Em um cenário global onde a dinâmica dos conflitos navais é cada vez mais moldada pela capacidade de projeção de poder por meio de mísseis, compreender o real valor de combate das plataformas é essencial. Uma pesquisa conduzida pelo oficial superior da Marinha do Brasil, Alberto Ferreira Filho, que possui um Master of Arts em Defense and Strategic Studies pelo U.S. Naval War College e um Mestrado em Ciências Navais pela Escola de Guerra Naval (EGN), propõe uma análise aprofundada sobre o poder de combate em guerra de superfície (ASuW). O estudo confronta a capacidade de uma fragata multiemprego FREMM, especificamente a Classe Bergamini italiana, contra um grupo de Navios-Patrulha Oceânicos (OPV) da Classe Amazonas, em duas configurações de armamento distintas, com o intuito de discutir as implicações táticas e estratégicas para marinhas com recursos limitados.
Análise estratégica de poder de combate em guerra de superfície
A guerra de superfície moderna tem sido redefinida pela proliferação e avanço dos mísseis antinavio de longo alcance. Neste ambiente, a velocidade com que um engajamento é conduzido, a capacidade de uma força em sobrecarregar as defesas adversárias e a distribuição geográfica de suas plataformas lançadoras de mísseis tornam-se fatores decisivos para a letalidade da força e a sobrevivência de seus meios. De acordo com o renomado teórico naval Wayne P. Hughes Jr., a superioridade numérica e a dispersão do poder de fogo podem, em certas circunstâncias, compensar desvantagens inerentes a plataformas individuais, especialmente quando os sistemas defensivos do oponente não são capazes de escalar proporcionalmente à ameaça ofensiva. Este princípio é particularmente relevante para marinhas que buscam maximizar sua capacidade dissuasória e de combate com orçamentos restritos, como é o caso do Poder Naval brasileiro.
O estudo de Alberto Ferreira Filho se insere neste contexto, utilizando os mesmos fundamentos teóricos, modelos matemáticos e o simulador empregados em um artigo prévio que comparou um encouraçado 'Mahanian' da classe do presidente Trump com destróieres da Classe Arleigh Burke. O objetivo primordial desta nova análise é transpor essas metodologias para uma realidade mais tangível para a Marinha do Brasil, avaliando comparativamente o poder de combate de embarcações de menor porte e custo, como os navios-patrulha oceânicos, frente a navios de guerra de alta capacidade como as fragatas FREMM.
Plataformas em análise: FREMM versus OPV Amazonas
Para a unidade de maior poder de combate, o estudo toma como referência as fragatas FREMM italianas, especificamente a Classe Bergamini, conhecida por sua configuração de emprego geral e avançadas capacidades multifuncionais, incluindo defesa aérea, antissubmarina e de superfície. Em contrapartida, os Navios-Patrulha Oceânicos (OPV) da Classe Amazonas foram considerados, mas em duas configurações distintas de modificação, ilustrando o potencial de upgrade dessas plataformas. Essas modificações são inspiradas em modelos já existentes para outras marinhas, como a Classe Khareef, operada pela Marinha Real de Omã, que demonstram a viabilidade de armar OPVs com capacidade de ataque de superfície.
Configurações simuladas dos OPVs
A primeira configuração, denominada 'Configuração A', prevê um OPV da Classe Amazonas adaptado com quatro mísseis antinavio Exocet. A segunda, 'Configuração B', representa um upgrade mais robusto, incluindo a capacidade para oito mísseis Exocet e, crucialmente, um sistema de defesa de ponto forte como o SeaRAM. A motivação central deste estudo é justamente avaliar em que medida um OPV, tradicionalmente empregado em patrulha e fiscalização, pode adquirir relevância estratégica em um cenário de combate de superfície ao receber mísseis superfície-superfície (MSS) e, em uma versão mais avançada, um sistema de defesa de ponto robusto, transformando sua doutrina de emprego.
Metodologia: o modelo determinístico das equações de salvo de Hughes
A análise é pautada pelo modelo determinístico das Equações de Salvo de Wayne P. Hughes Jr., uma ferramenta analítica que abstrai o combate naval em três parâmetros principais para cada força envolvida: poder de ataque, poder de defesa e poder de permanência. Este modelo permite estimar o ponto de corte (breakpoint), ou seja, a condição em que uma força de OPVs consegue neutralizar a FREMM e, simultaneamente, manter pelo menos um de seus navios em condição de combate. Além da análise de poder de combate, o estudo introduz âncoras de custo, baseadas em fontes abertas, para as plataformas e seus pacotes de armamento, proporcionando uma discussão preliminar sobre a custo-efetividade dessas alternativas de modernização.
Parâmetros de combate essenciais
O 'poder de ataque' (striking power), representado por (α, β), mede o número esperado de armamentos ofensivos empregados em uma salva, considerando a ausência de oposição do adversário. Este parâmetro é modulado pela quantidade de armamento lançado e pela probabilidade de sucesso de cada armamento em atingir o alvo. O 'poder de defesa' (defensive power), (a₃, b₃), quantifica o número de armamentos inimigos que se espera sejam neutralizados pelas medidas de defesa, sejam elas mísseis antiaéreos, sistemas de armas de proximidade (CIWS) ou contramedidas eletrônicas. Por fim, o 'poder de permanência' (staying power), (a₁, b₁), indica o número de impactos necessários para que uma unidade naval seja considerada fora de combate, refletindo sua resiliência e capacidade de absorver danos.
Critério de vantagem no duelo
Para este estudo específico, que simula um duelo 'N OPVs vs. 1 FREMM', o critério de vantagem para a força dos OPVs é estabelecido por dois fatores concomitantes: a neutralização completa da fragata FREMM (com a condição de 'FREMM remanescente ≤ 0') e a sobrevivência de, no mínimo, um OPV em condição de combate ('OPVs remanescentes ≥ 1').
Parametrização do cenário: FREMM italiana versus OPV Amazonas
A parametrização cuidadosa das capacidades de cada plataforma é fundamental para a credibilidade do modelo. Para a fragata FREMM italiana Classe Bergamini, foram considerados os oito mísseis superfície-superfície (MSS) Exocet existentes a bordo. O engajamento ofensivo foi simulado com uma salva de quatro mísseis antinavio por turno, cuja probabilidade de acerto (p_hit) é ajustável. Em termos defensivos, a FREMM foi parametrizada com a capacidade de neutralizar quatro mísseis inimigos, e seu poder de permanência estimado em quatro impactos para ser considerada neutralizada.
Configurações dos NPaOc classe Amazonas
Para os NPaOc Classe Amazonas, as configurações simuladas apresentam características distintas. Na 'Configuração A', o navio é adaptado com um sistema de lançamento para quatro mísseis Exocet, com uma salva de dois mísseis por turno e a mesma probabilidade de acerto da FREMM. Seu poder de defesa, baseado no armamento existente na classe, foi estimado para neutralizar um míssil. O poder de permanência para esta configuração foi definido como a necessidade de dois impactos para neutralizar cada unidade. A 'Configuração B' representa um upgrade mais significativo, incluindo a capacidade para oito mísseis Exocet e a integração de um sistema de defesa de ponto robusto como o SeaRAM, o que eleva substancialmente seu perfil de sobrevivência e capacidade de engajamento.
Aprofundar-se nesses estudos é crucial para a formulação de estratégias de defesa naval eficazes e para a otimização do investimento em poder naval. Para continuar acompanhando as análises mais pertinentes sobre defesa, geopolítica e segurança, siga as redes sociais da OP Magazine e mantenha-se informado com conteúdo exclusivo e aprofundado.










