Primeira visita de navio militar dos EUA a porto construído pela China no Camboja sinaliza nova guinada para Phnom Penh

A complexidade da dinâmica em Ream e as reações internacionais sublinham a importância crescente do Camboja como um ponto focal na competição geopolítica entre os EUA e a China.

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Primeira visita de navio militar dos EUA a porto construído pela China no Camboja sinaliza nova guinada para Phnom Penh

A complexidade da dinâmica em Ream e as reações internacionais sublinham a importância crescente do Camboja como um ponto focal na competição geopolítica entre os EUA e a China.

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A recente visita de um navio de guerra dos Estados Unidos à Base Naval de Ream, estrategicamente localizada na costa sul do Camboja e construída com significativo investimento chinês, marcou um momento de particular complexidade nas dinâmicas geopolíticas do Sudeste Asiático. A chegada do USS Cincinnati, um navio de combate litorâneo, na semana passada, não apenas simboliza um aparente degelo nas relações entre Washington e Phnom Penh, mas também levanta sérias preocupações quanto à potencial reação de Pequim, conforme alertam analistas especializados em relações internacionais. Este evento ocorre em um contexto de aquecimento das relações com os EUA, após uma década de laços tensos que, ao longo do tempo, geraram implicações indesejadas para toda a região, à medida que a capital cambojana se afastou do Ocidente para abraçar a influência, os recursos financeiros e as diretrizes de Pequim.

A escolha de Ream para este “port call” – um termo militar que denota uma visita de cortesia ou logística a um porto estrangeiro – é duplamente significativa. Por um lado, demonstra uma abertura por parte do Camboja, que anteriormente restringia o acesso a essa infraestrutura vital. Por outro, essa ação pode ser interpretada como um desafio sutil à preponderância chinesa na região, especialmente considerando o histórico recente de Ream, que passou por uma modernização extensiva sob a égide da China. A movimentação diplomática e militar em torno de Ream, portanto, posiciona o Camboja em um delicado equilíbrio entre duas grandes potências, com consequências que podem se estender por toda a Bacia do Indo-Pacífico.

Militares da Marinha Real do Camboja recepcionam o navio de combate litorâneo USS Cincinnati (LCS-20) no porto da Base Naval de Ream. (Suy SE / AFP)

Um cenário geopolítico complexo e as possíveis repercussões de Pequim

A percepção de Pequim sobre a visita do USS Cincinnati à base de Ream é crucial para entender os próximos passos na diplomacia regional. Deth Sok Udom, professor de relações internacionais na Paragon International University em Phnom Penh, sugere que “a China estará silenciosamente descontente e duvidosa das reais intenções do Camboja”. Contudo, ele pondera que é improvável que essa insatisfação seja manifestada abertamente. Essa postura discreta pode derivar do desejo chinês de evitar uma escalada pública que poderia empurrar o Camboja ainda mais para a órbita de Washington, preferindo aplicar pressão de forma mais velada e estratégica, talvez através de canais diplomáticos privados ou ajustes em acordos comerciais e de investimento.

Apesar do descontentamento implícito, Deth Sok Udom adverte contra a interpretação simplista de que a visita do navio estadunidense represente uma mudança estratégica fundamental do Camboja em direção aos EUA, em detrimento de seus laços com a China. O Reino continua a ser um parceiro comercial e investidor de peso para o Camboja, com bilhões de dólares investidos em infraestrutura, energia e outros setores. Essa dependência econômica estabelece um limite claro para qualquer guinada abrupta na política externa cambojana. O regime de Phnom Penh precisa manter um equilíbrio pragmático, beneficiando-se das oportunidades oferecidas por ambos os lados, enquanto tenta gerenciar as expectativas e as pressões de cada uma das superpotências.

No entanto, nem todos os analistas compartilham dessa visão mais moderada. Pravit Rojanaphruk, comentarista político tailandês, expressa uma preocupação mais acentuada, sugerindo que o Camboja pode ter se excedido ao acolher o USS Cincinnati em Ream. Para Rojanaphruk, essa ação desafia diretamente a influência regional da China, aumentando a probabilidade de repercussões diplomáticas e até militares. A China, historicamente, tem considerado o Camboja e o Sudeste Asiático como parte de sua “retaguarda” estratégica, um termo que denota uma zona de influência primordial onde a presença de potências rivais é vista com desconfiança e potencialmente como uma ameaça à sua segurança e hegemonia regional.

Nesse sentido, a resposta de Pequim à “invasão” da influência estadunidense poderia não se limitar ao campo diplomático. Poderiam ser consideradas ações militares, ainda que de caráter simbólico ou preventivo, para reafirmar a sua posição. Rojanaphruk prevê que a China tentará “neutralizar a influência dos EUA no Camboja e ensinar uma ou duas lições ao Camboja nos próximos meses”. A neutralização poderia envolver o aumento da presença naval chinesa na região, exercícios militares conjuntos com aliados próximos ou intensificação da inteligência e vigilância. As “lições” poderiam variar desde a reavaliação de projetos de investimento até a aplicação de pressão política nos fóruns regionais. A preocupação de Pequim se estenderia a outros países com laços estreitos com a China, como o Laos, servindo o Camboja como um exemplo para evitar que o precedente de aproximação com os EUA se espalhe.

A projeção de poder naval no Indo-Pacífico

A transformação da Base Naval de Ream é um testemunho da crescente projeção de poder da China no Sudeste Asiático e além. Em um período notavelmente curto de três anos, a China reconstruiu e expandiu Ream, desmantelando instalações anteriormente financiadas pelos EUA, que incluíam um píer dilapidado utilizado como ponto de reabastecimento. Essa substituição simbólica e material sublinha a intenção da China de consolidar sua presença e influência infraestrutural na região, reconfigurando a paisagem estratégica do porto.

Até o início de 2025, Ream deverá ostentar um píer de 650 metros, com capacidade para atracar grandes navios de guerra, uma doca seca de 5.000 toneladas e uma rampa de lançamento de 1.000 toneladas, além de robustas instalações logísticas. Essas capacidades representam um salto qualitativo significativo para a marinha cambojana, mas, mais importante, para a capacidade da Marinha do Exército de Libertação Popular (PLAN) de operar e sustentar suas frotas em águas mais distantes. A presença de uma doca seca de grande porte, por exemplo, permite reparos e manutenção de embarcações maiores no local, reduzindo a necessidade de retornar a portos chineses e aumentando a autonomia operacional na região.

A análise de imagens de satélite da BlackSky em 2023 revelou semelhanças notáveis entre o píer de águas profundas angulado em Ream e um píer militar chinês em Djibuti. Djibuti é o único posto avançado naval da China no exterior, estrategicamente situado no Chifre da África, o que permite o apoio a operações no Oceano Índico. A similitude de design e capacidade com Djibuti sugere um modelo operacional replicável e uma intenção clara de estender a projeção de poder. O píer angulado, por exemplo, é projetado para acomodar e manobrar com eficiência grandes embarcações, incluindo navios da Marinha chinesa de grande porte.

A capacidade potencial de Ream para apoiar todos os vasos da marinha chinesa, inclusive o porta-aviões Type 003 Fujian, representa uma mudança geopolítica de primeira ordem. Um porta-aviões é um símbolo máximo de projeção de poder naval, e a possibilidade de Ream abrigar tal ativo expande drasticamente o alcance operacional da China no Sudeste Asiático e nas rotas marítimas vitais do Oceano Índico. Embora a base em si cubra 190 acres, as atualizações circundantes, como rodovias de seis pistas e um aeroporto reformado, estendem sua importância estratégica, permitindo o rápido transporte de pessoal e material, bem como o apoio aéreo para operações navais.

Craig Singleton, vice-diretor do Programa China da Foundation for Defense of Democracies, reiterou no relatório BlackSky que a “receptividade do Camboja em hospedar o segundo porto naval chinês no exterior aumenta a capacidade estratégica de Pequim de projetar poder militar no Oceano Índico”. Essa declaração ressalta a importância de Ream como um componente-chave na estratégia marítima mais ampla da China, visando garantir suas rotas comerciais, proteger seus interesses energéticos e desafiar a hegemonia marítima ocidental na região do Indo-Pacífico.

Uma imagem de satélite mostra um cais na Base Naval de Ream, no Camboja, com navios atracados ali em dezembro de 2023 e abril de 2024. (Reprodução/BlackSky)

A aliança sino-cambojana e os desafios regionais

Com o investimento de bilhões de dólares pela China, Phnom Penh emergiu como um aliado e procurador inabalável de Pequim dentro da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). A ASEAN, um bloco regional, é vista pelo Ocidente como um foro central para equilibrar a rivalidade entre grandes potências na região do Indo-Pacífico. A lealdade cambojana à China, no entanto, frequentemente minou a unidade da ASEAN e suas iniciativas para manter uma postura neutra e construtiva diante da competição geopolítica.

Desde 2012, o Camboja tem sido efetivamente o “spoiler” designado da China, atrasando repetidamente o Código de Conduta (CoC), um instrumento concebido para gerenciar disputas marítimas entre a ASEAN e Pequim no Mar da China Meridional. Essa região é um foco de tensão geopolítica perene devido às suas vastas reservas de recursos naturais, rotas de navegação cruciais e as complexas reivindicações territoriais. A China percebia o CoC como uma ameaça à sua liberdade de ação e preferia uma estratégia de “dividir para conquistar”, negociando disputas territoriais individualmente com cada um dos dez membros da ASEAN, enfraquecendo assim o poder de barganha coletivo do bloco e garantindo acordos mais favoráveis aos seus interesses.

Segundo Deth Sok Udom, essa postura cambojana, alinhada aos interesses chineses, efetivamente minou a visão dos EUA de um Indo-Pacífico livre e aberto. O conceito de “Indo-Pacífico livre e aberto” (FOIP) é um pilar da estratégia externa dos EUA e seus aliados, promovendo a liberdade de navegação, o respeito ao direito internacional e um sistema regional baseado em regras, em contraste com a expansão da influência chinesa percebida como coercitiva ou unilateral.

Relações deterioradas com o Ocidente e a ascensão de Hun Manet

A deterioração das relações entre o Camboja e os EUA não é um fenômeno recente. Em 2017, Phnom Penh encerrou os exercícios militares conjuntos sino-cambojanos “Angkor Sentinel”, um claro sinal de distanciamento de Washington. Mais tarde, o governo cambojano acusou a administração Obama de apoiar tentativas de políticos da oposição para derrubar o então primeiro-ministro Hun Sen, um líder de longa data conhecido por seu estilo autoritário e por suprimir a dissidência política. Essa acusação serviu de pretexto para uma repressão generalizada contra todas as formas de oposição no país, solidificando ainda mais o poder de Hun Sen e seu alinhamento com a China, que geralmente evita criticar a soberania interna de outros Estados.

Três anos depois, o Camboja gerou novamente descontentamento na ASEAN e no Ocidente ao negociar com o regime militar de Myanmar, após o golpe de estado que depôs o governo democraticamente eleito. Essa ação foi particularmente controversa, pois a comunidade internacional condenava o regime golpista, e a China nutre interesses significativos em Myanmar, especialmente por seus depósitos sustentáveis de terras raras, minerais críticos para tecnologias de alta tecnologia. O apoio indireto do Camboja ao regime militar de Myanmar foi interpretado como mais um movimento para alinhar-se aos interesses chineses na região, em detrimento da solidariedade regional e dos princípios democráticos.

As relações atingiram seu ponto mais baixo quando um adido militar americano foi convidado a inspecionar Ream, mas teve o acesso total negado, levantando suspeitas sobre a extensão do envolvimento chinês na base. Em resposta a essa falta de transparência e às crescentes preocupações com a influência chinesa, Washington impôs um embargo de armas ao Camboja no final de 2021, uma medida que refletiu a profunda desconfiança e o declínio das relações bilaterais.

Segundo Deth Sok Udom, professor de relações internacionais na Paragon International University, os EUA expressaram repetidamente preocupações sobre possíveis operações chinesas e o futuro uso da Base Naval de Ream.

A nova liderança e a tentativa de reequilíbrio

Em meio a esse cenário de crescente polarização, surgiram preocupações internas de que o Camboja estivesse excessivamente dependente da China, uma situação que não agradava a Hun Manet, filho de Hun Sen. Formado na academia militar de West Point, nos EUA, e preparado para assumir o cargo de primeiro-ministro em 2023, Hun Manet representa uma nova geração de liderança com potencial para reorientar a política externa do país. Sua formação no Ocidente, com uma compreensão mais aprofundada das perspectivas e interesses ocidentais, provavelmente serviu como um fator estratégico crucial nas considerações sobre o quanto ele poderia ajustar a trajetória da política externa do Camboja, até então profundamente enraizada na órbita chinesa.

Deth Sok Udom destaca que “os EUA expressaram repetidamente preocupações sobre possíveis operações chinesas e o futuro uso da base naval, apesar das negações do Camboja”. A necessidade de dissipar essas alegações impulsionou o Camboja a declarar Ream aberta a todas as marinhas do mundo, uma tentativa de demonstrar neutralidade. Embora duas corvetas chinesas – pequenos navios de guerra ágeis – rotacionem em Ream, o Camboja buscou validação externa. Visitas de navios do Japão, Vietnã e Rússia se seguiram, enquanto navios de guerra australianos e canadenses atracaram na vizinha Sihanoukville, um porto que não possui a mesma conotação de influência chinesa que Ream. Este “ato de equilíbrio” de Hun Manet sinaliza um esforço para diversificar as parcerias estratégicas, embora a magnitude da dependência cambojana da China continue a ser um desafio fundamental.

Para análises mais aprofundadas sobre defesa, geopolítica e segurança, continue explorando o conteúdo exclusivo da OP Magazine. Sua jornada pelo conhecimento estratégico começa e se aprofunda aqui!

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A recente visita de um navio de guerra dos Estados Unidos à Base Naval de Ream, estrategicamente localizada na costa sul do Camboja e construída com significativo investimento chinês, marcou um momento de particular complexidade nas dinâmicas geopolíticas do Sudeste Asiático. A chegada do USS Cincinnati, um navio de combate litorâneo, na semana passada, não apenas simboliza um aparente degelo nas relações entre Washington e Phnom Penh, mas também levanta sérias preocupações quanto à potencial reação de Pequim, conforme alertam analistas especializados em relações internacionais. Este evento ocorre em um contexto de aquecimento das relações com os EUA, após uma década de laços tensos que, ao longo do tempo, geraram implicações indesejadas para toda a região, à medida que a capital cambojana se afastou do Ocidente para abraçar a influência, os recursos financeiros e as diretrizes de Pequim.

A escolha de Ream para este “port call” – um termo militar que denota uma visita de cortesia ou logística a um porto estrangeiro – é duplamente significativa. Por um lado, demonstra uma abertura por parte do Camboja, que anteriormente restringia o acesso a essa infraestrutura vital. Por outro, essa ação pode ser interpretada como um desafio sutil à preponderância chinesa na região, especialmente considerando o histórico recente de Ream, que passou por uma modernização extensiva sob a égide da China. A movimentação diplomática e militar em torno de Ream, portanto, posiciona o Camboja em um delicado equilíbrio entre duas grandes potências, com consequências que podem se estender por toda a Bacia do Indo-Pacífico.

Militares da Marinha Real do Camboja recepcionam o navio de combate litorâneo USS Cincinnati (LCS-20) no porto da Base Naval de Ream. (Suy SE / AFP)

Um cenário geopolítico complexo e as possíveis repercussões de Pequim

A percepção de Pequim sobre a visita do USS Cincinnati à base de Ream é crucial para entender os próximos passos na diplomacia regional. Deth Sok Udom, professor de relações internacionais na Paragon International University em Phnom Penh, sugere que “a China estará silenciosamente descontente e duvidosa das reais intenções do Camboja”. Contudo, ele pondera que é improvável que essa insatisfação seja manifestada abertamente. Essa postura discreta pode derivar do desejo chinês de evitar uma escalada pública que poderia empurrar o Camboja ainda mais para a órbita de Washington, preferindo aplicar pressão de forma mais velada e estratégica, talvez através de canais diplomáticos privados ou ajustes em acordos comerciais e de investimento.

Apesar do descontentamento implícito, Deth Sok Udom adverte contra a interpretação simplista de que a visita do navio estadunidense represente uma mudança estratégica fundamental do Camboja em direção aos EUA, em detrimento de seus laços com a China. O Reino continua a ser um parceiro comercial e investidor de peso para o Camboja, com bilhões de dólares investidos em infraestrutura, energia e outros setores. Essa dependência econômica estabelece um limite claro para qualquer guinada abrupta na política externa cambojana. O regime de Phnom Penh precisa manter um equilíbrio pragmático, beneficiando-se das oportunidades oferecidas por ambos os lados, enquanto tenta gerenciar as expectativas e as pressões de cada uma das superpotências.

No entanto, nem todos os analistas compartilham dessa visão mais moderada. Pravit Rojanaphruk, comentarista político tailandês, expressa uma preocupação mais acentuada, sugerindo que o Camboja pode ter se excedido ao acolher o USS Cincinnati em Ream. Para Rojanaphruk, essa ação desafia diretamente a influência regional da China, aumentando a probabilidade de repercussões diplomáticas e até militares. A China, historicamente, tem considerado o Camboja e o Sudeste Asiático como parte de sua “retaguarda” estratégica, um termo que denota uma zona de influência primordial onde a presença de potências rivais é vista com desconfiança e potencialmente como uma ameaça à sua segurança e hegemonia regional.

Nesse sentido, a resposta de Pequim à “invasão” da influência estadunidense poderia não se limitar ao campo diplomático. Poderiam ser consideradas ações militares, ainda que de caráter simbólico ou preventivo, para reafirmar a sua posição. Rojanaphruk prevê que a China tentará “neutralizar a influência dos EUA no Camboja e ensinar uma ou duas lições ao Camboja nos próximos meses”. A neutralização poderia envolver o aumento da presença naval chinesa na região, exercícios militares conjuntos com aliados próximos ou intensificação da inteligência e vigilância. As “lições” poderiam variar desde a reavaliação de projetos de investimento até a aplicação de pressão política nos fóruns regionais. A preocupação de Pequim se estenderia a outros países com laços estreitos com a China, como o Laos, servindo o Camboja como um exemplo para evitar que o precedente de aproximação com os EUA se espalhe.

A projeção de poder naval no Indo-Pacífico

A transformação da Base Naval de Ream é um testemunho da crescente projeção de poder da China no Sudeste Asiático e além. Em um período notavelmente curto de três anos, a China reconstruiu e expandiu Ream, desmantelando instalações anteriormente financiadas pelos EUA, que incluíam um píer dilapidado utilizado como ponto de reabastecimento. Essa substituição simbólica e material sublinha a intenção da China de consolidar sua presença e influência infraestrutural na região, reconfigurando a paisagem estratégica do porto.

Até o início de 2025, Ream deverá ostentar um píer de 650 metros, com capacidade para atracar grandes navios de guerra, uma doca seca de 5.000 toneladas e uma rampa de lançamento de 1.000 toneladas, além de robustas instalações logísticas. Essas capacidades representam um salto qualitativo significativo para a marinha cambojana, mas, mais importante, para a capacidade da Marinha do Exército de Libertação Popular (PLAN) de operar e sustentar suas frotas em águas mais distantes. A presença de uma doca seca de grande porte, por exemplo, permite reparos e manutenção de embarcações maiores no local, reduzindo a necessidade de retornar a portos chineses e aumentando a autonomia operacional na região.

A análise de imagens de satélite da BlackSky em 2023 revelou semelhanças notáveis entre o píer de águas profundas angulado em Ream e um píer militar chinês em Djibuti. Djibuti é o único posto avançado naval da China no exterior, estrategicamente situado no Chifre da África, o que permite o apoio a operações no Oceano Índico. A similitude de design e capacidade com Djibuti sugere um modelo operacional replicável e uma intenção clara de estender a projeção de poder. O píer angulado, por exemplo, é projetado para acomodar e manobrar com eficiência grandes embarcações, incluindo navios da Marinha chinesa de grande porte.

A capacidade potencial de Ream para apoiar todos os vasos da marinha chinesa, inclusive o porta-aviões Type 003 Fujian, representa uma mudança geopolítica de primeira ordem. Um porta-aviões é um símbolo máximo de projeção de poder naval, e a possibilidade de Ream abrigar tal ativo expande drasticamente o alcance operacional da China no Sudeste Asiático e nas rotas marítimas vitais do Oceano Índico. Embora a base em si cubra 190 acres, as atualizações circundantes, como rodovias de seis pistas e um aeroporto reformado, estendem sua importância estratégica, permitindo o rápido transporte de pessoal e material, bem como o apoio aéreo para operações navais.

Craig Singleton, vice-diretor do Programa China da Foundation for Defense of Democracies, reiterou no relatório BlackSky que a “receptividade do Camboja em hospedar o segundo porto naval chinês no exterior aumenta a capacidade estratégica de Pequim de projetar poder militar no Oceano Índico”. Essa declaração ressalta a importância de Ream como um componente-chave na estratégia marítima mais ampla da China, visando garantir suas rotas comerciais, proteger seus interesses energéticos e desafiar a hegemonia marítima ocidental na região do Indo-Pacífico.

Uma imagem de satélite mostra um cais na Base Naval de Ream, no Camboja, com navios atracados ali em dezembro de 2023 e abril de 2024. (Reprodução/BlackSky)

A aliança sino-cambojana e os desafios regionais

Com o investimento de bilhões de dólares pela China, Phnom Penh emergiu como um aliado e procurador inabalável de Pequim dentro da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). A ASEAN, um bloco regional, é vista pelo Ocidente como um foro central para equilibrar a rivalidade entre grandes potências na região do Indo-Pacífico. A lealdade cambojana à China, no entanto, frequentemente minou a unidade da ASEAN e suas iniciativas para manter uma postura neutra e construtiva diante da competição geopolítica.

Desde 2012, o Camboja tem sido efetivamente o “spoiler” designado da China, atrasando repetidamente o Código de Conduta (CoC), um instrumento concebido para gerenciar disputas marítimas entre a ASEAN e Pequim no Mar da China Meridional. Essa região é um foco de tensão geopolítica perene devido às suas vastas reservas de recursos naturais, rotas de navegação cruciais e as complexas reivindicações territoriais. A China percebia o CoC como uma ameaça à sua liberdade de ação e preferia uma estratégia de “dividir para conquistar”, negociando disputas territoriais individualmente com cada um dos dez membros da ASEAN, enfraquecendo assim o poder de barganha coletivo do bloco e garantindo acordos mais favoráveis aos seus interesses.

Segundo Deth Sok Udom, essa postura cambojana, alinhada aos interesses chineses, efetivamente minou a visão dos EUA de um Indo-Pacífico livre e aberto. O conceito de “Indo-Pacífico livre e aberto” (FOIP) é um pilar da estratégia externa dos EUA e seus aliados, promovendo a liberdade de navegação, o respeito ao direito internacional e um sistema regional baseado em regras, em contraste com a expansão da influência chinesa percebida como coercitiva ou unilateral.

Relações deterioradas com o Ocidente e a ascensão de Hun Manet

A deterioração das relações entre o Camboja e os EUA não é um fenômeno recente. Em 2017, Phnom Penh encerrou os exercícios militares conjuntos sino-cambojanos “Angkor Sentinel”, um claro sinal de distanciamento de Washington. Mais tarde, o governo cambojano acusou a administração Obama de apoiar tentativas de políticos da oposição para derrubar o então primeiro-ministro Hun Sen, um líder de longa data conhecido por seu estilo autoritário e por suprimir a dissidência política. Essa acusação serviu de pretexto para uma repressão generalizada contra todas as formas de oposição no país, solidificando ainda mais o poder de Hun Sen e seu alinhamento com a China, que geralmente evita criticar a soberania interna de outros Estados.

Três anos depois, o Camboja gerou novamente descontentamento na ASEAN e no Ocidente ao negociar com o regime militar de Myanmar, após o golpe de estado que depôs o governo democraticamente eleito. Essa ação foi particularmente controversa, pois a comunidade internacional condenava o regime golpista, e a China nutre interesses significativos em Myanmar, especialmente por seus depósitos sustentáveis de terras raras, minerais críticos para tecnologias de alta tecnologia. O apoio indireto do Camboja ao regime militar de Myanmar foi interpretado como mais um movimento para alinhar-se aos interesses chineses na região, em detrimento da solidariedade regional e dos princípios democráticos.

As relações atingiram seu ponto mais baixo quando um adido militar americano foi convidado a inspecionar Ream, mas teve o acesso total negado, levantando suspeitas sobre a extensão do envolvimento chinês na base. Em resposta a essa falta de transparência e às crescentes preocupações com a influência chinesa, Washington impôs um embargo de armas ao Camboja no final de 2021, uma medida que refletiu a profunda desconfiança e o declínio das relações bilaterais.

Segundo Deth Sok Udom, professor de relações internacionais na Paragon International University, os EUA expressaram repetidamente preocupações sobre possíveis operações chinesas e o futuro uso da Base Naval de Ream.

A nova liderança e a tentativa de reequilíbrio

Em meio a esse cenário de crescente polarização, surgiram preocupações internas de que o Camboja estivesse excessivamente dependente da China, uma situação que não agradava a Hun Manet, filho de Hun Sen. Formado na academia militar de West Point, nos EUA, e preparado para assumir o cargo de primeiro-ministro em 2023, Hun Manet representa uma nova geração de liderança com potencial para reorientar a política externa do país. Sua formação no Ocidente, com uma compreensão mais aprofundada das perspectivas e interesses ocidentais, provavelmente serviu como um fator estratégico crucial nas considerações sobre o quanto ele poderia ajustar a trajetória da política externa do Camboja, até então profundamente enraizada na órbita chinesa.

Deth Sok Udom destaca que “os EUA expressaram repetidamente preocupações sobre possíveis operações chinesas e o futuro uso da base naval, apesar das negações do Camboja”. A necessidade de dissipar essas alegações impulsionou o Camboja a declarar Ream aberta a todas as marinhas do mundo, uma tentativa de demonstrar neutralidade. Embora duas corvetas chinesas – pequenos navios de guerra ágeis – rotacionem em Ream, o Camboja buscou validação externa. Visitas de navios do Japão, Vietnã e Rússia se seguiram, enquanto navios de guerra australianos e canadenses atracaram na vizinha Sihanoukville, um porto que não possui a mesma conotação de influência chinesa que Ream. Este “ato de equilíbrio” de Hun Manet sinaliza um esforço para diversificar as parcerias estratégicas, embora a magnitude da dependência cambojana da China continue a ser um desafio fundamental.

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