Os Estados Unidos conduziram hoje (03/01), uma operação militar direta e de alta complexidade em território venezuelano, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A ação foi confirmada oficialmente pela Casa Branca e apresentada como uma operação bem-sucedida de “neutralização de liderança hostil”, com os detidos transferidos sob custódia para os Estados Unidos, onde enfrentariam acusações federais previamente formalizadas por narcoterrorismo, tráfico internacional de drogas e conspiração criminosa.
A operação representa o mais significativo emprego de força militar norte-americana contra um Estado latino-americano desde a invasão do Panamá, em 1989, e sinaliza uma mudança qualitativa na postura de Washington, que abandona o uso exclusivo de sanções econômicas, isolamento diplomático e ações indiretas para empregar força cinética direta com objetivo político claramente definido.
Autoridades norte-americanas associaram a operação às acusações criminais já existentes contra Maduro desde 2020, relacionadas à narcoterrorismo e tráfico internacional. No entanto, permanece sem esclarecimento público se houve autorização explícita do Congresso dos Estados Unidos para o emprego de força militar em território soberano estrangeiro, ou se a ação foi conduzida sob interpretação ampliada de poderes executivos.

Relatos convergentes indicam que a operação envolveu ataques de precisão contra alvos militares e de comando na região metropolitana de Caracas, com emprego coordenado de meios aéreos e possivelmente forças de operações especiais. Explosões foram registradas em áreas sensíveis da capital, inclusive próximo de instalações militares estratégicas, acompanhadas por interrupções no fornecimento de energia elétrica em setores do sul da cidade, sugerindo ações deliberadas contra infraestrutura crítica ou centros de comando e controle.
A sequência dos eventos indica uma doutrina típica de operações de “decapitação de regime”, combinando supressão temporária de defesas, isolamento informacional e rápida extração de alvos de alto valor. A ausência de relatos de combates prolongados sugere superioridade tática esmagadora e elevado grau de inteligência prévia sobre a localização e os padrões de segurança do núcleo do poder venezuelano.

Reação interna e colapso do comando político
O governo venezuelano declarou estado de emergência e denunciou a operação como agressão militar externa, mobilizando formalmente as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas. No entanto, até o momento, não há confirmação independente de resistência organizada ou de confrontos significativos entre forças regulares venezuelanas e os meios empregados pelos Estados Unidos.
A vice-presidente Delcy Rodríguez exigiu provas de vida de Maduro e de sua esposa, reconhecendo implicitamente a perda do comando central do regime. A captura do chefe do Executivo representa um golpe direto à cadeia de comando político-militar do país, criando um vácuo de poder imediato e incertezas quanto à capacidade de coordenação das forças leais ao regime.

Repercussão internacional e implicações regionais
A reação internacional foi rápida e profundamente polarizada. Aliados tradicionais da Venezuela, como Cuba e Irã, condenaram a operação como violação flagrante da soberania nacional. Em contraste, governos alinhados aos Estados Unidos, como o da Argentina, manifestaram apoio político ao desfecho, interpretando a ação como um passo decisivo contra um regime considerado ilegítimo.
A operação militar direta norte-americana produz efeitos imediatos e estruturais sobre o equilíbrio geopolítico da América do Sul. Para os países vizinhos, o episódio representa mais do que uma crise pontual: a ação norte-americana rompeu um padrão vigente desde o pós-Guerra Fria, no qual a pressão sobre governos considerados hostis era exercida majoritariamente por meio de sanções, isolamento diplomático e operações indiretas. O emprego de força militar direta, sem mandato multilateral explícito, estabelece um precedente que tende a alterar os cálculos estratégicos dos Estados sul-americanos, especialmente daqueles com fronteiras terrestres com a Venezuela.
A desarticulação abrupta do comando político-central venezuelano eleva o risco de fragmentação do controle territorial, sobretudo em áreas periféricas e regiões fronteiriças. Nesse cenário, cresce a probabilidade de expansão da atuação de atores armados não estatais, incluindo organizações criminosas transnacionais, grupos armados irregulares e redes de economia ilícita.
Para países como Colômbia, Guiana e Brasil, a principal consequência imediata reside no aumento da pressão sobre fronteiras sensíveis, tanto do ponto de vista da segurança quanto do controle migratório. Como principal potência militar convencional da América do Sul, o Brasil é diretamente impactado pela reconfiguração do ambiente estratégico regional. A extensa e porosa fronteira norte, já marcada por limitações logísticas e baixa presença estatal, assume papel central na equação de segurança nacional.
No plano político-estratégico, a intervenção dos Estados Unidos coloca o Brasil diante de um dilema clássico. Por um lado, a tradição diplomática brasileira sustenta a defesa do princípio da soberania e da não intervenção. Por outro, a condição de liderança regional informal impõe expectativas quanto à capacidade de articulação política e de resposta estratégica do Brasil a eventos que alteram profundamente a estabilidade do subcontinente.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi rápido em condenar o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela, afirmando que a ação militar ultrapassa a linha do que é aceitável na relação entre países.
“Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.
O presidente da Argentina, Javier Milei, comemorou a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Em postagem na rede social X, Milei utilizou a frase “La libertad avanza, viva la libertad carajo”, um slogan político associado ao seu governo, para demonstrar apoio ao desfecho militar.

Implicações para a política de defesa e segurança interna
Do ponto de vista militar, o novo contexto impõe a necessidade de reforço permanente do dispositivo de vigilância, controle e dissuasão na Amazônia, com maior integração entre capacidades terrestres, aéreas, fluviais, espaciais e cibernéticas.
O episódio reforça, no debate estratégico brasileiro, a percepção de que a estabilidade regional não pode ser tratada exclusivamente como variável diplomática. A possibilidade de instabilidade prolongada na Venezuela amplia os desafios relacionados a fluxos migratórios, criminalidade transnacional e pressões sobre políticas públicas em áreas de fronteira, especialmente no estado de Roraima, impondo a necessidade de reforço permanente do dispositivo de vigilância, controle e dissuasão na Amazônia, com maior integração entre capacidades terrestres, aéreas, fluviais, espaciais e cibernéticas.
Esses fatores exigem maior coordenação entre Forças Armadas, órgãos de inteligência, forças policiais e estruturas civis do Estado, além de investimentos contínuos em capacidades de monitoramento e resposta rápida. No médio prazo, o cenário tende a influenciar decisões sobre prioridades orçamentárias e concepções doutrinárias no campo da defesa.
A intervenção norte-americana na Venezuela não constitui apenas um evento isolado, mas um marco na evolução da dinâmica de segurança sul-americana. Ao reduzir o espaço para soluções exclusivamente regionais e ampliar o peso de potências extrarregionais, o episódio inaugura um período de maior incerteza estratégica e inaugura uma fase na qual a capacidade de antecipação e resposta do Estado brasileiro será testada de forma contínua.
O episódio marca o encerramento de um período de relativa previsibilidade estratégica e inaugura uma fase na qual a capacidade de antecipação e resposta do Estado brasileiro será testada de forma contínua, demandando menos retórica e mais adaptação a esse novo ambiente preservando sua capacidade de dissuasão, mantendo a coerência diplomática e evitando que a instabilidade em seu entorno imediato se converta em vulnerabilidade estrutural.










