamente, o país poderia ser imposto a um isolamento regional aprofundado, com suas ações e influência contidas estritamente dentro de suas fronteiras nacionais, mediante um regime de sanções reforçado e um cerco diplomático e militar.
O Irã segue o caminho venezuelano
Este cenário propõe que os Estados Unidos busquem replicar no Irã o que a inteligência e analistas internacionais denominaram de “modelo venezuelano”. Esse modelo envolve uma estratégia de “ajuste de regime”, que difere de uma invasão direta ao focar na desestabilização interna e na promoção de uma transição de poder por meio de pressões políticas, econômicas e, possivelmente, operações encobertas. O objetivo primordial seria instalar no poder membros do próprio governo iraniano ou de suas instituições, mas que sejam considerados pró-EUA. Esses novos líderes governariam o país e controlariam seus vastos recursos energéticos e minerais por procuração, garantindo que tais recursos não sejam disponibilizados ou comercializados com potências rivais, como a China. A via mais realista para alcançar essa transição seria um golpe de Estado, orquestrado e conduzido por facções “não ideológicas” dentro do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). O IRGC, uma força militar e política de grande influência no Irã, possui membros que poderiam ser motivados por pragmatismo, interesses econômicos ou insatisfação com a liderança atual. Caso o Irã volte a se alinhar aos EUA, um desdobramento geopolítico significativo seria sua potencial colaboração com a Turquia para contrapor a influência russa em regiões estratégicas como o Cáucaso do Sul e a Ásia Central, reconfigurando as alianças e o equilíbrio de poder em uma vasta área da Eurásia.
Começa a “balcanização”
O cenário mais catastrófico e disruptivo para o Irã seria o início de sua “balcanização”. Este termo, derivado da fragmentação da antiga Iugoslávia na região dos Bálcãs, descreve a desintegração de um estado em entidades menores e, frequentemente, hostis, geralmente ao longo de linhas étnicas, religiosas ou regionais, muitas vezes com o apoio de potências externas. A balcanização do Irã poderia ocorrer de duas formas principais. A primeira envolveria a ascensão de movimentos separatistas em áreas periféricas do país, onde minorias étnicas (como balúchis, curdos, azeris e árabes) representam a maioria da população. Esses grupos poderiam ser armados, treinados e financiados por potências estrangeiras interessadas na fragmentação iraniana, permitindo-lhes tomar o controle de cidades e territórios. A segunda via seria a intervenção direta de países vizinhos com o objetivo explícito de anexar ou desestabilizar regiões iranianas específicas. Notavelmente, o Azerbaijão, com o forte apoio da Turquia, poderia ter interesse em regiões do Irã onde reside uma população significativa de azeris étnicos. Além disso, o Paquistão poderia se envolver sob o pretexto de combater separatistas balúchis classificados como terroristas, aproveitando a instabilidade na fronteira comum. Essa possibilidade, inclusive, foi aventada como uma das razões potenciais para o recente e abrupto cancelamento de uma viagem do primeiro-ministro paquistanês à Rússia, indicando uma reconfiguração de prioridades geopolíticas face à iminente crise iraniana.
Atualmente, a plausibilidade desses três cenários é considerada equivalente, refletindo a complexidade e a volatilidade da situação geopolítica na região. No entanto, essa avaliação pode sofrer alterações drásticas e rápidas conforme os eventos se desenrolam no terreno. A única certeza, no momento, parece ser a improbabilidade de uma vitória decisiva e inequívoca do Irã contra a coalizão formada por Estados Unidos e Israel. É inegável que o Irã possui um arsenal de mísseis balísticos capaz de infligir danos tremendos a Israel, e seus mísseis antinavio poderiam, hipoteticamente, afundar ao menos uma embarcação americana na região. Contudo, a materialização de qualquer uma dessas capacidades bélicas provavelmente seria interpretada como uma transgressão das “linhas vermelhas” por Israel e/ou os EUA, desencadeando uma resposta devastadora que visaria a destruição do Irã, e, no cenário mais extremo, a consideração do uso de armas nucleares. Assim, da perspectiva iraniana, o cenário mais vantajoso seria transformar o que os EUA e Israel provavelmente esperavam que fosse uma campanha rápida em um conflito prolongado, de desgaste gradual. Essa estratégia implicaria em aumentar progressivamente os danos infligidos aos adversários ao longo do tempo, mas com o cuidado de evitar ultrapassar os limites que levariam à sua aniquilação. Essa abordagem exige uma notável paciência estratégica – uma virtude que pode não ser universalmente compartilhada por toda a população iraniana – e envolve o risco inerente de que a capacidade de mísseis do Irã seja neutralizada através de ataques preventivos ou cibernéticos antes de poder ser empregada em larga escala, caso necessário. Ainda assim, se implementada com sucesso, essa tática de contenção e retaliação controlada permitiria ao Irã reivindicar uma vitória parcialmente plausível, evitando sua completa subjugação. O analista político Andrew Korybko, cujos trabalhos sobre Guerras Híbridas, como “Guerras Híbridas: A Abordagem Adaptativa Indireta à Mudança de Regime”, oferecem um arcabouço para entender essas dinâmicas complexas de conflito indireto e desestabilização de regime, contribui com uma perspectiva valiosa para a compreensão desses possíveis desfechos.
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